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Barra Mansa,02/09/2026

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    Carlo Simi

    O candidato que descobriu o futuro nos anos 90

    Isso não é novidade.


    O candidato que descobriu o futuro nos anos 90

    O candidato que descobriu o futuro nos anos 90

    Por Carlo Simi 

    Há candidatos que surpreendem pela audácia das ideias. Há candidatos que surpreendem pela coragem das propostas. E há candidatos que surpreendem porque, depois de ouvi-los por uma hora, você ainda não consegue explicar para um filho de dez anos o que eles fariam de diferente. Augusto Cury pertence a este terceiro grupo. E isso, num momento tão sério para o Brasil, não é apenas decepcionante: é perigoso.

    Comecemos pelo começo, que é onde os professores gostam de começar.

    Cury descobriu a inteligência artificial. Descobriu com a intensidade de quem acaba de chegar da montanha com uma tábua de pedra nas mãos. Cada problema do país, na sua visão, tem uma resposta tecnológica. A fila do SUS? Telemedicina. O feminicídio? Um drone. A ineficiência do Estado? Inteligência artificial. É uma visão de mundo coerente, reconheço. O problema é que essa coerência tem endereço: ela mora nos filmes de Hollywood dos anos 2000, numa época em que acreditávamos que a tecnologia resolveria tudo sozinha, sem política, sem Estado, sem a bagunça inconveniente que é a vida humana real. 

    Um detalhe que o candidato não explica, porque aparentemente também não sabe: o Brasil não produz inteligência artificial. Não temos os data centers, não temos a infraestrutura, não temos a cadeia produtiva. Então quando Cury diz que vai colocar IA em tudo, ele está dizendo, com outras palavras, que vai entregar os sistemas do Estado brasileiro às grandes empresas de tecnologia americanas e asiáticas. Vai entregar os dados de saúde, de segurança, de educação dos brasileiros a corporações privadas. Isso tem nome na ciência política: não é modernização. É vassalagem tecnológica.

    E foi além. Em suas próprias palavras, Cury propôs que o governo parasse de contratar servidores públicos e digitalizasse toda a máquina pública com inteligência artificial. Disse que assim 'economizaríamos o suficiente'. O suficiente para quê, ele não explicou. Porque não sabe. Mas vale a pena traduzir o que essa proposta significa na prática: significa substituir, aos poucos e sem debate, os professores das escolas federais, os médicos dos hospitais públicos, os auditores fiscais, os peritos da Previdência, os técnicos do IBGE, por algoritmos controlados por corporações privadas. Significa esvaziar o Estado por dentro, sem precisar fechar nada formalmente. É a privatização silenciosa da máquina pública, disfarçada de eficiência. E feita com o dinheiro e os dados de todos os brasileiros.

    Mas é na educação que Cury revela com mais clareza a que veio, e é aqui que o professor em mim não consegue ser apenas analítico.

    Ele quer empreendedorismo nas escolas. Belo programa, pensará você, leitor. Até perceber que esse empreendedorismo será destinado, nas palavras do próprio candidato, às comunidades mais pobres. As escolas de elite, que formam os filhos de quem já chegou, continuarão com matemática, literatura, ciências, filosofia, as ferramentas do pensamento que abrem portas. Para os filhos de quem ainda não chegou, haverá cursinhos. Oficinas. Técnicas rápidas. O suficiente para ocupar, nunca o suficiente para transformar.

    Isso não é novidade. Nos anos 90 e nos anos 2000, o Brasil já tentou essa receita. Chamava-se qualificação acelerada, empregabilidade, inserção produtiva. O resultado foi uma geração de jovens com certificados na mão e sem especialização suficiente para acompanhar um mercado que mudava mais rápido do que os cursinhos conseguiam ensinar. Desempregados com diploma de curso técnico que já havia sido ultrapassado pela tecnologia antes de terminarem a aula.

    Cury viveu tudo isso. E quer repetir.

    Mas o que me revolta, de verdade, não é a incompetência da proposta. É a sua desonestidade estrutural. Porque quando você reserva oempreendedorismo para os pobres e a universidade para os ricos, você não está oferecendo oportunidade. Você está administrando a desigualdade. Está garantindo que o filho do trabalhador chegue até um certo ponto e pare. Que ele não dispute a mesma vaga, o mesmo cargo, o mesmo andar do elevador social que o filho da elite disputa. É uma arquitetura de contenção social disfarçada de projeto educacional. E disfarçada com competência, diga-se, porque usa exatamente as palavras que o pobre quer ouvir: autonomia, protagonismo, empreender.

    A Constituição garante autonomia pedagógica aos professores. O que Cury propõe ignora isso e impõe um modelo único, saído de um livro de autoajuda vendido na fila do caixa de supermercado nos anos 90, para todo o sistema educacional brasileiro. Um país continental, com diversidades regionais, culturais e sociais imensas, submetido ao método de um palestrante motivacional. Não é reforma educacional. É vaidade editorial com pretensão de política pública.

    A diplomacia merece um parágrafo separado, porque é onde o candidato atinge o pico da sua trajetória de ideias originais. Cury acha que o Itamaraty é ruim. Acha que o Brasil é mal vendido ao mundo. E a solução que encontrou foi substituir diplomatas de carreira, formados no mais rigoroso processo seletivo da administração pública brasileira, por influenciadores digitais. Não é piada. Ele disse isso. Em voz alta. Numa sabatina gravada.

    O Itamaraty é uma das instituições mais respeitadas do Brasil no exterior. Em décadas de instabilidade política, de presidentes presos e de crises econômicas, a diplomacia brasileira manteve uma reputação de seriedade, de consistência e de inteligência estratégica que pouquíssimos países conseguem sustentar. Propor destruir isso para colocar criadores de conteúdo nas embaixadas não é inovação. É a confissão de que se desconhece completamente o que a diplomacia faz, por que ela importa e o que acontece quando um país perde sua credibilidade internacional.

    E aqui chegamos ao ponto que mais me preocupa, porque sou professor e reconheço o padrão.

    Augusto Cury não é um candidato sem ideias. É um candidato com muitas ideias sem sustentação. É diferente, e o diagnóstico importa. Quando um aluno não tem resposta, ele fica em silêncio ou admite que não sabe. Quando um aluno tem medo de não saber, ele fala muito, fala rápido, usa palavras grandes e muda de assunto antes que a pergunta seguinte chegue. Cury, na sabatina, não soube explicar como fecharia os ministérios. Não soube explicar como funcionaria o drone antifeminicídio. Não soube dizer uma palavra sobre a dívida pública. Mas nunca ficou em silêncio. Porque o silêncio, esse sim, teria sido honesto.

    Há algo mais a dizer para o eleitor progressista que ainda considera Cury uma terceira via.

    Terceira via não é uma posição no espectro político. É uma promessa de que existe um caminho entre dois extremos que evita os defeitos de ambos. Cury declarou, sem constrangimento, que é favorável à meritocracia, ao Estado enxuto e ao capitalismo sem mediações. Isso não é terceira via. É a direita dizendo o que sempre disse, com um jaleco e uma voz de autoajuda. O jaleco muda a embalagem. Não muda o conteúdo.

    O Brasil de 2026 não precisa de um presidente que acredita em drones salvadores e influenciadores diplomatas. Precisa de alguém que entenda que governar é diferente de palestrar. Que política pública não é metáfora motivacional. Que os problemas reais do país, a desigualdade, a segurança, a educação pública, a saúde, a dívida, exigem respostas que comecem pelo diagnóstico correto, passem pelo conhecimento técnico e cheguem à decisão política responsável.

    Augusto Cury tem muitos livros publicados. Nenhum deles ensinará como fazer isso.

    Carlo Simi é Matemático, Professor, Servidor Público, Sócio Proprietário e Torcedor do Fluminense, Frequentador dos jogos e do clube desde a década de 50, Ex-Conselheiro, Membro do Grupo Por Amor ao Tricolor e Membro da Embaixada Tricolores da Zona Sul.

     



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