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Barra Mansa,26/05/2026

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    O Perdão que Atravessou os Séculos

    A escravidão não foi apenas um sistema econômico. Foi um projeto de desumanização.


    O Perdão que Atravessou os Séculos

    O Perdão que Atravessou os Séculos

    Por JJ 

    Há datas que entram para a História pelo que aconteceu. Outras entram para a História pelo que demorou a acontecer.

    Neste 25 de maio, Dia da África, o mundo ouviu uma frase que atravessou oceanos, séculos e consciências. Pela primeira vez, um Papa reconheceu de maneira clara e direta a responsabilidade histórica da própria Igreja Católica na legitimação da escravidão e pediu perdão em nome da instituição.

    Não se trata de um gesto pequeno. Não se trata de uma formalidade diplomática. Trata se de um acontecimento moral.

    Durante mais de quatro séculos, milhões de africanos foram arrancados de suas terras, separados de suas famílias, embarcados em navios tumbeiros e transformados em mercadoria humana. Homens, mulheres e crianças tiveram seus nomes apagados, suas culturas perseguidas, suas crenças ridicularizadas e seus corpos vendidos como objetos.

    A escravidão não foi apenas um sistema econômico. Foi um projeto de desumanização.

    E como todo grande sistema de opressão, precisou de justificativas para sobreviver. Precisou de leis. Precisou de exércitos. Precisou de interesses econômicos. E precisou também de discursos morais e religiosos que, em diferentes momentos da História, ajudaram a legitimar o inaceitável.

    Por isso, quando o Papa Leão XIV admite que autoridades da Igreja participaram desse processo e que a condenação formal da escravidão chegou tarde demais, não está apenas falando do passado. Está rompendo um silêncio secular.

    Os fatos históricos não mudam. Os navios negreiros não desaparecem. Os açoites não deixam de ter existido. Os mortos não retornam.

    Mas a verdade tem um poder próprio.

    Ela não ressuscita as vítimas, mas impede que sejam esquecidas.

    A grandeza de uma instituição não está na capacidade de esconder seus erros. Está na coragem de reconhecê los.

    Durante muito tempo, a escravidão foi tratada como uma página encerrada da História. Mas para milhões de descendentes de africanos espalhados pelo Brasil, pelas Américas, pelo Caribe e pela própria África, suas consequências continuam presentes na desigualdade, no racismo estrutural, na exclusão social e nas cicatrizes ainda abertas da memória coletiva.

    Por isso, o pedido de perdão feito neste Dia da África possui um significado que ultrapassa os muros do Vaticano.

    Ele representa um chamado à honestidade histórica.

    Reconhecer a participação das instituições nos erros do passado não enfraquece a civilização. Ao contrário. Fortalece a democracia, fortalece a justiça e fortalece a própria humanidade.

    Nenhum povo deve ser condenado a carregar sozinho o peso da dor que lhe foi imposta.

    Nenhuma nação pode construir um futuro digno baseada no esquecimento.

    Nenhuma fé perde sua força ao pedir perdão. Ela a encontra.

    Que este gesto histórico não seja apenas uma declaração simbólica.

    Que seja um convite permanente à memória.

    Que seja um compromisso com a verdade.

    Que seja um tributo aos milhões de africanos que sofreram, resistiram e sobreviveram.

    E que seja, sobretudo, um lembrete de que a dignidade humana não tem cor, não tem fronteiras e não pode jamais voltar a ser negociada.

    JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira  




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