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Barra Mansa,17/10/2026

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    Carmem Teresa Elias

    Dois fatos, dois livros

    Dois episódios lamentáveis, sintomas de um Brasil carente de estudo, de ética e de senso de direção, coincidiram com duas leituras que me acompanham neste momento


    Dois fatos, dois livros

    Dois fatos, dois livros

    Por Carmem Teresa Elias

    Dois episódios lamentáveis, sintomas de um Brasil carente de estudo, de ética e de senso de direção, coincidiram com duas leituras que me acompanham neste momento.

    O primeiro fato diz respeito — ou melhor, diz do desrespeito — com que um falso banqueiro logrou, com espantosa facilidade, a elite financeira nacional, produzindo um dos maiores rombos já registrados nos cofres públicos e privados. À desonestidade contábil somou-se a depravação moral: o mesmo personagem promovia orgias como instrumento de cooptação, alimentando seus súditos com a anestesia do machismo chauvinista. 

    Líderes que se apresentam sob a fachada da sisudez, da honra e da responsabilidade institucional satisfizeram ali carências e vaidades sexuais mal resolvidas. Nesses festins restritos a convidados, mulheres — sem que isso lhes sirva de atenuante — também se prestaram à mercantilização do próprio corpo, movidas pela ilusão do dinheiro fácil, em uma prática que nada tem de feminista e tampouco de feminina, mas de aviltamento mútuo.

    Para esse retrato da decadência moral das elites, encontrei síntese perfeita na prosa do colombiano Gabriel García Márquez, em Cem Anos de Solidão. Por mais ficcional que seja a obra, seus tipos humanos são dolorosamente reais e descrevem com precisão trágica os protagonistas desta farsa nacional:

    “As incontáveis mulheres que conheceu no deserto do amor, e que dispersaram sua semente por todo o litoral, não haviam deixado rastro algum em seus sentimentos. A maioria delas entrava no quarto no escuro e ia embora antes do alvorecer, e no dia seguinte eram apenas um pouco de tédio na memória corporal.”

    Quinhentos anos desse mesmo tédio nacional ainda acendem fogueiras inquisitoriais.

    O segundo fato: esta semana, atearam fogo a uma estátua de 3,5 metros de altura na Praia do Itararé, em São Vicente (SP), obra em fibra de vidro do artista plástico Francisco Telles. O motivo? A escultura era popularmente conhecida como "Feiticeira". Ela materializava uma das narrativas mais emblemáticas do folclore caiçara e da primeira cidade do Brasil: a memória da mulher que, sobre a rocha, aguardava o retorno do marujo amado, e cuja dor e solidão foram estigmatizadas pelo imaginário popular com o rótulo infamante de bruxaria.

    A história se repete. Marguerite Porete foi uma mulher real, mística e escritora, queimada viva em praça pública em Paris, em 1310, sob acusação de heresia por ousar escrever, em versos, sobre seu amor a Deus.

    O que une a fraude financeira travestida de poder e o incêndio de uma obra de arte sob a acusação de feitiçaria é a mesma raiz: a ignorância histórica e literária cultivada por elites que se perpetuam no poder. São grupos que escravizam o pensamento e normalizam padrões de comportamento abusivos, doentios, obsoletos e irracionais, impondo o obscurantismo como forma de controle social e de manutenção de privilégios.

    Contra esse duplo incêndio — o da moral e o da memória — acendo luzes inquietas em meu livro “A Escrita do Feminino: registro e ocultação. Uma viagem literária pela história de ofuscamento do feminino”. Uma obra concebida para incomodar, ao resgatar e reconstruir trajetórias de autoras e personagens femininas sistematicamente subjugadas por estruturas políticas e religiosas que precisam, urgentemente, ser reavaliadas à luz da razão, do respeito e da dignidade humana.

    “É necessário se espantar, se indignar e se contagiar, só assim é possível mudar a realidade.” A advertência de Nise da Silveira, símbolo maior da luta feminista e antimanicomial, resume o sentido deste trabalho. Em uma sociedade que ainda discrimina a mulher e deslegitima sua escrita, torna-se imperativo reconhecer que uma civilização justa e igualitária exige que homens e mulheres tenham consciência plena da História — em suas dimensões social, religiosa, política e literária.

    Que este livro provoque a coragem de refletir com seriedade sobre as relações de gênero e de poder, sem dogmas, sem tabus e sem recalques milenares, para que, enfim, se transforme a psique coletiva que insiste em silenciar o feminino. Venha conhecer o legado de mulheres que fizeram história na Literatura da Humanidade.

    A ESCRITA DO FEMININO

    Carmem Teresa Elias

    R$ 60,00

    Scortecci Editora - 14 x 21 cm - 1ª edição - 2026 - 188 páginas

    ISBN 978.85.366.7388-2



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