JJ
A HORA DO TORCEDOR
O Flamengo não é apenas uma empresa esportiva.
A HORA DO TORCEDOR
Por JJ
O Flamengo é um dos maiores clubes do mundo e, seguramente, um dos maiores fenômenos populares do futebol. Sua torcida gigantesca, espalhada por todo o Brasil, é formada majoritariamente por trabalhadores, gente pobre, moradores das periferias e das favelas. É justamente esse patrimônio popular que deveria merecer o maior respeito de seus dirigentes. Mas a história recente mostra, infelizmente, outra coisa. No caso do Ninho do Urubu, diante da tragédia que matou jovens jogadores, o clube foi acusado de resistir a uma reparação que reconhecesse adequadamente a dimensão da perda das famílias. Durante a pandemia, dirigentes rubro-negros também se posicionaram publicamente contra medidas de isolamento e restrições sanitárias. Agora, diante das medidas de combate às apostas e à exploração predatória das BETs, voltam a aparecer em defesa de interesses que pouco parecem levar em conta a realidade de sua própria torcida. Não se trata de demonizar o futebol, muito menos de negar ao cidadão adulto o direito de escolher como gastar seu dinheiro. Trata-se de reconhecer que a expansão agressiva das apostas transformou a jogatina em um fenômeno de massa, com consequências sociais e financeiras especialmente graves entre os mais vulneráveis.
É preciso, portanto, perguntar: de que lado deve estar um clube quando uma atividade comercial que lhe rende dinheiro também pode produzir prejuízos entre seus próprios torcedores? O Flamengo não é apenas uma empresa esportiva. É uma instituição popular, construída ao longo de mais de um século pela paixão de milhões de pessoas que sustentam o clube com ingressos, produtos, assinaturas, audiência e, sobretudo, amor. Quando seus dirigentes reclamam de medidas destinadas a restringir a jogatina, deveriam antes explicar qual é o compromisso que assumem com aquele torcedor que pode perder o salário, endividar-se ou comprometer a renda familiar em busca de uma aposta milagrosa. O futebol não pode transformar a vulnerabilidade econômica de sua própria torcida em modelo de negócio. O Flamengo é enorme porque sua torcida é enorme. E justamente por isso seus dirigentes deveriam compreender que há momentos em que a grandeza de um clube se mede pela capacidade de proteger aqueles que o fizeram grande. O Flamengo pode ser gigante. Mas, quando ignora a realidade de sua própria torcida, seus dirigentes parecem insistir em demonstrar uma pequenez que não combina com o tamanho do clube.




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