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Barra Mansa,30/09/2026

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    JJ

    COM RAZÃO

    A campanha de Lula em 2026 está mais difícil do que estava em 2022.


    COM RAZÃO

    COM RAZÃO

    Por JJ

    Fernando Haddad disse qued disse que a campanha de Lula em 2026 está mais difícil do que estava em 2022. Está certo. E não é uma constatação menor. A eleição de 2022 foi vencida por Lula por uma diferença de apenas 1,8 ponto percentual: 50,90% dos votos válidos contra 49,10% de Jair Bolsonaro. Aquela vitória foi enorme do ponto de vista eleitoral e histórico, mas não pode ser confundida com uma vitória política. São coisas diferentes, embora exista entre elas uma relação dialética. Vitória eleitoral é conquistar a maioria necessária nas urnas e assumir o governo. Vitória política é algo muito mais amplo: significa alterar a correlação de forças, ampliar a base social e política, conquistar setores que antes estavam do outro lado, neutralizar adversários e criar condições para que um projeto avance. Lula ganhou a eleição, mas o país continuou profundamente dividido. A diferença entre as duas coisas parece ter sido subestimada.

    Talvez aí esteja uma das origens da dificuldade atual. Depois de uma vitória tão apertada, o governo deveria ter considerado que estava diante de um período de resistência, não de avanço. Era necessário consolidar posições, pacificar o país dentro do possível, ampliar alianças e compreender que a extrema direita não havia sido derrotada politicamente porque perdera uma eleição. Continuava organizada, mobilizada e capaz de transformar qualquer dificuldade do governo em combustível para sua própria narrativa. 

    Lula, o PT e parte dos partidos que sustentam o governo cometeram equívocos importantes nesse percurso. Superestimaram o resultado de 2022, subestimaram a capacidade de reação da oposição e, muitas vezes, procuraram explicar dificuldades políticas como simples problemas de comunicação ou de marketing. Mas política não é publicidade. Uma realidade política adversa não desaparece porque é melhor comunicada.

    Houve também erros concretos de articulação. A indicação de um nome ao Supremo Tribunal Federal sem que estivesse construída uma força política suficiente para garantir sua aprovação no Senado expôs uma fragilidade que não poderia ser ignorada. O episódio terminou com a rejeição da indicação de Jorge Messias pelo Senado, por 42 votos a 34, algo que não acontecia com uma indicação ao STF havia mais de um século. Houve ainda dificuldades na relação com o Congresso e a incapacidade de fazer prosperar, no ritmo pretendido, algumas propostas politicamente estratégicas. A discussão sobre o fim da escala 6x1 é um exemplo de uma pauta social de enorme capacidade mobilizadora que encontrou obstáculos, justamente no Senado. É possível atribuir parte dessas dificuldades à força do Congresso, à resistência das elites econômicas, à atuação seletiva de setores da mídia e à própria correlação de forças. Mas seria um erro ignorar que escolhas políticas também produzem consequências políticas.

    Tudo isso se torna ainda mais importante porque a oposição não desapareceu. Ao contrário, o bolsonarismo demonstrou uma capacidade impressionante de sobreviver politicamente aos seus próprios problemas. Denúncias, investigações, acusações e fatos potencialmente capazes de provocar desgaste não necessariamente produzem a migração de votos que seria esperada por quem observa a política apenas pela lógica racional da informação. Existe um fenômeno político e sociológico que precisa ser estudado com seriedade: o antipetismo e a identificação com o bolsonarismo parecem ter alcançado, em determinados segmentos, uma dimensão quase impermeável aos fatos. É como se parte desse eleitorado estivesse submetida a uma espécie de transe político, transformando-se naquilo que, numa imagem deliberadamente provocativa, poderíamos chamar de eleitores zumbis: caminham inexoravelmente em direção às urnas para cumprir sua escolha, independentemente das denúncias, revelações ou obstáculos que aparecem pelo caminho. Não se trata de dizer que esses eleitores sejam irracionais ou desprovidos de consciência. Trata-se de reconhecer que identidades políticas profundamente cristalizadas podem sobreviver a fatos que, em circunstâncias normais, produziriam mudanças de posição. Esse fenômeno ajuda a explicar por que determinadas denúncias parecem ter impacto muito menor do que seria esperado sobre o eleitorado bolsonarista.

    E é justamente nesse ambiente que a estratégia eleitoral se torna decisiva. Repetir em 2026 a arquitetura de 2022, inclusive com Geraldo Alckmin novamente na vice, pode ser compreendido como continuidade, mas a conjuntura mudou. 

    Teria sido politicamente mais inteligente ampliar ainda mais a composição da chapa e considerar uma vice de um partido como PSD ou MDB, capaz de sinalizar uma aliança mais abrangente diante de uma eleição que exigia ampliar, e não apenas preservar, a frente construída anteriormente. O próprio adversário também parece ter sido subestimado. Flávio Bolsonaro não é simplesmente a repetição eleitoral de seu pai. Sua candidatura encontrou um eleitorado já mobilizado, uma identidade política consolidada e uma estrutura de oposição construída ao longo de anos. A pesquisa Datafolha divulgada em setembro mostra uma disputa presidencial apertada, com Lula em 39% e Flávio Bolsonaro em 36% no primeiro turno, dentro da margem de erro, e 46% a 44% no segundo turno. Esses números não determinam o resultado, mas ajudam a demonstrar concretamente por que a campanha pode ser considerada mais difícil.

    Há, evidentemente, forças externas que pesam nesse cenário: a atuação de uma mídia muitas vezes seletiva, a resistência de setores das elites que não aceitam facilmente qualquer redução de seus privilégios, as pressões econômicas e geopolíticas e a própria influência do governo Trump sobre a conjuntura internacional. Mas quase nada disso deveria surpreender. Se Lula se iludiu com a força de sua vitória em 2022, não foi por falta de aviso. Agora não há espaço para ilusões. A eleição está aberta e será necessário trabalhar muito para vencê-la. Não há resultado escrito, nem certeza antecipada, nem pesquisa capaz de substituir a urna. Há uma disputa concreta, difícil e imprevisível. Haddad, portanto, tem razão: está mais difícil do que em 2022. E compreender por que está mais difícil é muito mais importante do que fingir que não está. 

    JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira




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