Carmem Teresa Elias
LITERATURA SE CONJUGA EM NÓS
A literatura è em sua essencial um espaço de questionamento da natureza humana e suas mazelas.
LITERATURA SE CONJUGA EM NÓS
A literatura è em sua essencial um espaço de questionamento da natureza humana e suas mazelas. No século XXI o traço marcante, contudo , è a idolatria da escrita do eu numa época em que o destino da humanidade está em xeque mas ninguém se preocupa com o outro..
Vivemos a era mais autobiográfica da história. Nunca se escreveu tanto sobre si. O feed é um diário infinito, o livro é autoficção, o podcast é um relato pessoal, o ensaio começa com "quando eu". E nunca foi tão difícil escrever sobre o outro.
Há um paradoxo que me assombra. O planeta queima, a inteligência artificial reescreve o que significa ser humano, a democracia range, as guerras voltaram a ser televisionadas em tempo real. O destino coletivo nunca esteve tão em xeque. E a literatura, em vez de levantar os olhos, baixa ainda mais a cabeça para o próprio umbigo.
Não é vaidade. É medo.
Escrever o eu virou o último bunker de uma sociedade que ja se desintegrou.
Se antes , a literatura do eu era um ato de coragem, Rousseau se confessava para a sociedade. Annie Ernaux escreve para vingar sua classe. Escrever sobre si era se expor ao julgamento do mundo.
Hoje é o contrário. Escrever sobre si é se proteger do mundo. Quando tudo é grande demais, complexo demais, apocalíptico demais, eu volto para o que eu posso controlar: minha infância em Minas, meu término, minha ansiedade, meu café da manhã. O micro como anestesia para o macro.
O problema não é falar de si. Todo grande romance é, no fundo, autobiográfico. O problema é quando o si deixa de ser uma porta para o mundo e vira um muro contra o mundo.
Knausgård escreveu seis volumes sobre lavar a louça e levar os filhos na escola e, no meio disso, falou de Hitler. O eu dele era um telescópio. O eu que vemos hoje, muitas vezes, é um espelho fechado no banheiro.
Prevalece socialmente cega uma economia da atenção que odeia o outro.
Ninguém se preocupa mais com a escrita sobre o outro ou do mundo porque fomos treinados de forma condicionada para isso.
O algoritmo nos ensinou que o outro só existe como audiência ou como ameaça. Ou ele te curte, ou ele te cancela. Nunca como alguém que tem uma história tão densa quanto a sua e que exige o trabalho lento da escuta.
A literatura sempre foi o lugar desse trabalho lento. Ler um romance russo do século XIX é aceitar passar 200 páginas na cabeça de alguém que você jamais encontraria. É o exercício mais radical de alteridade que inventamos.
A literatura do eu contemporânea, quando mal compreendida, faz o oposto. Ela diz: só a minha dor é real, só a minha identidade é legítima, só a minha experiência tem autoridade. O outro vira apropriação, invasão, ruído.
E assim, sem perceber, ficamos todos falando altíssimo sobre nós mesmos em salas vazias, enquanto lá fora a casa comum desaba.
Não precisamos de romances sobre mudança climática com personagens-palestra. Precisamos de uma literatura do eu que se lembre que o pronome "eu" só existe porque existe um "tu", um “Nòs” e um “eles”.
O eu que me interessa é o eu que trascende a si, . O eu que escreve "eu tive medo quando meu filho nasceu em 2020" e, nessa frase, cabe toda uma geração que teve filhos durante uma pandemia. O eu que escreve "minha mãe limpava a casa de outras mulheres" e, ali, está toda a história do trabalho invisível no Brasil. O eu que entende que sua biografia é um fio, mas o tecido é coletivo.
Escrever sobre si, hoje, deveria ser um ato de tradução, não de isolamento. É dizer: eu senti isso, tão particular, tão meu, e talvez assim você consiga sentir o que é ser outro. É usar a ferida própria como ponte, não como vitrine.
Numa época em que o destino da humanidade está em xeque, a tarefa mais radical não é parar de escrever sobre si. É escrever sobre si como se o outro importasse. Como se o leitor não fosse um seguidor, mas um sobrevivente ao lado, no mesmo barco.
Porque no fim, a pergunta que a literatura sempre fez continua a mesma, só que mais urgente: quel somos? Por que somos assim ? Que história vamos contar quando nos perguntarem por que, podendo nos salvar juntos, preferimos nos narrar sozinhos?
Carmem Teresa Elias




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