Marcelo Soares
O esporte que a TV mostrou e o placar escondeu:
Por que precisamos falar de Inteligência Coletiva?
O esporte que a TV mostrou e o placar escondeu:
Por que precisamos falar de Inteligência Coletiva?
Por Marcelo Soares
Se você ligar a televisão em um domingo à tarde, é provável que veja a mesma narrativa esportiva sendo repetida há décadas: a hipercompetitividade, o contato físico agressivo, o individualismo do "craque" que resolve o jogo sozinho. É o formato que vende, mas é também o formato que exclui.
Durante a minha trajetória com a Educação Física e a Psicomotricidade, decidi remar contra essa maré. E, curiosamente, foi exatamente essa quebra de padrão que chamou a atenção da própria mídia.
Quando tive a oportunidade de levar o Korfebol para as telas de programas de alcance nacional — como o Mais Você, Esporte Espetacular, Jornal Nacional, Fantástico, além de grandes coberturas no SporTV, Band Sports e Record —, o que atraiu os holofotes não foi apenas a dinâmica de um esporte onde homens e mulheres jogam juntos. O que as câmeras captaram foi uma verdadeira revolução comportamental disfarçada de jogo.
A verdade que a educação tradicional custa a admitir é esta: o esporte de performance clássico afasta quem não tem um "perfil matador".
Aquele jovem mais introspectivo, que foge do embate físico ou que teme errar sob pressão, é rapidamente ejetado das quadras. Ele vira o eterno "goleiro por obrigação" ou o aluno que pede dispensa da aula.
É aqui que o Korfebol atua como uma ferramenta cirúrgica de inclusão. Por ser uma modalidade mista, sem drible e sem contato físico agressivo, ele cria um ambiente seguro. As pessoas que foram excluídas de outras modalidades encontram ali um espaço de pertencimento e protagonismo.
Mas a mágica mais profunda acontece no outro extremo da quadra.
O que acontece com aquele indivíduo de perfil altamente competitivo, agressivo, acostumado a "pegar a bola e resolver sozinho"?
No Korfebol, como não há drible, ele é obrigado a tocar a bola. Ele é forçado a olhar para o colega, a entender o tempo do outro, a controlar sua frustração e a refrear sua agressividade física.
Isso não é apenas esporte. Isso é Gestão da Emoção em tempo real.
Quem pratica modalidades cooperativas passa por um laboratório prático de convívio humano. O indivíduo aprende a administrar a própria ansiedade, a respeitar os limites do corpo (o seu e o do adversário) e a desenvolver o que chamamos de Inteligência Coletiva. O sucesso do grupo passa a depender obrigatoriamente da harmonia entre as partes, e não do brilho egoísta de um só.
Quando a grande mídia abriu espaço para esse debate, ficou claro que a sociedade anseia por modelos mais saudáveis de convivência.
Precisamos formar pessoas preparadas para lidar com frustrações, para trabalhar em rede e para resolver problemas sem apelar para o "contato agressivo" — seja na quadra, nas empresas ou na política.
Aqui no www.komunica.net.br o nosso compromisso é exatamente este: trazer o contexto de volta para a pauta. O esporte é, antes de tudo, o ensaio geral para a vida em sociedade.
E a pergunta que eu deixo para você, que é pai, professor ou gestor, é esta: quais emoções o ambiente que você lidera está treinando todos os dias?
Marcelo Soares é Especialista em Educação Física Escolar (Pós-graduação, 2008), com sólida formação acadêmica (Licenciatura Plena, 2003) focada na Psicomotricidade e no Desenvolvimento Motor da Educação Infantil até o EJA.




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