Fernanda Medeiros
Quando a política rompe relações
Por que discordar se tornou tão difícil?
Quando a política rompe relações
Por que discordar se tornou tão difícil?
“Melhor não falar de política.”
A frase costuma aparecer em almoços de família, grupos de amigos, ambientes de trabalho e até entre pessoas que mantêm vínculos há muitos anos.
Em períodos eleitorais, ela parece ganhar ainda mais sentido.
Uma conversa começa com candidatos, propostas ou acontecimentos políticos e, em poucos minutos, pode terminar em acusações, ironias, bloqueios nas redes sociais ou pessoas que simplesmente deixam de se falar.
Mas por que uma divergência política pode provocar reações tão intensas?
Talvez porque, em determinadas circunstâncias, já não estejamos discutindo apenas política.
Estamos discutindo identidade, valores, pertencimento e a maneira como cada pessoa compreende o mundo.
E quando uma opinião passa a ocupar o lugar da identidade, discordar deixa de parecer apenas uma diferença de pensamento e pode começar a ser sentido como rejeição pessoal.
Política também é pertencimento
Nossas opiniões não surgem isoladamente.
Elas são construídas ao longo da vida e atravessadas pelas experiências que tivemos, pelos grupos aos quais pertencemos, pela família, pelo ambiente social, pelas informações que consumimos e pelos valores que desenvolvemos.
Por isso, algumas posições políticas podem adquirir um significado muito maior do que simplesmente escolher determinado candidato.
Elas passam a representar aquilo que a pessoa acredita defender.
Quando isso acontece, uma crítica política pode ser recebida como algo pessoal.
Já não ouvimos:
“Eu discordo dessa proposta.”
Podemos ouvir:
“Eu discordo de você.”
Ou, em situações ainda mais intensas:
“Há alguma coisa errada com quem você é.”
A partir daí, conversar se torna muito mais difícil.
Quando deixamos de discutir ideias e começamos a julgar pessoas
Existe uma diferença importante entre avaliar uma posição e definir integralmente alguém por aquilo que ela pensa.
Durante discussões polarizadas, essa diferença pode desaparecer.
O outro deixa de ser uma pessoa com história, afetos, contradições e diferentes dimensões de identidade.
Passa a ser “o eleitor de alguém”.
“O de direita.”
“O de esquerda.”
“O que pensa daquele jeito.”
E, depois que reduzimos alguém a uma categoria, torna-se muito mais fácil atribuir a essa pessoa uma série de características que talvez nunca tenhamos investigado.
Se pensa assim, deve ser ignorante.
Se vota dessa maneira, deve ser mau.
Se apoia determinado grupo, certamente concorda com tudo aquilo que associamos a ele.
A complexidade desaparece.
E o rótulo ocupa seu lugar.
Nós também enxergamos melhor as contradições do outro
Há outro fenômeno interessante nas discussões políticas.
Costumamos perceber com bastante facilidade as incoerências daqueles com quem discordamos.
Uma fala contraditória chama nossa atenção.
Um erro confirma nossas suspeitas.
Uma informação negativa parece particularmente relevante.
Quando algo semelhante acontece com alguém ou algum grupo com o qual nos identificamos, podemos ser mais tolerantes.
Procuramos contexto.
Explicamos.
Relativizamos.
Isso não significa que todas as pessoas façam isso o tempo inteiro.
Mas significa que nenhum de nós está completamente imune à influência das próprias crenças na maneira como interpreta informações.
Por isso, pensamento crítico exige um exercício desconfortável: aplicar às nossas próprias convicções parte do rigor que utilizamos para avaliar as convicções dos outros.
Redes sociais não foram feitas para conversas lentas
Existem assuntos que exigem contexto, tempo e disposição para ouvir.
As redes sociais frequentemente oferecem exatamente o contrário.
Uma frase.
Um vídeo curto.
Uma manchete.
Um recorte.
Uma provocação.
Uma resposta rápida. esse ambiente, indignação pode circular com muito mais facilidade do que reflexão.
Além disso, nas redes sociais não conversamos apenas com a pessoa que está do outro lado.
Existe uma plateia.
Quando uma discussão acontece publicamente, reconhecer uma dúvida, reformular uma opinião ou admitir que o outro apresentou um argumento válido pode ser percebido como perda.
A conversa deixa de ter como objetivo compreender.
Passa a ter como objetivo vencer.
E, quando precisamos vencer, ouvir se torna secundário.
Discordar não significa que toda diferença seja irrelevante
Existe, entretanto, um cuidado importante.
Defender diálogo não significa afirmar que todas as divergências políticas sejam pequenas ou que precisem ser ignoradas para preservar relações.
Política envolve valores.
Envolve direitos.
Envolve concepções sobre sociedade.
Existem posições que podem tocar profundamente aquilo que alguém considera essencial.
Por isso, determinadas diferenças podem realmente modificar a maneira como enxergamos uma pessoa ou uma relação.
Cada indivíduo tem o direito de estabelecer seus próprios limites de convivência.
O que merece reflexão é outra coisa: estou me afastando porque identifiquei uma incompatibilidade importante de valores ou simplesmente porque não consigo tolerar que alguém chegue a uma conclusão diferente da minha?
Não existe uma resposta universal.
Mas existe uma diferença.
Nem toda conversa precisa terminar em consenso
Talvez tenhamos criado uma expectativa impossível sobre o diálogo.
Conversar não significa necessariamente convencer.
Duas pessoas podem apresentar argumentos, ouvir uma à outra, compreender melhor suas diferenças e, ainda assim, terminar a conversa pensando de maneiras completamente distintas.
Isso não significa que a conversa fracassou.
Às vezes, compreender por que alguém pensa de determinada maneira já é um resultado.
Podemos entender sem concordar.
Podemos ouvir sem aderir.
Podemos respeitar o direito de alguém expressar uma posição e continuar considerando aquela posição equivocada.
Diálogo não exige ausência de convicção.
Exige apenas reconhecer que o outro também é um sujeito, e não um obstáculo que precisa ser derrotado.
Há discussões que não são mais discussões
Também é importante reconhecer quando não existe diálogo possível naquele momento.
Quando surgem humilhações, ataques pessoais, ameaças ou agressividade, encerrar uma conversa pode ser mais saudável do que insistir.
Estabelecer limites não significa intolerância à divergência.
É possível dizer:
“Não concordamos e não vamos resolver isso agora.”
“Não quero continuar essa conversa nesse tom.”
“Prefiro mudar de assunto.”
Nem todo debate precisa chegar até o fim.
E preservar uma relação também pode signific reconhecer quando duas pessoas já não estão conversando — estão apenas tentando ferir uma à outra.
O que acontecerá depois das urnas?
Em poucos dias, milhões de brasileiros irão votar.
Cada eleitor fará sua escolha individualmente.
Depois, as urnas serão fechadas.
Mas famílias continuarão sendo famílias.
Colegas continuarão trabalhando juntos.
Vizinhos continuarão se encontrando.
Amigos precisarão decidir se uma divergência eleitoral alterou ou não aquilo que construíram durante anos.
Algumas relações atravessarão esse período sem grandes dificuldades.
Outras talvez revelem incompatibilidades que já existiam e que a eleição apenas tornou mais visíveis.
E outras poderão ser rompidas não necessariamente pela diferença política em si, mas pela maneira como essa diferença foi tratada.
Talvez seja essa uma das reflexões psicológicas mais importantes em tempos eleitorais.
Não precisamos concordar com todos.
Não precisamos relativizar aquilo que consideramos importante.
Não precisamos permanecer em qualquer relação em nome de uma suposta tolerância.
Mas podemos observar o momento em que deixamos de discutir ideias e começamos a retirar do outro o direito de ser complexo.
Democracia pressupõe divergência.
Se todos pensassem da mesma maneira, sequer precisaríamos escolher.
Talvez, portanto, o desafio não esteja apenas em defender nossas convicções.
Está também em conseguir distinguir aquilo que precisa ser debatido, aquilo que representa um limite pessoal e aquilo que transformamos em guerra simplesmente porque alguém ousou pensar diferente.
Daqui a alguns dias, cada pessoa fará sua escolha diante da urna. A convivência começa justamente quando descobrimos que a escolha do outro pode não ser a nossa.
Fernanda Medeiros
Psicóloga Clínica e Jurídica
Perita Judicial e Assistente Técnica
CRP-SC 12/02536 | CRP-RJ 05/300859




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