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Barra Mansa,14/09/2026

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    JJ

    A Insistente Bola da Vez

    A bola da vez deveria ser a verdade.


    A Insistente Bola da Vez

    A Insistente Bola da Vez

    Por JJ

    Há algo de profundamente revelador na maneira como parte da imprensa brasileira, com a Rede Globo à frente, vem tratando a crise envolvendo o Banco Master, Daniel Vorcaro, o Supremo Tribunal Federal e Alexandre de Moraes. A insistência é sempre a mesma: Moraes, Moraes, Moraes. Como se toda a história pudesse ser reduzida às relações do ministro com o banqueiro e como se as demais questões — especialmente aquelas que podem contrariar a narrativa previamente escolhida — fossem meros detalhes. O problema é que há um fato que deveria estar no centro do debate e que vem sendo tratado com uma discrição quase constrangedora: André Mendonça resiste em permitir que os demais ministros do Supremo tenham acesso integral ao conteúdo extraído do celular de Vorcaro. Zanin pediu a íntegra. Gilmar Mendes reforçou o pedido. A PGR também defendeu que os ministros conheçam todo o material necessário para formar seu convencimento. E Mendonça responde que a divulgação integral poderia tumultuar o julgamento e prejudicar investigações em andamento.

    Mas a pergunta que a imprensa deveria fazer, com toda a força, é elementar: por quê? Como exatamente o acesso dos próprios ministros do Supremo ao conteúdo integral da mídia apreendida poderia “tumultuar” uma investigação? Qual é o fundamento republicano para que um ministro, individualmente, estabeleça quais informações seus colegas podem ou não conhecer? Não estamos falando da publicação indiscriminada do conteúdo para milhões de pessoas nas redes sociais. Estamos falando de ministros que integram o mesmo tribunal e que serão chamados a julgar uma questão diretamente relacionada àquele material. Gilmar Mendes foi explícito ao defender que todos tenham acesso integral, justamente para que não sejam obrigados a formar juízo a partir de recortes selecionados. É uma questão elementar de transparência, colegialidade e devido processo. A resistência a esse acesso não deveria provocar silêncio. Deveria provocar manchetes, editoriais e perguntas incômodas. É uma conduta institucionalmente gravíssima e, no mínimo, profundamente antirrepublicana quando um integrante de um colegiado passa a controlar o que os demais integrantes desse colegiado podem examinar.

    E aqui aparece o verdadeiro escândalo jornalístico: a seletividade da indignação. Quando surgem mensagens envolvendo Moraes, a informação ganha imediatamente manchetes, colunas, comentários, análises e horas de televisão. Quando aparecem questionamentos sobre a própria condução da investigação, sobre a seleção dos documentos divulgados ou sobre a resistência em compartilhar a íntegra da mídia com os demais ministros, a temperatura cai. Mendonça chegou a divulgar documentos que atingiam Moraes, enquanto o próprio debate sobre o caráter seletivo da liberação dos materiais provocou reação de outros ministros. Fachin determinou providências para obter informações sobre a custódia e o acesso ao material, depois dos pedidos de Zanin, Moraes e Gilmar. Por que a mesma imprensa que exige transparência de Moraes não exige transparência de Mendonça? Essa é a pergunta que não quer calar.

    Aos que reivindicam “simetria” e dizem que é preciso criticar Moraes tanto quanto qualquer outro ministro, eu respondo: sim, é preciso. Mas simetria não significa cegueira histórica. Alexandre de Moraes tem muitos defeitos, tomou decisões controversas e deve, como qualquer autoridade pública, estar sujeito à crítica e à fiscalização. O que não se pode fazer é fingir que sabemos apenas metade da história. O alvo político contra Moraes não nasceu ontem, nem se explica apenas pelo Banco Master. Moraes tornou-se uma figura central porque esteve à frente do TSE durante a eleição de 2022 e, posteriormente, assumiu papel decisivo no enfrentamento judicial da tentativa de ruptura institucional e no julgamento dos envolvidos na tentativa de golpe. É exatamente aí que está o ponto que os arautos da falsa simetria frequentemente esquecem. Para uma parcela do bolsonarismo, quem enfrenta Bolsonaro passa automaticamente a ser inimigo político — e, por consequência, qualquer ataque a Moraes transforma-se em uma oportunidade de atingir também o governo Lula.

    A memória da imprensa, entretanto, parece funcionar de maneira curiosamente seletiva. Convém lembrar o ambiente em que o país chegou à eleição de 2022: ataques às urnas eletrônicas, questionamentos antecipados sobre o resultado eleitoral, acampamentos, ameaças, violência política e uma tentativa concreta de impedir a normalidade democrática. Poucos dias antes da diplomação dos eleitos, houve até uma tentativa de atentado com explosivo em Brasília. Depois vieram os atos de 8 de janeiro. Nada disso transforma Alexandre de Moraes em santo, tampouco o coloca acima da lei. Mas explica por que ele se tornou um inimigo prioritário daqueles que não aceitaram o resultado eleitoral e depois tentaram subverter a ordem democrática. Ignorar esse contexto para apresentar Moraes simplesmente como um ministro que “se envolveu com Vorcaro” é retirar da história justamente a parte que explica por que ele se tornou o principal alvo político de determinados setores.

    E é justamente por isso que a chamada “classe média progressista”, que muitas vezes se orgulha de sua independência, precisa tomar cuidado para não cair na armadilha da falsa equivalência. Criticar Moraes não é necessariamente fazer o jogo do bolsonarismo. Mas transformar qualquer denúncia contra Moraes em prova de que todo o edifício democrático está contaminado também é uma forma de ingenuidade. A pergunta correta não é quem gostamos ou de quem desconfiamos. É: quem tem interesse em cada narrativa, quais provas existem, quais provas estão sendo escondidas ou seletivamente divulgadas e quem está sendo submetido ao mesmo escrutínio? Se há suspeitas contra Moraes, que sejam investigadas. Se há suspeitas contra Toffoli, que sejam investigadas. Se há questões sobre Mendonça, que sejam investigadas. E, sobretudo, que todos os ministros tenham acesso aos mesmos elementos antes de decidir.

    A “bola da vez”, portanto, não deveria ser Alexandre de Moraes. A bola da vez deveria ser a verdade. E a verdade não pode ser construída com vazamentos escolhidos, celulares parcialmente acessíveis, documentos convenientemente selecionados e uma imprensa que decide previamente qual personagem deve ocupar o banco dos réus. Moraes não é santo. Mas também não pode ser transformado em bode expiatório para uma disputa política maior. Se a imprensa quer exercer seu papel, que investigue tudo: o conteúdo integral do celular de Vorcaro, a atuação de Mendonça, as relações de Vorcaro com diferentes ministros e políticos, as decisões de Moraes e, principalmente, a tentativa de golpe que colocou a democracia brasileira diante de seu momento mais grave em décadas. O país não precisa de uma imprensa que escolha a bola da vez. Precisa de jornalismo que tenha coragem de olhar para o campo inteiro.

    JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira




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