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Barra Mansa,24/05/2026

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    Milton Santos

    O Intelectual Brasileiro que Pensou o Mundo


    Milton Santos

    Milton Santos, o Intelectual Brasileiro que Pensou o Mundo

    Por JJ

    Há autores que se tornam referências acadêmicas. Há outros que atravessam gerações, ultrapassam fronteiras disciplinares e ajudam a compreender o próprio tempo histórico. Milton Santos pertence a essa segunda categoria. Geógrafo, intelectual público, professor, pensador da globalização e um dos maiores cientistas sociais produzidos pelo Brasil, sua obra permanece viva porque oferece instrumentos para interpretar as transformações do mundo contemporâneo e os dilemas das sociedades periféricas.

    Nascido em 1926, na cidade de Brotas de Macaúbas, no interior da Bahia, filho de professores negros, Milton Santos construiu uma trajetória intelectual extraordinária em um país que historicamente impôs obstáculos à ascensão de sua população afrodescendente. Tornou-se um dos mais respeitados geógrafos do planeta, lecionou em universidades de diversos países e recebeu, em 1994, o Prêmio Vautrin Lud, frequentemente chamado de "Nobel da Geografia", distinção máxima da área.

    Mas reduzir Milton Santos a um grande geógrafo seria insuficiente. Ele foi, acima de tudo, um intérprete do Brasil e um crítico original da modernidade contemporânea.

    Um Pensador da Globalização

    A principal contribuição teórica de Milton Santos foi a elaboração de uma nova compreensão da globalização. Em vez de aceitá-la como um fenômeno inevitavelmente positivo ou neutro, analisou suas contradições, seus mecanismos de concentração de riqueza e seus efeitos sobre os países periféricos. Para ele, a globalização dominante não representava a integração harmoniosa dos povos, mas um sistema profundamente desigual, organizado em benefício dos grandes centros econômicos e financeiros.

    Sua obra mais conhecida, Por uma Outra Globalização, tornou-se leitura obrigatória muito além dos departamentos de Geografia. Nela, distinguiu três dimensões do fenômeno: a globalização como fábula, apresentada pela propaganda dominante; a globalização como perversidade, vivida concretamente pelas populações; e a globalização como possibilidade, baseada na construção de relações mais humanas, solidárias e democráticas.

    Era uma crítica sofisticada, que não rejeitava a tecnologia nem o avanço técnico. Ao contrário, reconhecia o enorme potencial emancipador das inovações, mas denunciava sua apropriação desigual por estruturas econômicas concentradoras. Sua preocupação central não era a técnica em si, mas o uso político e social que dela se fazia.

    A Construção de uma Teoria Brasileira

    Num ambiente acadêmico frequentemente marcado pela importação acrítica de teorias produzidas nos centros hegemônicos, Milton Santos ousou construir uma interpretação original da realidade brasileira e latino-americana. Defendeu a necessidade de compreender os territórios a partir de suas experiências concretas, de suas especificidades históricas e de suas formas próprias de inserção no mundo globalizado.

    Seu conceito de espaço geográfico revolucionou a disciplina. Para Santos, o espaço não era mero cenário onde a vida social acontece, mas resultado da interação permanente entre sistemas de objetos e sistemas de ações, entre infraestrutura material e práticas humanas. Essa formulação tornou-se uma das bases da Geografia contemporânea e continua sendo amplamente utilizada por pesquisadores em diferentes países.

    Poucos intelectuais brasileiros alcançaram tamanho reconhecimento internacional sem abrir mão de uma perspectiva profundamente enraizada na experiência nacional.

    O Intelectual Negro que Desafiou Estruturas

    A trajetória de Milton Santos possui também um significado histórico especial para a população negra brasileira.

    Ele próprio reconhecia as dificuldades impostas pela combinação entre racismo estrutural e atividade intelectual em uma sociedade marcada por profundas desigualdades. Sua ascensão acadêmica representou uma ruptura poderosa com padrões históricos de exclusão e ajudou a ampliar a presença de intelectuais negros nos espaços universitários e científicos.

    Sua obra nunca se restringiu a questões identitárias, mas sua própria existência como intelectual negro de projeção mundial carregava enorme significado político e simbólico. Demonstrava que excelência acadêmica, pensamento universal e experiência periférica podiam coexistir e se fortalecer mutuamente.

    Um Pensamento Inovador Nem Sempre Bem Recebido

    Como ocorre com quase todos os grandes inovadores, Milton Santos não esteve livre de resistências.

    Seu pensamento desafiava consensos estabelecidos e confrontava tanto visões conservadoras quanto certos dogmatismos presentes no próprio ambiente universitário. Sua crítica permanente ao conformismo intelectual e à reprodução mecânica de teorias importadas provocou desconfortos em diferentes correntes acadêmicas.

    É razoável afirmar que a originalidade de suas formulações nem sempre recebeu, em vida, o reconhecimento proporcional à sua relevância. Sua postura independente, muitas vezes crítica em relação às modas intelectuais e aos mecanismos de legitimação acadêmica, limitou interlocuções e gerou resistências institucionais.

    Contudo, seria exagerado atribuir a recepção de sua obra exclusivamente a perseguições ou boicotes organizados. O próprio fato de ter alcançado projeção internacional, ocupar posições centrais em importantes universidades e tornar-se uma referência obrigatória demonstra que seu pensamento conquistou espaços significativos. O que se pode afirmar com segurança é que suas ideias frequentemente desafiaram estruturas intelectuais consolidadas, encontrando oposição precisamente porque questionavam certezas estabelecidas.

    Um Legado Permanente

    Passados mais de vinte anos de sua morte, Milton Santos continua presente nas universidades, nos concursos públicos, nos vestibulares, nos centros de pesquisa e nos debates sobre desenvolvimento, urbanização, território e globalização. Não se trata de uma homenagem protocolar. Sua permanência decorre da vitalidade de suas ideias.

    Num mundo marcado pela concentração de riqueza, pelas transformações tecnológicas aceleradas, pela fragmentação social e pelas novas disputas geopolíticas, suas reflexões permanecem surpreendentemente atuais. Sua obra oferece não apenas instrumentos analíticos para compreender a realidade, mas também um horizonte ético fundado na cidadania, na solidariedade e na valorização da experiência humana.

    Milton Santos pertence à rara categoria dos intelectuais cuja relevância cresce com o tempo. Foi um brasileiro universal, um cientista de estatura internacional e um pensador que recusou tanto o provincianismo quanto a submissão intelectual. Seu legado demonstra que é possível produzir conhecimento de alcance global a partir do Sul, interpretar criticamente o mundo sem abandonar a esperança e construir teoria de alto nível sem perder de vista os problemas concretos da sociedade.

    A memória de Milton Santos honra o Brasil porque sua obra continua ensinando que compreender o espaço é compreender o poder, a desigualdade e, sobretudo, as possibilidades de transformação humana.

     JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira  


     



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