Everaldo Leite
O que é o dízimo segundo a Bíblia?
A verdade de fato
O que é o dízimo segundo a Bíblia?
Por Everaldo Leite, jornalista
O tema do dízimo é, sem dúvida, um dos mais debatidos dentro do meio religioso. Ao longo dos anos, consolidou-se uma prática que, muitas vezes, não é questionada à luz das Escrituras. Por isso, é necessário voltar ao texto bíblico para compreender o que, de fato, é o dízimo.
Ao analisar a Bíblia, percebe-se que o dízimo, em sua origem, não estava relacionado ao dinheiro, como é frequentemente ensinado na atualidade. Ele consistia, principalmente, em alimentos e produtos da terra. Em passagens como Deuteronômio 14:22-23 e Levítico 27:30, o dízimo é descrito como parte da colheita: grãos, vinho, azeite e frutos.
Esse ponto é fundamental, pois revela que o dízimo não era um sistema financeiro, mas sim um modelo de sustento dentro de uma estrutura específica do povo de Israel.
O propósito do dízimo também é claramente definido. Em Números 18:21, observa-se que ele era destinado aos levitas — uma tribo separada para o serviço religioso. Diferentemente das demais tribos, os levitas não possuíam terras nem herança, o que os impedia de produzir seu próprio sustento. Assim, o dízimo cumpria uma função social e espiritual: manter aqueles que se dedicavam integralmente ao serviço no templo.
Outro aspecto importante é a distinção entre dízimo e oferta. A própria Escritura faz essa separação de forma explícita. Em Malaquias 3:8, há menção aos “dízimos e ofertas”, indicando que não se tratam da mesma coisa.
Enquanto o dízimo estava ligado a uma obrigação dentro da lei mosaica, a oferta tinha caráter voluntário. Esse princípio se torna ainda mais evidente quando avançamos para o Novo Testamento.
Ao observar a igreja primitiva, especialmente nos relatos do livro de Atos, não há qualquer registro de dízimo como obrigação — muito menos como sistema financeiro — entre os cristãos. Em Atos 2:44-45 e Atos 4:32-35, o que se vê é um modelo de comunhão e partilha voluntária, no qual cada um contribuía conforme a necessidade do outro.
Além disso, no concílio descrito em Atos 15, quando se discute quais práticas deveriam ser exigidas dos gentios (não judeus), não há qualquer menção à obrigatoriedade do dízimo. Isso reforça que tal prática não foi estabelecida como mandamento para a igreja.
Os ensinamentos apostólicos confirmam esse princípio. Em 2 Coríntios 9:7, o apóstolo Paulo orienta que cada pessoa contribua conforme decidiu em seu coração, sem tristeza ou por obrigação, destacando a voluntariedade como base da contribuição cristã.
É importante destacar que o dízimo, como apresentado no Antigo Testamento, estava ligado especificamente ao povo judeu, dentro de uma realidade anterior à nova aliança. Inclusive, o livro de Malaquias — frequentemente utilizado em discursos atuais — foi escrito cerca de quatro séculos antes do período do Novo Testamento, dentro de um contexto totalmente distinto daquele vivido pela igreja primitiva.
Historicamente, a prática do dízimo como obrigação financeira surge posteriormente, especialmente durante a Idade Média, com a institucionalização da igreja. Nesse período, o dízimo passa a assumir características de imposto, voltado à manutenção da estrutura religiosa.
No entanto, esse modelo não corresponde ao padrão da igreja descrita em Atos, onde não havia imposição financeira, mas sim contribuição voluntária.
Diante disso, é possível concluir que o dízimo bíblico possuía um contexto específico: era composto por alimentos, destinado aos levitas e inserido dentro da lei de Israel.
Já no Novo Testamento, o princípio que prevalece é o da contribuição voluntária, sem imposição, baseada na consciência e na generosidade.
Compreender essa diferença é essencial para distinguir entre tradição religiosa e fundamento bíblico, permitindo uma reflexão mais clara e responsável sobre o tema.




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