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    Neofascismo Contemporâneo versus Nazifascismo Histórico

    O fascismo italiano e o nazismo alemão emergiram do cataclismo europeu de 1914-1945.


    Neofascismo Contemporâneo versus Nazifascismo Histórico

    Neofascismo Contemporâneo versus Nazifascismo Histórico

    Por Fernando Nogueira da Costa - 

    Publicado em 28 de setembro de 2026 às 10:00 - Editado em 28 de setembro de 2026 às 10:00

    https://red.org.br/noticias/neofascismo-extrema-direita-fascismo-historico/#google_vignette

    Há semelhanças de família, mas diferenças históricas entre o neofascismo contemporâneo e o nazifascismo histórico recomendam evitar usar “fascismo” como simples sinônimo da extrema-direita xenófoba, autoritária e/ou conservadora. Nesse sentido, reservaria a classificação de nazifascista para os regimes e movimentos históricos de Mussolini e Hitler e usaria neofascismo — ou, com maior cautela, “populismo de direita” — para movimentos contemporâneos em busca de recuperarem parte daquela lógica em sociedades muito diferentes.

    A diferença fundamental é esta: o fascismo histórico pretendia substituir a democracia liberal por uma ditadura totalizante e a nova direita radical geralmente procura chegar ao governo através da democracia eleitoral. Uma vez nele, busca transformar gradualmente suas instituições em sentido iliberal ou, se perder a eleição para a oposição, dar um golpe militar tal como foi a tentativa fracassada de Bolsonaro – e causa de seu aprisionamento domiciliar.

    O fascismo italiano e o nazismo alemão emergiram do cataclismo europeu de 1914-1945. A Primeira Guerra Mundial levou a milhões de mortos e à desmobilização militar dos derrotados. Mas revoluções socialistas estavam em pauta, houve hiperinflação na Alemanha e crises econômicas na Itália e “países do eixo”, até a Grande Depressão provocar desemprego em massa, conflitos de rua e colapso dos partidos tradicionais.

    Havia ainda uma alternativa sistêmica concreta ao capitalismo: a União Soviética e movimentos comunistas revolucionários fortes. O fascismo apresentava-se então simultaneamente como: antiberal, anticomunista, ultranacionalista xenófobo, militarista e imperialista.

    O contexto contemporâneo é muito diferente. Não existe movimento revolucionário comunista internacional comparável, nem sociedades europeias militarizadas por uma guerra mundial recém-terminada.

    A nova direita mobiliza outros medos: imigração, perda de identidade nacional, globalização, multiculturalismo, declínio relativo das classes médias, pautas identitárias de gênero, insegurança física, crítica às elites cosmopolitas.

    O nazismo construiu uma concepção racial biologicamente estruturada da sociedade, culminando no antissemitismo genocida. Sua lógica era: existe uma comunidade racial organicamente pura ameaçada por inimigos racialmente definidos. Judeus, ciganos, pessoas com deficiência e outros grupos (como os homossexuais) foram perseguidos pelo Estado. O Holocausto constituiu política sistemática de extermínio.

    O neofascismo contemporâneo geralmente opera de maneira diferente. O inimigo tende a ser definido mais cultural e politicamente: imigrante + muçulmano + “globalista” + esquerda + feminista + movimento LGBTQIA+ + intelectual universitário + imprensa + burocracia supranacional.

    A xenofobia ou o racismo contemporâneos não são menores. A diferença está em ainda não haver, na maioria desses movimentos, um programa explicitamente estatal de hierarquia racial biológica e extermínio, como ocorreu no nazismo.

    O fascismo histórico queria eliminar as eleições; o contemporâneo precisa inicialmente ganhá-las. Esta talvez seja a diferença política mais importante.

    Hitler chegou ao poder através de mecanismos institucionais, em 1933, mas rapidamente destruiu a competição democrática. Mussolini fez algo semelhante, após chegar ao governo em 1922. Bolsonaro aqui tentou após sua derrota eleitoral.

    O objetivo no nazifascismo histórico era: um líder + um partido + um Estado + uma nação. O pluralismo deveria desaparecer.

    A extrema-direita contemporânea geralmente atua dentro de sistemas de: eleições + partidos + Congresso + tribunais + redes sociais + imprensa privada. Seu problema estratégico é diferente, porque necessita usar instituições liberais, apesar de, simultaneamente, as considerar como obstáculos à vontade popular.

    Daí a tensão característica de seu egocentrismo: – “Se representamos o verdadeiro povo, por qual razão juízes, jornalistas, universidades, burocratas ou instituições independentes podem impedir aquilo a ser feito por nós?!”

    Surge então o iliberalismo eleitoral. Em vez dela fazer como antes: democracia → golpe → ditadura, ela tende ao mecanismo contemporâneo de: democracia → eleição → enfraquecimento gradual dos contrapesos → concentração executiva → democracia iliberal. Isso confunde o debate acadêmico sobre quais casos devem efetivamente receber o rótulo de neofascista.Na realidade, as antigas milícias foram parcialmente substituídas por redes digitais (“bolhas de direita”). O fascismo histórico possuía organizações paramilitares como os camisas-negras italianas e a SA nazista. Elas ocupavam ruas, atacavam sindicatos, comunistas e adversários e intimidavam fisicamente opositores.

    A mobilização contemporânea tenta funcionar sem organização paramilitar de massa. O smartphone criou uma infraestrutura política extraordinariamente barata: líder → rede social → influenciadores → seguidores → compartilhamentos → mobilização.

    A violência simbólica pode preceder ou eventualmente estimular violência física, mas não é necessário manter milhões de militantes uniformizados e permanentemente organizados. O algoritmo exerce algumas funções antes desempenhadas pelo comício, jornal partidário e organização territorial: cria comunidade direitista, identifica inimigos esquerdistas, reforça pertencimento religioso e repete narrativas caluniosas sobre o adversário.A propaganda tornou-se descentralizada. Goebbels (político nazista, propagandista e antissemita radical, Ministro da Propaganda e do Esclarecimento Público do Reich) simboliza o modelo antigo: Estado → órgão central de propaganda → meios de comunicação → população. Hoje, existe algo quase inverso: líder ↔ influenciadores ↔ plataformas ↔ grupos privados ↔ usuários.

    Uma narrativa pode emergir da própria base, viralizar e posteriormente ser incorporada pelo líder. Isso torna a propaganda contemporânea adaptativa e emergente. Não precisa haver um Ministério da Propaganda determinando diariamente todas as mensagens.

    Há uma diferença econômica igualmente importante. O fascismo histórico não era neoliberal como hoje é. Manteve propriedade privada e grandes empresas, destruiu organizações autônomas dos trabalhadores e subordinou relações trabalhistas ao Estado corporativo. Ao mesmo tempo, praticou forte intervenção estatal, obras públicas, rearmamento e planejamento direcionado para autarquia e guerra.Defendia a propriedade privada e o capitalismo oligopolista. Ambicionava por sindicatos destruídos, Estado autoritário e militarização econômica.

    A nova direita contemporânea é muito mais híbrida. Pode combinar redução de impostos, desregulamentação e privatização com protecionismo, tarifas, subsídios nacionais, política industrial e restrição à imigração.

    Trump é um bom exemplo dessa mistura: não corresponde nem ao neoliberalismo clássico nem ao corporativismo fascista histórico. No bolsonarismo, a contradição apareceu ainda mais claramente: Paulo Guedes era o protótipo de neoliberal, omisso quanto a políticas públicas, mas estava junto com militares estatistas, agronegócio exportador para a China, “nacionalismo” com bandeiras dos Estados Unidos e Israel e conservadorismo religioso.

    Não existe necessariamente uma doutrina econômica neofascista coerente.O nacionalismo xenófobo do Norte rico deixou de significar necessariamente imperialismo militar. Mussolini queria reconstruir um império mediterrâneo. Hitler pretendia conquistar Lebensraum no Leste Europeu. Trump tenta, mas recua.

    A guerra não era um acidente do fascismo histórico. Estava profundamente relacionada à sua concepção de sociedade: conflito, virilidade, sacrifício e expansão territorial eram considerados regeneradores da nação.

    A direita radical contemporânea é frequentemente nacionalista, mas pode inclusive ser isolacionista. “Primeiro nosso país [America First]; não queremos pagar pelos outros.”

    Portanto, nacionalismo fascista histórico levou à tentativa de expansão imperial. Não equivale necessariamente ao nacional-populismo contemporâneo com os EUA defendendo sua soberania com o alongamento de suas fronteiras sobre todas as Américas – e o protecionismo diante o comércio exterior com a China.

    Há, entretanto, uma continuidade profunda: a concepção do “povo verdadeiro”. Aí a comparação entre o neofascismo e o nazifascismo verifica algo em comum.O pluralismo democrático pressupõe a sociedade possuir interesses, classes, valores, religiões e identidades legítimas diferentes. A lógica fascista tende a defender só existir um povo autêntico – e aqueles contrários ao líder de direita não pertencem verdadeiramente a ele.

    Daí uma encadeamento perigoso para parte da sociedade: “somos a maioria verdadeira” → “os adversários representam interesses ilegítimos” → “a imprensa mente” → “juízes impedem a vontade popular” → “universidades foram capturadas pela esquerda” → “por não a frequentarmos, praticamos o negacionismo científico” → “se perdermos, provavelmente houve fraude” → “medidas excepcionais tornam-se necessárias para salvar a nação”.

    Não é ainda o totalitarismo histórico. Mas apresenta uma dinâmica potencial de erosão democrática.

    Isso permite entender melhor o caso brasileiro sobre o bolsonarismo. O Brasil, em 2019-2022, não reproduziu o fascismo europeu dos anos 1930. Não tivemos partido único, Estado corporativo integral, política racial oficial, exército paramilitar partidário de massa nem projeto imperialista.Por isso não cabe chamar todo eleitor bolsonarista de “fascista”. Mas certos componentes permitem comparações históricas: culto à liderança + nostalgia da ditadura + anticomunismo + militarização simbólica + política ou amigo ou inimigo + hostilidade à imprensa + ataques ao sistema eleitoral + deslegitimação de adversários + nacionalismo moral + mobilização política religiosa.

    A especificidade brasileira acrescentou: evangelismo conservador + militares + forças policiais + agronegócio + antipetismo + neoliberalismo + redes sociais. Portanto, não ocorreu uma cópia do fascismo. O resultado foi uma configuração emergente própria.

    Fernando Nogueira da Costa

    Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: fernandonogueiracosta@gmail.com.









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