JJ
A BARRICADA IMPERFEITA
Onde estão os discursos inflamados?
A BARRICADA IMPERFEITA
Por JJ
Esperando ansiosamente alguma indignação dos nossos autoproclamados “nacionalistas” e “patriotas”, tão ávidos pela cabeça de Alexandre de Moraes e pela destruição do STF, agora que a sociedade brasileira toma conhecimento de um inquérito instaurado em 22 de julho que atinge diretamente o candidato Flávio Bolsonaro. Onde estão os discursos inflamados? Onde estão os editoriais indignados? Onde estão os especialistas que transformam qualquer suspeita envolvendo integrantes do campo progressista em prova definitiva de corrupção? O silêncio é revelador. Quando o alvo muda de lado, a lupa desaparece e os olhos se fecham. A mesma gente que exige transparência absoluta quando a investigação envolve seus adversários parece descobrir, diante de uma investigação que alcança a família Bolsonaro, as virtudes do silêncio, da prudência e da presunção de inocência.
A muleta da crítica a polarização tornou-se, em muitos casos, um biombo para esconder intenções muito menos nobres. É evidente que a polarização brasileira atingiu um nível tóxico e não faz bem ao país. Mas combater a polarização não pode significar colocar no mesmo plano coisas que não são equivalentes, nem transformar a crítica aos excessos de um lado em licença para ignorar os crimes, abusos ou ameaças do outro. Há quem procure com uma lupa qualquer problema no governo Lula ou no campo progressista e, ao mesmo tempo, desenvolva uma impressionante deficiência visual diante dos episódios que envolvem a família Bolsonaro e setores do bolsonarismo. Isso não é equilíbrio. É seletividade política.
A imprensa tem responsabilidade especial nesse processo, embora existam honrosas exceções. Criticar os excessos do STF é legítimo e necessário. Questionar decisões de Alexandre de Moraes é legítimo e necessário. Nenhuma instituição democrática deve estar acima da crítica. O problema é quando a crítica deixa de ser crítica e passa a funcionar como instrumento de deslegitimação sistemática de uma instituição que hoje representa uma das insuficientes barreiras institucionais contra aventuras autoritárias. E não é apenas a imprensa. Há quadros políticos que passam horas nas redes sociais denunciando os “abusos” do STF, mas não gastam sequer alguns segundos para questionar o espetáculo de bandeiras dos Estados Unidos na Avenida Paulista, como se a submissão simbólica a interesses estrangeiros fosse manifestação legítima de patriotismo. Patriotismo não combina com entrega do próprio país.
Os fatos que chegam ao STF e os conflitos que atravessam a Corte são expressões da luta política que está em curso no Brasil. E há gente tratando esta eleição como se fosse apenas mais uma disputa entre candidatos, programas e preferências eleitorais. Não é. O risco é enorme. Quando se vê, nos Estados Unidos, um presidente disposto a instrumentalizar o poder, enriquecer enquanto o povo empobrece e até oferecer dinheiro em troca de votos, é preciso compreender o tamanho da ameaça representada pela extrema direita internacional. Não há simetria nessa disputa. Isso não significa transformar o STF em instituição sagrada, nem fechar os olhos para seus erros, vícios e contradições. Significa reconhecer que instituições imperfeitas também podem cumprir funções decisivas na defesa da democracia.
Tenho divergências, dúvidas, desconfianças e discordâncias com decisões do STF. Não tenho nenhuma dificuldade em reconhecer seus erros. Mas, diante do que está em jogo, prefiro um STF imperfeito, contraditório e cheio de vícios a uma sociedade sem nenhuma barricada institucional diante do golpismo, do autoritarismo e do avanço de uma extrema direita entreguista. A democracia não exige que concordemos com todas as instituições. Exige que saibamos distinguir entre criticá-las para aperfeiçoá-las e destruí-las para abrir caminho àqueles que desejam destruir a própria democracia. A polarização precisa ser combatida, sim. Mas não pode servir de álibi para a cegueira. Num momento em que a soberania nacional e a democracia estão sob pressão, neutralidade diante de ameaças desiguais não é equilíbrio. É omissão.
JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira




COMENTÁRIOS