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Barra Mansa,29/09/2026

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    Carmem Teresa Elias

    OS DOIS ORGULHOS DE MACONDO

    Dia desses, entre um livro e outro, um lançamento e outro, dois diálogos me causaram no mínimo desgosto, impacto e choque.


    OS DOIS ORGULHOS DE MACONDO

    OS DOIS ORGULHOS DE MACONDO 

    Carmem Teresa Elias 

    Dia desses, entre um livro e outro, um lançamento e outro, dois diálogos me causaram no mínimo desgosto, impacto e choque.

    Lia Gabriel Garcia Marques, mais uma vez, em casa, exemplar de luxo de minha biblioteca pessoal, quando uma cena do livro capturou minha interpretação da vida, além da leitura literária habitual:

    -Diga uma coisa: por que você está nessa luta?

    -  Por que haveria de ser ?

    - Feliz de você que sabe — respondeu.

    - Eu, cá do meu lado, só agora percebo que estou lutando por orgulho.

        _ Ou lutar, como você, por uma coisa que não significa nada para ninguém.

    A passagem é um breve trecho de um diálogo de Cem Anos de Solidão. Bateu-me como um tambor de execução pela lembrança despertada de  outra cena recente, real, que eu vivenciara.

    Era inauguração de uma biblioteca poucos dias antes , com convidados da área, amigos profissionais  basicamente, que doaram obras para o estabelecimento cuja abertura ali se celebrava.  Cerca de menos de 50 doadores que, em breves recursos,  festejavam os livros arrecadados. Ambiente caloroso apesar das instalações úmidas e  não tanto primorosas. Transcorriam os agradecimentos, quando um dos presentes atirou:

     “ Parabenizo pelo sucesso da sala de leitura, parabenizo a todos os doadores. Mas, deixo cravada uma queixa: a exclusão de meu livro. É uma pena, porque minha obra seria um destaque valioso a este local, mas fui excluído  por não haver me sobrado mais nenhum exemplar para doar, haja vista a ampla distribuição que fiz para as bibliotecas suntuosas  de madames Gertrude Caracas e Marcineide Tubarão, de onde saí satisfeito com a oportunidade encontrada de expor ali todas as minhas obras. Estou magoado aqui, pois muitos de vocês  hoje trouxeram muitos livros, porém os meus  foram excluídos por eu não ter mais nenhum  para somar aos seus. Sinto-me traído, excluído e ultrajado pela falta de consideração com minha pessoa.”

    O silêncio assolou a sala rasa. Era um silêncio de realismo? Na verdade, era era muito fantástico, muito mais que as cenas alquímicas  do romance de Garcia Marques

    A bibliotecária desconcertada com a insanidade ouvida  declarou: “cada um trouxe o que pôde”.

    Olhei-a pelo esforço de construção.  Olhei a sala novamente através de um espelho e continue e prestar atenção à bibliotecária: “mesmo sem contribuição o senhor é nosso convidado. Não lhe cobramos doações”.

    Ao ler horas  depois a Solidão secular de Garcia Marques, descobri porque a nova bibliotecária ainda insistia em implantar salas de leitura naquela região que já  tinha por donas as duas citadas  madames grandiosas. A nova bibliotecária travava uma luta, uma luta sem glórias, uma guerra de livros contra o poder do império do egoísmo . Provavelmente, pensei, o senhor magoado havia sido instruído de propósito por Gertrude Caraca para proferir aquela queixa desproporcional, sem pé e sem cabeça. Aquilo só faria algum sentido se fosse uma trama  vinda da cabeça alheia da concorrente para atrapalhar a nova sala de leitura. Novidades sempre geram desconforto. Uma guerra de posse, vaidade e domínio territorial, talvez, instalada nas salas de espelhos e no alicerce da literatura. Um personagem de Garcia Marques morre justamente por não conseguir mais sair das salas dos espelhos…

    Na página seguinte de Garcia Marques li: “Chegou a ser tão sincera no engano que ela mesma acabou se consolando”… “ a domínio superior a qualquer amarra visível pois o mantinha atado ao tronco da castanheira.” A loucura amarrada.

    Lutar amarrado… parei mais uma vez para interpretar. Desta vez refleti sobre o que seria lutar contra algo que não significa nada. A resposta veio em orgulhosa dicotomia. O orgulho possui duas conotações: uma positiva, referente  à autoestima e dignidade; uma outra negativa, referente  à arrogância, vaidade  e soberba mascarada. A bibliotecária lutava o primeiro orgulho; o senhor, o segundo. 

    A luta se trava  entre os dois orgulhos que habitam todos os homens e por isso não significa nada.

    “Então,” escreveu Garcia Marques, “ fez um último esforço para procurar em seu coração o lugar onde seu afeto havia se deteriorado, mas não conseguiu encontrá-lo.”

    A nova sala de leitura passou a chamar-se Macondo desde então para mim.



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