Carlo Simi
PIX, ZELLE E UMA PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR
Estamos falando de soberania.
PIX, ZELLE E UMA PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR
Por Carlo Simi
Quando uma comparação aparentemente simples nos obriga a refletir sobre soberania, instituições públicas e os verdadeiros interesses em jogo
A recente polêmica envolvendo declarações de Eduardo Bolsonaro trouxe para o debate público uma comparação que, no mínimo, merece ser examinada com atenção: afinal, o que têm em comum o Pix brasileiro e o Zelle americano?
À primeira vista, a resposta parece simples. Ambos permitem transferências eletrônicas de dinheiro.
Mas a semelhança praticamente termina aí.
O Pix é uma infraestrutura pública criada pelo Banco Central do Brasil, integrada a todo o sistema financeiro nacional e incorporada ao cotidiano de milhões de brasileiros. É utilizado no comércio, nos serviços, pelos trabalhadores autônomos, pelas pequenas empresas e até nas situações mais simples da vida diária.
O Zelle, por sua vez, é uma plataforma privada criada por bancos americanos para transferências entre contas. Possui utilidade, mas não ocupa na sociedade americana o papel que o Pix ocupa no Brasil.
Não são sistemas equivalentes.
Não possuem a mesma abrangência.
Não possuem a mesma importância econômica.
Não possuem a mesma função estratégica.
Por isso, a primeira pergunta que surge é inevitável: por que colocá-los lado a lado como se fossem comparáveis?
Mas existe uma questão ainda mais relevante.
Ao mencionar que o Brasil possui o Pix e os Estados Unidos possuem o Zelle, e que haveria algo a ser negociado, uma dúvida legítima aparece.
Negociar exatamente o quê?
O Pix não é uma empresa privada.
O Pix não pertence a um grupo econômico.
O Pix não pertence a um partido político.
O Pix não pertence a um governo.
O Pix é uma infraestrutura nacional construída pelo Estado brasileiro.
Sua criação não foi obra de um presidente da República. Não nasceu de uma promessa eleitoral. Foi resultado de anos de trabalho técnico realizado por servidores e especialistas do Banco Central ao longo de diferentes governos.
Presidentes passaram.
Governos mudaram.
O projeto continuou.
E foi justamente essa continuidade institucional que permitiu ao Brasil criar um dos sistemas de pagamento mais eficientes e inovadores do mundo.
Talvez este seja um dos aspectos mais importantes e menos compreendidos de toda essa discussão.
Vivemos em um país onde existe uma permanente disputa pela apropriação dos méritos. Se algo dá certo, logo surge alguém tentando transformá-lo em patrimônio político. Mas o Pix desafia essa lógica.
Ele não nasceu da vontade de um governante.
Nasceu da capacidade técnica de uma instituição pública.
Foi concebido, desenvolvido e aperfeiçoado por profissionais que permaneceram em seus postos enquanto presidentes, ministros e governos passavam.
Por isso, a discussão vai muito além de uma simples comparação tecnológica.
Estamos falando de soberania.
Estamos falando da capacidade de um país desenvolver soluções próprias para seus problemas.
Estamos falando de uma ferramenta que reduziu custos, facilitou a vida da população, ampliou a inclusão financeira e se tornou referência internacional.
Diante disso, a pergunta que permanece é simples.
Quando alguém coloca o Pix numa mesa de negociação internacional, está defendendo exatamente quais interesses?
Os interesses do Brasil?
Os interesses dos consumidores brasileiros?
Os interesses dos pequenos comerciantes?
Ou interesses de outra natureza?
Cada leitor tirará suas próprias conclusões.
Mas uma coisa parece evidente.
Antes de discutir o futuro do Pix, talvez seja importante compreender aquilo que ele realmente representa.
O Pix não é apenas uma tecnologia.
O Pix não é apenas um meio de pagamento.
O Pix é uma conquista institucional brasileira.
E conquistas dessa natureza merecem ser compreendidas, valorizadas e protegidas.
Num país acostumado a personalizar tudo, talvez o maior ensinamento do Pix seja justamente o contrário: grandes conquistas nacionais não pertencem a líderes passageiros. Pertencem às instituições e às pessoas que continuam trabalhando quando os discursos terminam.
A soberania de uma nação não se mede apenas por suas fronteiras, suas riquezas naturais ou sua força econômica. Ela também se mede pela capacidade de produzir conhecimento, desenvolver tecnologia e construir soluções próprias para atender às necessidades do seu povo.
O Pix é uma demonstração concreta dessa capacidade.
E talvez seja exatamente por isso que ele merece ser tratado não como patrimônio de um governo, de um partido ou de uma corrente ideológica, mas como patrimônio de todo o Brasil.
Carlo Simi é Matemático, Professor, Servidor Público, Sócio Proprietário e Torcedor do Fluminense, Frequentador dos jogos e do clube desde a década de 50, Ex-Conselheiro, Membro do Grupo Por Amor ao Tricolor e Membro da Embaixada Tricolores da Zona Sul.




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