MK - Marcelo Kieling
As cinco alavancas e o elefante na sala:
O Brasil não precisa de outro plano, precisa de coragem
As cinco alavancas e o elefante na sala:
O Brasil não precisa de outro plano, precisa de coragem
Por Marcelo Kieling
Basta de fingimento.
O problema do Brasil nunca foi a falta de diagnóstico — o país é campeão mundial em diagnósticos brilhantes e vice mundial em execução medíocre. As cinco propostas de governança que apresento — reforma tributária, revolução educacional, transição energética, saúde modernizada e segurança pública integrada — não são teoria: são um caminho já desenhado, testado e conhecido. E sempre continuam na gaveta. Não por erro técnico: estão certas em quase tudo. Continuam na gaveta porque não há interesse político em tirá-las de lá. Nenhum governante quer responder à única pergunta que importa — quem vai pagar a conta e quem vai ceder o poder? Enquanto ela ficar sem resposta, toda proposta será apenas teatro.
Cinco eixos, cinco guerras de poder
Um plano que se pretenda estrutural precisa operar alavancas capazes de destravar o desenvolvimento com inclusão social, eficiência fiscal, segurança jurídica e sustentabilidade. As cinco prioridades são conhecidas — e é exatamente aí que mora o problema: conhecidas demais. Repetidas há décadas, recicladas a cada eleição, maquiadas a cada mandato.
A reforma tributária é a maior transformação estrutural desde 1988 e está em teste neste exato momento — CBS a 0,9%, IBS a 0,1% nas notas fiscais, transição plena até 2033. Enquanto o país finalmente enterra o manicômio tributário que penaliza quem produz e premia quem sonega, os fiscos estaduais já estão em campo, de garras afiadas, lutando para manter suas fatias. Desburocratização, IVA dual eficiente, fim das cumulatividades regressivas, meritocracia e avaliação por resultados: tudo esbarra na mesma pedra — quem perde arrecadação não entrega o poder de graça. E não vai entregar.
A revolução educacional voltada ao ensino técnico e tecnológico é a ponte entre a juventude e a economia digital — ninguém de boa-fé contesta. Escolas profissionalizantes integradas ao ensino médio, parceria com o setor produtivo, currículos com competências digitais, pensamento crítico e letramento financeiro. Mas a batalha pelo currículo e pela carreira docente reabre-se a cada governo, com corporações defendendo privilégios com unhas e dentes — e o aluno, aquele que deveria ser o centro de tudo, fica esperando na porta.
A transição energética é a rara janela em que o Brasil troca vantagem natural por vantagem competitiva: matriz limpa, vento, sol, hidrogênio verde — ativos que poucos países têm. Smart grids, logística integrada com ferrovias, cabotagem e hidrovias para derrubar o Custo Brasil. Mas rentas estabelecidas não desaparecem por gentileza — e o setor de combustíveis fósseis sabe disso. Sabe, e conta com a lentidão do Congresso como aliada.
A saúde modernizada — atenção primária universalizada, prontuário eletrônico nacional unificado, telemedicina conectando o interior aos grandes centros — esbarra na conectividade do país real e na regulação, onde conselhos profissionais disputam território como quem defende feudo. Enquanto isso, o paciente da fila espera.
E a segurança pública integrada? O Sistema Único de Segurança Pública existe desde 2018. A lei está pronta. Falta a integração de dados em tempo real entre polícias que se tratam como feudos medievais — e falta, sobretudo, a inteligência financeira para sufocar as rotas de lavagem de dinheiro e narcotráfico. Oito anos de lei e nenhuma vontade de aplicá-la: isso não é incapacidade técnica. É escolha.
Não há como dizer com mais delicadeza: o Brasil tem uma corrupta elite política que prefere o fracasso administrado ao sucesso arriscado. Isso não é acaso — é escolha. Escolha silenciosa, repetida a cada mandato, a cada reforma que nasce morta, a cada relatório que vira pó de arquivo. E escolha tem autor, tem rosto e tem preço — o preço é pago por quem espera na fila do SUS, por quem não aprendeu a ler, por quem é morto pela violência que o Estado não combate.
O elefante chamado restrição fiscal
E então surge o elefante na sala, o argumento que serve de escudo para tudo: a restrição fiscal. Estas cinco revoluções simultâneas apresentadas custam dinheiro — muito dinheiro — num país com arcabouço apertado, dívida alta e juros entre os mais cruéis do planeta. O plano não hierarquiza prioridades. Não nomeia fontes de financiamento. Não diz quem perde. E sem isso, é carta de intenções: bonita, coerente, sem dentes.
Mas o contraponto precisa ser dito com a mesma força: usar a restrição fiscal como desculpa é a forma mais elegante de defender o imobilismo. O Brasil já pagou caro demais pela cultura do "não dá". Coreia do Sul, Chile e Irlanda não avançaram porque não tinham conflitos. Avançaram porque construíram coalizões que atravessaram mandatos e sobreviveram a governos. Reforma tributária não se faz em um governo — faz-se em uma geração de governos que concordam sobre o essencial e têm coragem de enfrentar quem perde. O que esses países tiveram e o Brasil não teve não foi dinheiro. Foi vontade.
O capítulo que falta
Chega de procurar o capítulo que falta. Ele nunca foi escrito porque nunca houve intenção de escrevê-lo. O Brasil não sofre de falta de plano — sofre de excesso de covardia institucional. E a covardia protegida pela corrupção. aqui, não é incompetência: é cálculo. A elite política brasileira sabe exatamente o que precisa ser feito e escolhe, deliberadamente, não fazer. Cada reforma adiada é uma decisão tomada. Cada relatório engavetado é um voto contra o futuro. Enquanto a vontade política corrupta continuar sendo a única matéria-prima que falta, as cinco alavancas seguirão no papel — e o Brasil continuará sendo o país que sempre adia um futuro que já poderia ter começado.
Produzi o conteúdo com a utilização de Ferramentas de IA.




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