João Carlos Silva
No limite
A desconfiança do comércio já aparece.
No limite
Por João Carlos Silva
A confiança do comércio chegou a setembro em um ponto de equilíbrio desconfortável. O Índice de Confiança do Empresário do Comércio caiu 1,3%, terceira retração consecutiva, e atingiu exatamente 100 pontos, limite entre satisfação e insatisfação. O movimento combina três sinais: pior avaliação do presente, expectativas ainda positivas, mas em desaceleração, e maior pressão sobre segmentos expostos às importações após o fim da chamada “taxa das blusinhas”. Na comparação anual, contudo, o índice ainda avança 1,7%, revelando uma economia percebida como melhor que a de 2025, mas cujo horizonte voltou a produzir cautela.
Presente e futuro
A distância entre percepção e expectativa ajuda a compreender o resultado. As condições atuais recuaram 1,3% e permanecem em apenas 70,9 pontos, enquanto 76,2% dos varejistas identificam piora no cenário econômico. As expectativas, por outro lado, alcançam 125,9 pontos, embora tenham caído 1,9% no mês. O empresário, portanto, não abandonou a perspectiva de recuperação, mas passou a confiar menos na velocidade com que ela ocorrerá. A incerteza fiscal e monetária também alcança decisões concretas: a intenção de investir caiu 1,7% no mês, ainda que a intenção de contratar funcionários acumule alta anual de 4,2%.
A vitrine externa
O impacto é mais evidente nos bens semiduráveis. Roupas, calçados e acessórios registraram queda mensal de 1,3% na confiança e foram o único segmento com retração anual, de 1,7%. A CNC relaciona parte desse movimento ao fim do imposto de importação sobre remessas internacionais. Em agosto, as remessas declaradas cresceram de 15,2 milhões para 26,5 milhões em relação ao ano anterior, enquanto o valor movimentado avançou 79%, para R$ 526 milhões. O efeito aparece também nas expectativas econômicas do segmento, que recuaram 4,6%.
Escolhas e custos
A fotografia do comércio sugere que a discussão sobre as importações ultrapassa a tributação. Retirar uma barreira pode ampliar concorrência e favorecer o consumidor, mas também modifica as condições enfrentadas pelo varejo doméstico. Preservá-la pode proteger determinados segmentos, mas transfere parte desse custo para quem compra. Se ambas as escolhas produzem beneficiados e pressionados, o debate talvez esteja menos em descobrir uma solução sem custos e mais em definir quais custos a política econômica está disposta a distribuir. Os 100 pontos do Icec traduzem justamente essa fronteira: não entre confiança e crise, mas entre expectativas que resistem e um presente que recomenda cautela.




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