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Barra Mansa,17/10/2026

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    A Itália que chegou antes de mim

    A Itália chegou antes de mim. Agora chegou a minha vez de encontrá-la.


    A Itália que chegou antes de mim

    A Itália que chegou antes de mim
    Por Cesar Miranda Ribeiro

    Há países que conhecemos viajando. Outros chegam até nós muito antes de colocarmos os pés em seu território. A Itália chegou à minha vida dessa segunda maneira, por meio de um nome, um sobrenome e uma história que atravessou o Atlântico no século XIX.

    Um imigrante chamado Pietro Paolo

    Sou bisneto de italiano. Meu bisavô se chamava Pietro Paolo Marmo. Nasceu em 19 de janeiro de 1853, em Casalbuono, na província de Salerno, no sul da Itália. Ainda no século XIX, atravessou o oceano e veio para o Brasil. Aqui, tornou-se Pedro Paulo Mármore, casou-se em Carapina, no Espírito Santo, em 1882, constituiu família e morreu em Vitória, em 1928.

    Por muitos anos, conheci essa história como se conhece uma fotografia antiga de família: sabia que existia, mas desconhecia seus detalhes. Foi somente em 1998 que comecei a procurar minhas origens a fundo, documentos, nomes, lugares e pistas que pudessem me aproximar daquele homem que, mais de um século antes, fizera uma viagem que mudaria para sempre a história da minha família.

    O nome que ganhou existência documental

    Em algum momento dessa busca, encontrei a certidão de casamento de Pietro Paolo em Vitória. O nome deixou de ser apenas uma lembrança familiar: ganhou data, lugar, assinatura e existência documental.

    Anos depois, achei uma referência ainda mais significativa. Em uma publicação oficial do Espírito Santo de 1906, o nome de Pedro Paulo Mármore aparece em uma relação fiscal do município de Vitória. Meu bisavô estava ali, não em uma árvore genealógica feita décadas depois, mas em um documento produzido quando ele ainda vivia, inserido na vida cotidiana da cidade que escolhera para construir sua família.

    Essa descoberta me fez perceber que procurar um antepassado não é apenas procurar uma pessoa: é procurar os vestígios de uma vida.

    Marmo, Mármore: a poesia de um sobrenome

    E talvez exista uma curiosidade ainda maior nessa história. Em italiano, marmo significa mármore. Meu bisavô trouxe da Itália um sobrenome que, no Brasil, acabou traduzido para Mármore.

    Não sei se há qualquer significado especial nisso. Provavelmente é apenas uma dessas coincidências que a vida oferece. Mas gosto de pensar que existe certa poesia em carregar um nome associado a uma matéria que atravessa séculos, presente em monumentos, igrejas, esculturas, lápides e obras de arte.

    Uma vida dedicada à memória

    De alguma maneira, minha vida profissional também foi marcada pela preservação da memória. Trabalhei na televisão, na Globo, na UniFacha, na RioFilme e, atualmente, no Museu da Imagem e do Som. Em diferentes momentos, estive envolvido com cinema, audiovisual, cultura, educação e patrimônio. E, sempre que tive oportunidade, procurei valorizar a presença italiana e a contribuição dos italianos para o Brasil.

    Talvez eu não tenha percebido imediatamente, mas havia uma ligação entre essas escolhas: a memória que eu procurava preservar profissionalmente era também a memória de uma história que estava dentro da minha própria família.

    "Heranças", a exposição dos 150 anos

    Essa percepção ganhou dimensão especial em 2024, quando, como presidente do MIS, propus a realização da exposição "Heranças: 150 anos da imigração italiana no Brasil". Não era apenas uma exposição sobre imigração: era também uma forma de olhar para trás.

    O MIS possui uma história profundamente ligada à cultura italiana. Seu primeiro diretor, Maurício Quadrio, era italiano. Sua sede principal foi idealizada em 1922 por um arquiteto italiano. Décadas depois, eu estava à frente da instituição e participava da criação de uma exposição dedicada justamente aos 150 anos da presença italiana organizada no Brasil. E ali estava novamente Pietro Paolo Marmo.

    Na abertura da exposição, pude falar publicamente sobre meu bisavô, sobre Casalbuono e sobre a trajetória daquela família que começou com um homem que deixou a Itália no século XIX e construiu sua vida no Espírito Santo. Foi uma maneira de aproximar minha história pessoal da história de milhões de brasileiros que carregam, dentro de suas famílias, alguma lembrança, algum sobrenome ou alguma tradição trazida pelos imigrantes italianos.

    O caminho de volta

    A história do Brasil também foi construída assim: por pessoas que atravessaram oceanos sem saber exatamente o que encontrariam do outro lado, que deixaram suas cidades, suas famílias e suas referências para recomeçar em uma terra distante.

    Meu bisavô fez esse caminho. E eu, muitos anos depois, desejo conhecer o caminho contrário. Ele saiu de Casalbuono para o Brasil; eu agora penso em ir ao encontro de Casalbuono. Existe algo de profundamente simbólico nisso. Talvez eu não esteja simplesmente querendo conhecer a Itália, talvez esteja indo conhecer o lugar de onde uma parte da minha história saiu há mais de 170 anos.

    Durante toda a minha vida, a Itália esteve presente de muitas maneiras: na minha família, no meu sobrenome, na cultura, no cinema, na música, na arquitetura, na gastronomia e, naturalmente, no futebol. Na Copa do Mundo, a Itália sempre foi o segundo país para o qual torci. E sempre me emocionei quando a Itália entrava em campo.

    Pode parecer uma coisa pequena, mas não é. Essas escolhas afetivas são algumas das maneiras pelas quais uma herança cultural permanece viva. Às vezes, não sabemos explicar exatamente por que determinado país nos emociona. Até que um dia encontramos um nome, uma certidão, uma fotografia ou uma cidade e percebemos que talvez a resposta estivesse ali o tempo todo.

    A herança que escolhemos preservar

    Pietro Paolo Marmo saiu de Casalbuono. Pedro Paulo Mármore morreu em Vitória. Entre esses dois nomes existe uma vida inteira. E entre aquela vida e a minha existem gerações.

    O mais curioso é que, ao longo da minha trajetória profissional, procurei tantas vezes preservar a memória dos outros que acabei descobrindo que também carregava uma memória esperando para ser preservada.

    Hoje, quando penso na Itália, não penso apenas no país que admiro. Penso em uma casa que ainda não conheci. Penso em Casalbuono. Penso em Salerno. Penso em um jovem chamado Pietro Paolo que, em algum momento do século XIX, decidiu atravessar o oceano. Penso no Espírito Santo, onde ele construiu sua família. Penso em Vitória, onde seu nome apareceu nos registros públicos e onde ele morreu em 1928.

    Penso no Brasil que recebeu aquele imigrante. E penso no Brasil que seus descendentes ajudaram a construir. Talvez seja esse o verdadeiro significado de uma herança: ela não é apenas aquilo que recebemos, mas também aquilo que escolhemos preservar, compreender e transmitir.

    Meu bisavô atravessou o Atlântico trazendo consigo um nome italiano. Quase dois séculos depois, esse nome continua me levando de volta à Itália. E talvez seja por isso que, quando finalmente chegar a Casalbuono, eu não sinta que estou chegando a um lugar completamente desconhecido. Talvez eu sinta que, depois de tantos anos, estou finalmente chegando a uma parte da minha própria casa.

    A Itália chegou antes de mim. Agora chegou a minha vez de encontrá-la.

    Cesar Miranda Ribeiro é Jornalista, Radialista, professor e atualmente é Presidente da Fundação Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro.




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