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Barra Mansa,10/06/2026

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    JJ

    Agora é Pra Valer

    Terminou a fase da especulação.


    Agora é Pra Valer

    Agora é Pra Valer

    Por JJ

    Após meses de debate, tensão, torcida, apostas e, pra variar, polarização de opiniões, finalmente conhecemos os vinte e seis jogadores que irão representar o Brasil na maior competição do futebol mundial. Terminou a fase da especulação. Agora é pra valer.

    Toda convocação da Seleção Brasileira carrega um peso que poucas camisas no planeta suportam. Não se trata apenas de escolher atletas. Trata se de lidar com expectativas nacionais, paixões regionais, interesses comerciais, pressão midiática e memórias afetivas de um país inteiro que aprendeu a medir o tempo pelas Copas do Mundo.

    E talvez seja justamente aí que esteja o tamanho do desafio.

    O Brasil não chega a uma final de Copa do Mundo há vinte e quatro anos. Desde o pentacampeonato conquistado em 2002, o futebol brasileiro passou por frustrações profundas, eliminações traumáticas e uma lenta erosão daquela sensação histórica de superioridade que durante décadas parecia natural para nós.

    Curiosamente, quando vencemos o Mundial na Coreia e no Japão, o cenário também não era de absoluto favoritismo. O título veio depois de uma campanha de desconfiança, após uma classificação sofrida e cercada de críticas. Apenas oito anos nos separavam do tetracampeonato e somente quatro da dolorosa final contra a França em Paris. Ainda assim, o sentimento era de reconstrução.

    Hoje, porém, a realidade é diferente.

    O futebol mundial evoluiu, se globalizou, ganhou intensidade física, organização tática e profundidade coletiva. Enquanto isso, o Brasil alternou gerações talentosas com seleções desequilibradas emocionalmente e frágeis competitivamente nos momentos decisivos. Não faltaram craques. Faltou time.

    Dentro desse contexto, a convocação do treinador italiano parece, ao menos em linhas gerais, coerente. Carlo Ancelotti não sucumbiu completamente à pressão dos grandes grupos de comunicação, tampouco à velha lógica de favorecer determinados centros futebolísticos. Houve escolhas discutíveis, como sempre haverá, mas predominou um critério técnico defensável.

    A presença de Neymar naturalmente gera controvérsia. É impossível ignorar o peso esportivo e simbólico do jogador, mas também seria ingenuidade desconsiderar a influência comercial que o cerca. Neymar transcende o futebol. Ele movimenta marcas, audiência, engajamento e expectativas populares. Sua convocação mistura razões esportivas, emocionais e mercadológicas.

    Ainda assim, o restante da lista parece obedecer mais ao desempenho e à funcionalidade do elenco do que ao barulho externo.

    Outro ponto importante é a presença significativa de atletas que atuam no futebol brasileiro. Isso não resolve problemas técnicos automaticamente, mas cria um elemento de identidade que há tempos parecia perdido. O torcedor reconhece esses jogadores, acompanha suas atuações semanalmente e sente uma proximidade maior com a equipe nacional.

    Seleções não vivem apenas de esquemas táticos. O aspecto emocional pesa muito em torneios curtos. Confiança, ambiente, conexão com a torcida e capacidade de suportar pressão muitas vezes desequilibram confrontos que parecem definidos no papel.

    E no papel, sejamos honestos, existem seleções mais fortes que o Brasil.

    França, Espanha, Portugal e Argentina chegam mais organizadas, mais maduras coletivamente e, em alguns casos, tecnicamente superiores. Possuem modelos de jogo consolidados, continuidade de trabalho e atletas vivendo grande fase. O Brasil, ao contrário, ainda tenta encontrar sua identidade.

    Nem mesmo a fase de grupos inspira tranquilidade absoluta. Esta talvez seja a primeira Copa em muito tempo em que o torcedor brasileiro entra menos arrogante e mais cauteloso. E talvez isso não seja ruim.

    A arrogância costuma afastar a lucidez. A consciência das próprias limitações pode aproximar a equipe da competitividade real que uma Copa exige.

    Porque futebol, felizmente, não é matemática.

    Se fosse, não existiriam zebras, milagres esportivos, campanhas improváveis ou noites históricas. O futebol conserva justamente essa capacidade rara de desafiar lógica, estatística e previsões. E poucos povos no mundo sabem produzir improviso, talento e emoção como o brasileiro.

    Quando consegue jogar futebol de verdade, sem o peso excessivo da ansiedade e sem a necessidade permanente de provar grandeza, o Brasil ainda é capaz de surpreender qualquer adversário.

    Talvez seja cedo para acreditar em favoritismo. Mas também seria precipitado decretar fracasso antecipado.

    A maior Copa do Mundo da história pode acabar sendo exatamente o cenário ideal para uma seleção desacreditada reencontrar sua alma competitiva. O futebol brasileiro não perdeu sua essência. Em muitos momentos apenas se distanciou dela.

    Fazer as pazes com o título será difícil. Muito difícil.

    Mas há uma verdade eterna no futebol que nenhuma análise consegue destruir, o impossível raramente dura noventa minutos.

    JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira

     



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