JJ
Jornalista x STF
Um jornalista e o magistrado ....
Jornalista x STF
Por JJ
Imaginemos a seguinte cena. Um jornalista entrevista, em uma sala, dois meteorologistas. Cada um apresenta uma opinião diferente sobre o clima. O jornalista publica as duas versões e, depois, declara que cumpriu sua missão porque deu voz aos dois lados. Não cumpriu. Se o objetivo do jornalismo é informar, não basta colocar duas opiniões em confronto e abandonar o público diante da dúvida. O jornalista deveria abrir a janela, olhar para fora e verificar o que efetivamente está acontecendo. Só então poderia informar: está chovendo, faz sol, o céu está nublado. Essa metáfora é fundamental para compreender o problema de parte do jornalismo brasileiro atual. O jornalismo não pode transformar a divergência entre versões em substituto da apuração. Polêmica pode ser notícia, mas polêmica não é informação. Quando o profissional se limita a narrar a guerra de versões, sem investigar o mérito da questão, ele deixa de ser mediador entre o fato e o cidadão e passa a ser apenas narrador do conflito.
É justamente isso que se observa na controvérsia envolvendo o humorista Antonio Tabet, Nossa Senhora Aparecida, Flávio Bolsonaro e as decisões judiciais que se sucederam. A publicação de Tabet não mencionava nominalmente Flávio Bolsonaro, não citava eleição e não fazia pedido de voto. O ministro André Mendonça, entretanto, entendeu que o conteúdo estava inserido no contexto eleitoral e determinou sua remoção, acolhendo pedido da campanha de Flávio. O argumento foi o de que a publicação contribuía para disseminar uma informação falsa sobre uma suposta intenção do candidato de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. O ministro Flávio Dino posteriormente derrubou a decisão, sustentando que não havia grau suficiente de certeza sobre a ilicitude da manifestação que justificasse uma restrição tão grave à liberdade de expressão e à liberdade religiosa. Dino observou ainda que seria necessário presumir que a expressão utilizada pelo humorista se referia diretamente ao candidato.
E aqui está o ponto que considero essencial: antes de transformar a disputa entre ministros em espetáculo, o jornalismo deveria explicar ao cidadão o que efetivamente está em discussão. Não se trata simplesmente de saber se Mendonça venceu Dino ou se Fux venceu Dino. Trata-se de examinar os limites da liberdade de expressão, o alcance da Justiça Eleitoral, a possibilidade de uma manifestação humorística ser enquadrada como conteúdo eleitoral e, sobretudo, qual é o fundamento concreto para retirar uma publicação do espaço público. A decisão de Fux, tomada posteriormente a pedido da defesa de Flávio Bolsonaro, suspendeu os efeitos da decisão de Dino e restabeleceu provisoriamente as determinações anteriores do TSE, enquanto a questão deverá ser apreciada pelo plenário do Supremo. Portanto, é preciso separar fato de interpretação, decisão provisória de decisão definitiva e argumento jurídico de opinião política. É exatamente aí que o bom jornalismo deveria abrir a janela.
O que me incomoda profundamente é perceber jornalistas importantes, inclusive em grandes veículos de comunicação, tratando um episódio dessa natureza principalmente como uma briga entre ministros, uma guerra de versões ou mais um capítulo da interminável disputa política brasileira. Evidentemente, a divergência entre integrantes do STF e do TSE é relevante e merece cobertura. Mas ela não pode esconder o mérito. O cidadão tem o direito de saber qual era exatamente a publicação, o que ela dizia, o que a campanha de Flávio Bolsonaro alegou, por que Mendonça considerou o conteúdo eleitoral, por que Dino entendeu que a remoção atingia a liberdade de expressão e por que Fux posteriormente restabeleceu a decisão anterior. Há, inclusive, juristas que questionaram o caminho processual utilizado por Dino, apontando possível conflito com o devido processo legal e com a competência da Justiça Eleitoral. Isso é jornalismo: apresentar o fato, explicar o direito envolvido, mostrar os argumentos de cada lado e permitir que o leitor compreenda o problema. Dar simplesmente duas versões e chamar isso de informação é como entrevistar dois meteorologistas dentro de uma sala e jamais abrir a janela.
Não peço ao jornalista que concorde comigo. Não peço que concorde com Tabet, com Mendonça, com Dino, com Fux, com Flávio Bolsonaro ou com qualquer outro personagem dessa história. Peço apenas que faça jornalismo. Que investigue antes de opinar, que informe antes de provocar, que explique antes de transformar tudo em espetáculo. A sociedade brasileira já está suficientemente intoxicada pela guerra política para que o jornalismo contribua para aumentar a fumaça em vez de dissipá-la. A função do jornalista não é escolher qual meteorologista venceu a discussão. É abrir a janela. É olhar o céu. É verificar o que está acontecendo. É separar fato de narrativa. É entregar ao cidadão os elementos necessários para que ele próprio forme sua opinião. Quando o jornalista se recusa a abrir a janela, por conveniência, preguiça, alinhamento político ou fascínio pela audiência, quem perde não é apenas o jornalismo. Perde a sociedade. O verdadeiro jornalismo não escolhe a versão mais barulhenta. Procura o fato.
JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira




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