MK - Marcelo Kieling
Operação Sem Refino
O Rio de Janeiro vira posto de abastecimento do crime
Operação Sem Refino
O Rio de Janeiro vira posto de abastecimento do crime
Por Marcelo Kieling
Há uma máxima na política fluminense que poucos ousam escrever, mas todos conhecem: no Rio, o poder se mede em barris. Quem controla o combustível — a distribuição, a tributação, a fiscalização — controla o estado. Não por acaso, as maiores fortunas políticas do Rio nasceram à sombra de refinarias, postos e distribuidoras. A Operação Sem Refino, deflagrada pela Polícia Federal é o raio-X desse modelo de captura — e a imagem revela um tumor que já se espalhou por todos os órgãos do corpo institucional.
O setor de combustíveis no Rio de Janeiro sempre foi um território de fronteira entre o lícito e o ilícito. Da guerra fiscal entre estados ao controle de postos por milícias, passando pelo contrabando e pela adulteração de combustíveis, o segmento acumula décadas de escândalos. A Operação Sem Refino sugere que, por trás das refinarias e distribuidoras, operava uma estrutura paralela de poder — com braços no Legislativo, no Judiciário e no Executivo.
Comecemos pelo óbvio: R$ 52 bilhões. Este número não cabe na imaginação. Não cabe numa manchete. Não cabe na conta bancária de ninguém que tenha construído fortuna pelo trabalho honesto. Para efeito de comparação: o estado do Rio de Janeiro gastou, em 2025, aproximadamente R$ 7 bilhões com saúde pública. Sete bilhões. O valor bloqueado pela Justiça nesta operação equivale a mais de sete anos do orçamento da saúde fluminense — evaporado em esquemas de evasão de divisas e ocultação de patrimônio.
Este dado, por si só, já deveria encerrar qualquer debate sobre a gravidade do caso. Mas a Operação Sem Refino não é apenas sobre dinheiro. É sobre como o poder se organiza para destruir o Estado por dentro.
O ex-governador que renunciou em março, alegando pretensão de disputar o Senado, sabia que o cerco estava se fechando. A inelegibilidade decretada pelo TSE foi a pá de cal na sua carreira política — mas não foi surpresa. Foi a consequência lógica de um projeto de poder que confundiu o erário com o caixa pessoal, a máquina pública com curral eleitoral, o interesse coletivo com o lucro privado.
E agora a ADPF das Favelas — instrumento jurídico criado para conter a violência do Estado nas comunidades — revela-se também uma chave para destrancar as portas dos gabinetes. É quase poético, num sentido trágico: a mesma ferramenta desenhada para proteger os cidadãos das balas perdidas do Estado está agora expondo aqueles que, de dentro do Estado, atiravam contra o bolso do cidadão.
O que mais assombra, contudo, é a capilaridade do esquema. Um desembargador na lista de investigados não é um detalhe — é um alarme. O Judiciário é a última trincheira do cidadão contra o arbítrio. Se essa trincheira foi ocupada pelo mesmo grupo que controlava o Executivo e alimentava o setor de combustíveis, contra quem ou contra o que se recorre?
A Difusão Vermelha contra o controlador da Refit que também é alvo e teve seu nome incluído na Difusão Vermelha da Interpol — o mais alto nível de alerta de busca e captura internacional, completa o quadro. Não se trata de um empresário que errou na declaração de Imposto de Renda. Trata-se de alguém que desenhou uma arquitetura financeira internacional para que o dinheiro desviado da sociedade brasileira nunca mais voltasse. Estas ramificações do esquema ultrapassam fronteiras e envolvem paraísos fiscais, contas offshore, laranjas, testas de ferro — o vocabulário do crime financeiro sofisticado e faz com que a Interpol agora o procure talvez em Miami ou por outros continentes.
O Rio de Janeiro chega a 2026 numa encruzilhada. As eleições deste ano ocorrerão sob a luz crua de uma operação que atinge Executivo, Judiciário e setor produtivo. O eleitor fluminense, acostumado a escolher entre o mal menor e o desconhecido, terá agora a difícil tarefa de separar o joio do joio. Porque num estado onde a gasolina virou moeda de poder e o poder virou negócio de família, a verdadeira escassez não é de recursos — é de vergonha na cara.
A Operação Sem Refino não vai acabar com a corrupção no Rio. Mas — talvez — ela tenha o mérito de mostrar que o sistema que a produziu não é um desvio de percurso. É a engrenagem funcionando como foi projetada. Cabe à nossa sociedade decidir se quer, enfim, desligá-la de forma definitiva.
Precisamos mudar o Rio de Janeiro e o Brasil. Vamos?
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