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Barra Mansa,25/05/2026

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    MK - Marcelo Kieling

    Tudo que é demais é pecado?

    Um Freio de Emergência na Alma


    Tudo que é demais é pecado?

    Tudo que é demais é pecado?

    Um Freio de Emergência na Alma

    Por Marcelo Kieling

    O acelerador está travado no assoalho.

    Vivemos na era do clique infinito, da dopamina fracionada em segundos, daquele banquete que nunca recolhe os pratos. A modernidade nos vendeu a falsa ilusão de que a felicidade é uma linha reta ascendente de consumo, informação, performance e presença. Queremos o clique, o próximo post, a próxima meta batida, o próximo milhão, a próxima viagem, o acúmulo absoluto. Estamos sendo impulsionados por uma força invisível que sussurra, a cada esquina da bolha digital, que a escassez é uma derrota e que o limite é uma fraqueza dos covardes. Mas, no meio desse ruído ensurdecedor de talheres batendo e taças transbordando, uma frase antiga, quase sussurrada pelas avós na cozinha da infância, insiste em ecoar como um alarme de incêndio: tudo o que é demais é pecado.

    Essa máxima não sobreviveu aos milênios por um simples capricho moralista ou por uma absoluta herança de culpa religiosa. Ela resistiu porque é, em sua essência, um real tratado de engenharia existencial. É o freio de segurança que a sabedoria ancestral instalou na nossa máquina biológica, sabendo que fomos projetados para a selva, onde a escassez manda acumular energia, mas no final, fomos jogados dentro de um shopping center global de opções infinitas. Diante dentro desse abismo da nossa própria natureza impulsiva, a frase funciona como aquela área de escape na descida da serra: ela não impede a velocidade, mas talvez evite um grave desastre quando os freios perdem a aderência.

    A análise desse fenômeno exige que desçamos do pedestal da nossa soberba contemporânea. O homem moderno orgulha-se de sua suposta liberdade. "Posso fazer tudo", dizemos, enquanto nos tornamos escravos de malditos algoritmos que mapeiam as nossas fraquezas e nos entregam exatamente o excesso que nos adoece. A verdadeira liberdade, contudo, nunca esteve na ausência de barreiras. O rio só tem força, curso e destino porque tem margens; sem elas, espalha-se pela planície, perde a profundidade e vira um pântano de águas paradas. O domínio próprio — essa virtude esquecida nos manuais de autoajuda corporativa — é o verdadeiro divisor de águas entre o homem livre e o homem apenas estimulado. Saber a hora de parar não é uma concessão à fraqueza, mas o exercício máximo da verdadeira soberania sobre si mesmo.

    Olhemos para o banquete da vida. A metáfora é perfeita porque toca na nossa necessidade mais primária. Diante de uma mesa farta, o impulso inicial é o da rapina. Queremos provar de tudo, encher o prato, esvaziar as travessas. Mas há uma sutil e perigosa fronteira entre a nutrição e a indigestão. O segredo da existência não está na privação neurótica — passar fome no meio da abundância é uma violência contra a própria vida, um ar puritano estéril que nega a beleza do mundo. Mas passar mal de tanto comer, arrastar-se para fora da mesa com o corpo pesado e a mente anuviada, é uma lastimável profanação do próprio prazer. O pico da sabedoria gastronômica, e consequentemente da sabedoria de viver, é o instante exato em que pousamos os talheres: satisfeitos, leves, com o paladar ainda guardando o registro do sabor, sem ter o peso da culpa ou o desconforto do abuso. É sair da mesa com vontade de querer voltar amanhã.

    É nessa mesma mesa, contudo, que a rigidez da regra encontra a doçura da nossa humanidade. Lembro-me, com uma saudade terna que aquece o peito, da figura inesquecível de meu falecido sogro, Renato Torres da Rocha. Homem de espírito refinado, ele operava uma diplomacia silenciosa durante as refeições em família. Quando os olhos atentos da mesa ameaçavam censurar a busca por mais uma taça de vinho, Renato recorria à máxima de forma retórica e invertida. Com um brilho travesso no olhar, defendia-se argumentando que o vinho não era um excesso, mas um santo remédio para a alma e para o corpo. Ao transformar a dose extra em prescrição médica, ele desarmava a patrulha do "pecado" com pura poesia cotidiana. Naquela sua teimosia elegante, compreendíamos que certas transgressões, quando banhadas de afeto e partilha, são justamente o tempero que dá sabor à nossa passagem pelo mundo.

    Essa lógica se aplica com rigor cirúrgico ao nosso cotidiano profissional e pessoal. O profissional que não conhece limites para a sua ambição transforma a carreira em um altar de sacrifícios humanos, onde a primeira vítima é a sua própria sanidade e a segunda, aqueles que o cercam. O comunicador que satura o público com informação ininterrupta não informa; ensurdece. O líder que exige o esgotamento de sua equipe não constrói um legado; gerencia um colapso. O excesso de zelo vira sufocamento; o excesso de planejamento vira paralisia; o excesso de autoconfiança vira arrogância. Até mesmo a busca pela perfeição, quando levada ao extremo, transforma-se em uma neurose paralisante que impede a beleza do erro criativo, do rascunho, do improviso que dá alma à arte e à vida.

    O "pecado" de que fala a máxima popular não deve ser lido sob a ótica do castigo divino, mas sim da consequência natural. Pecar, na raiz etimológica da palavra grega hamartia, significa simplesmente "errar o alvo". E o excesso é sempre um erro de pontaria. Quando puxamos a corda do arco além do limite, ela arrebenta; quando a soltamos frouxa demais, a flecha cai aos nossos pés. O equilíbrio — que os gregos chamavam de sophrosyne e os orientais de Caminho do Meio — é a arte de tensionar a corda na medida exata para que o disparo seja preciso, firme e alcance o destino.

    Portanto, que sejamos impulsivos na paixão de viver, na busca pelos nossos recordes, na criação de projetos que transformem a realidade ao nosso redor. Mas que tenhamos a lucidez analítica de reconhecer o valor do limite. O limite não é o fim da estrada; é o contorno que dá forma ao desenho. É a pausa na partitura que permite que a música seja música e não apenas barulho. No grande banquete que é estar vivo, a maior vitória não é esvaziar a adega, mas brindar à vida com a lucidez de quem sabe que o melhor gole é sempre o próximo, desde que saibamos, com elegância e domínio, a hora de poder levantar da mesa.

    Ferramentas de IA foram utilizadas na elaboração deste conteúdo.Todo o conteúdo foi revisado por humanos.


     



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