JJ
Epidemia Silenciosa da Estética
Uma questão de saúde pública.
Epidemia Silenciosa da Estética
Por JJ
A morte precoce do influenciador fitness e fisiculturista Gabriel Ganley, aos 22 anos, causou surpresa. É impossível não sentir compaixão por sua família, seus amigos e pelos milhões de jovens que acompanhavam sua trajetória nas redes sociais. A juventude interrompida sempre produz indignação. Mas a emoção não pode impedir a reflexão.
Independentemente das conclusões finais da investigação, o caso lança luz sobre uma realidade que há anos cresce diante dos nossos olhos: a epidemia do culto ao corpo alimentada por hormônios, anabolizantes e outras substâncias de alto risco comercializadas com assustadora naturalidade.
Basta navegar por algumas redes sociais para perceber que corpos biologicamente excepcionais passaram a ser apresentados como metas comuns. O extraordinário tornou-se obrigatório. O artificial passou a ser vendido como disciplina. E o risco foi transformado em detalhe.
Nenhum observador minimamente informado ignora que os padrões físicos exibidos por parte da indústria fitness dificilmente são alcançados apenas com alimentação equilibrada e treinamento. O problema não está apenas no uso das substâncias, mas na mensagem transmitida para milhões de adolescentes e jovens adultos: a de que o valor pessoal depende da aparência física e de que qualquer sacrifício é aceitável para alcançá-la.
A internet transformou corpos em vitrines e seguidores em mercado consumidor. Quanto mais impressionante a transformação corporal, maior o alcance. Quanto maior o alcance, maiores os contratos, os patrocínios e a monetização. Nesse ambiente, a pressão para ultrapassar limites fisiológicos torna-se permanente.
O resultado é visível. Cresce o consumo indiscriminado de anabolizantes, hormônios, estimulantes e medicamentos originalmente desenvolvidos para tratar doenças específicas. Muitos desses produtos circulam livremente em plataformas digitais, academias e até estabelecimentos comerciais conhecidos pelas autoridades. Em alguns casos, contam inclusive com a legitimação de profissionais que deveriam atuar como barreira sanitária e não como facilitadores.
O problema deixou de ser individual. Tornou-se questão de saúde pública.
Quando milhares de jovens acreditam que músculos gigantes representam saúde, quando adolescentes enxergam hormônios como suplementos comuns e quando medicamentos passam a ser utilizados para finalidades estéticas sem adequada avaliação de riscos, estamos diante de uma epidemia cultural.
Por isso, a resposta não pode se limitar ao luto. É necessária uma ação coordenada entre autoridades sanitárias, órgãos de fiscalização, conselhos profissionais, escolas e plataformas digitais. Campanhas educativas precisam expor os efeitos cardiovasculares, metabólicos e psicológicos associados ao uso irresponsável dessas substâncias. A publicidade velada precisa ser combatida. A venda irregular precisa ser enfrentada com rigor.
A mãe de Gabriel classificou a perda do filho como uma tragédia. E toda morte prematura realmente é trágica. Mas o desafio coletivo é compreender que, por trás de histórias individuais, existe um fenômeno social muito maior. Jovens estão sendo convencidos diariamente de que a aparência vale mais que a saúde.
Nenhum abdômen definido, nenhum bíceps hipertrofiado e nenhum milhão de seguidores compensam a perda de uma vida aos 22 anos.
Talvez a maior consequência a se extrair do fato seja transformar a morte do rapaz em um alerta para proteger outros jovens antes que eles também descubram, tarde demais, o preço da estética química.
JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira




COMENTÁRIOS