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Barra Mansa,30/09/2026

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    JJ

    RAIOS E ESCURIDÃO

    A juventude sempre foi o território da rebeldia.


    RAIOS E ESCURIDÃO

    RAIOS E ESCURIDÃO

    Por JJ

    A juventude sempre foi o território da rebeldia. É nela que o mundo encontra aqueles que ainda não aprenderam a aceitar como inevitável aquilo que os adultos já naturalizaram. Mas ser rebelde não significa necessariamente ser revolucionário. A rebeldia é uma energia. A revolução exige consciência, organização e projeto. Entre uma coisa e outra existe uma batalha gigantesca pelo coração, pela inteligência e pelo imaginário das novas gerações. A juventude está em formação e, justamente por isso, é particularmente vulnerável às forças que disputam sua visão de mundo. O Capital compreendeu isso há muito tempo. Ele não vende apenas produtos. Vende comportamentos, desejos, estilos de vida, sonhos e modelos de felicidade. A disputa pela juventude é, portanto, uma disputa pelo futuro.

    Os números brasileiros são um sinal que não pode ser ignorado. A pesquisa Juventudes: Um desafio pendente, realizada pela Fundação Friedrich Ebert com a YouGov, indica que 38% dos jovens brasileiros entre 16 e 35 anos se identificam com a direita, sendo 17% com a extrema direita, enquanto 18% se identificam com a esquerda. Ao mesmo tempo, 44% se colocam no centro. A pesquisa também revela uma contradição extraordinária: pobreza, desemprego e falta de acesso a direitos aparecem entre as principais preocupações, e mais da metade defende a atuação do Estado para garantir políticas de emprego. Portanto, não estamos diante de uma juventude simplesmente apaixonada pela ideologia liberal. Estamos diante de uma juventude que sofre problemas produzidos por uma sociedade desigual e que, ao mesmo tempo, em parte expressiva, passou a procurar respostas no campo político da direita. Essa contradição deveria ser motivo de profunda reflexão. 

    A explicação passa pela forma como o capitalismo contemporâneo ensina o jovem a enxergar a própria existência. Desde cedo ele escuta que precisa vencer sozinho. Precisa estudar mais, trabalhar mais, empreender, competir, destacar se, construir uma marca pessoal, ganhar dinheiro e transformar a própria vida em uma espécie de empresa. O fracasso deixa de ser apresentado como consequência de estruturas sociais e passa a ser tratado como deficiência individual. O desempregado não teria encontrado sua oportunidade. O jovem pobre não teria se esforçado o suficiente. Quem não consegue comprar seria alguém que ainda não aprendeu a ganhar. É uma pedagogia poderosa porque transforma uma questão coletiva em culpa individual. A juventude passa a lutar contra a própria insuficiência quando deveria compreender as estruturas que limitam suas possibilidades.

    Mas existe uma hora em que a promessa começa a desmoronar. O jovem estudou, trabalhou, consumiu cursos, aceitou empregos precários, tentou empreender e descobriu que o mundo não funciona como a publicidade prometia. O capitalismo permite sonhar praticamente sem limites, mas oferece oportunidades profundamente limitadas para realizar esses sonhos. Todos podem desejar o carro novo, mas poucos podem comprá lo. Todos podem desejar viajar, mas muitos não conseguem pagar as contas do mês. Todos podem desejar um apartamento, mas milhões enfrentam aluguéis elevados e insegurança habitacional. Todos podem desejar um salário alto, mas o mercado não pode transformar todos em vencedores. Existe um funil. Na entrada estão milhões de sonhos. Na saída existem poucos vencedores. E quando a frustração chega, a pergunta inevitável aparece: se disseram que eu poderia ser qualquer coisa, por que não consigo ser aquilo que desejo?

    É nesse momento que a cultura de consumo assume uma dimensão política. Para uma parcela da juventude brasileira, os Estados Unidos aparecem como uma espécie de Eldorado permanente. Hollywood, basquete, futebol americano, música, videogames, marcas, celulares, tênis, roupas e automóveis formam uma paisagem cultural que atravessa diariamente as telas. O jovem conhece os grandes astros do cinema, acompanha atletas estrangeiros, deseja seus produtos e reproduz seus estilos. Nada disso é condenável por si mesmo. A circulação cultural é parte da vida moderna. O problema aparece quando o consumo passa a substituir a compreensão da realidade. Quando o sonho americano se transforma na régua pela qual o jovem mede a própria felicidade, ele pode olhar para a desigualdade brasileira não como resultado de uma estrutura econômica, mas como prova de seu próprio fracasso.

    A extrema direita encontrou nesse terreno fértil uma linguagem capaz de transformar frustração em ressentimento político. Sua força não está necessariamente na complexidade das respostas que oferece, mas justamente na simplicidade de algumas delas. Diante de uma realidade difícil, apresenta culpados. Diante da insegurança, apresenta força. Diante da desordem percebida, apresenta autoridade. Diante da sensação de abandono, apresenta pertencimento. Pesquisas recentes mostram que a aproximação de parcelas da juventude com a direita radical ocorre em diferentes países, especialmente em determinados segmentos masculinos e entre jovens submetidos a forte insegurança econômica e cultural. No Brasil, análises recentes também relacionam o deslocamento de parte da juventude para a direita à precarização do trabalho, à fragmentação das formas tradicionais de sociabilidade e à influência das redes sociais. 

    Existe ainda a crise das instituições. A pesquisa brasileira registra níveis expressivos de desconfiança dos jovens em relação aos partidos políticos e mostra que 58% preferem um líder forte. Ao mesmo tempo, 66% consideram a democracia a melhor forma de governo. Eis outra contradição que precisa ser compreendida sem preconceitos. Não é possível concluir simplesmente que uma geração deseja uma ditadura. Os dados apontam antes para uma juventude que valoriza a democracia, mas desconfia das instituições que deveriam fazê la funcionar. Quando o jovem vê políticos disputando poder enquanto sua realidade continua marcada por desemprego, insegurança, dificuldades de acesso à educação e falta de perspectivas, a promessa de um líder que simplesmente resolva tudo pode adquirir força. A resposta democrática para isso não pode ser desprezar a juventude. Precisa ser reconstruir sua confiança na capacidade da política de transformar concretamente a vida. 

    É aqui que aparece uma das maiores diferenças entre a juventude de hoje e aquela que enfrentou a ditadura militar. A geração que ocupou universidades, enfrentou a repressão, participou do movimento estudantil e lutou pela redemocratização também possuía contradições e não deve ser transformada em mito. Mas carregava uma ideia que parece ter perdido força: a convicção de que o destino individual estava ligado ao destino coletivo. Hoje existe uma juventude muito mais conectada e, paradoxalmente, muitas vezes mais solitária. Ela conversa com milhares de pessoas pelas redes, mas pode não conhecer o vizinho. Acompanha acontecimentos do mundo inteiro, mas pode não participar da vida comunitária. Tem acesso a uma quantidade extraordinária de informação, mas nem sempre dispõe de instrumentos para distinguir conhecimento de propaganda. A comunicação cresceu brutalmente. A organização coletiva não cresceu na mesma proporção.

    Mas seria um erro olhar para tudo isso apenas com pessimismo. A juventude continua sendo uma força histórica extraordinária. Ela ainda se revolta contra aquilo que considera injusto. Ainda quer mudar sua vida. Ainda deseja liberdade, reconhecimento, amor, prosperidade e dignidade. O problema não é a existência desses desejos. O problema é quando o sistema consegue convencê la de que todos esses desejos precisam ser perseguidos individualmente. A grande tarefa de uma política transformadora é mostrar que o desejo individual não precisa desaparecer para que exista solidariedade. Pelo contrário. Uma sociedade verdadeiramente humana deveria permitir que o jovem pudesse desejar uma boa casa, um bom salário, uma viagem, um carro, cultura, diversão e uma vida confortável sem precisar acreditar que milhões de outros precisam perder para que ele possa ganhar. A esperança começa quando o sonho individual encontra um projeto coletivo.

    Por isso, a juventude brasileira não deve ser tratada como uma geração perdida. Ela deve ser disputada pela razão, pela cultura, pela educação, pela solidariedade e pela esperança. O jovem que hoje admira uma marca estrangeira pode amanhã descobrir a riqueza extraordinária de sua própria cultura. O jovem que hoje acredita apenas na competição pode amanhã descobrir a força da cooperação. O jovem que desconfia da política pode amanhã perceber que nenhuma transformação profunda aconteceu sem que novas gerações tivessem coragem de entrar na história. O futuro não está escrito. A juventude pode ser capturada pelo medo ou convocada pela esperança. Pode ser reduzida a consumidores ou reconhecida como cidadã. Pode ser ensinada a competir pela sobrevivência ou estimulada a construir um mundo em que viver não seja uma corrida permanente contra os outros. É por isso que, apesar de todos os sinais de escuridão, ainda existem raios no horizonte. Ninguém impedirá o porvir, disse Castro Alves, o jovem poeta dos escravos, transformando a própria juventude em voz de liberdade. E talvez essa seja a mensagem que precisamos entregar às novas gerações: o futuro não pertence àqueles que apenas esperam por ele. Pertence também àqueles que têm coragem de construí lo. A juventude ainda pode levantar os olhos, enxergar além das telas, romper as correntes invisíveis do individualismo e descobrir que nenhum sonho coletivo morreu enquanto houver alguém disposto a lutar por ele. O porvir virá. E ninguém impedirá o porvir.

    JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira




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