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Barra Mansa,30/08/2026

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    Carlo Simi

    A Rocinha, o Novo Visual

    E o que a cidade insiste em não ver


    A Rocinha, o Novo Visual

    A Rocinha, o Novo Visual e o que a cidade insiste em não ver

    Por Carlo Simi

    Há poucos dias, uma notícia simples atravessou as redes: o restaurante Novo Visual, na Rocinha, foi reconhecido por lei como patrimônio cultural e turístico de natureza imaterial da Cidade do Rio de Janeiro. Poderia parecer apenas uma homenagem gastronômica, mais um registro protocolar entre tantos que passam despercebidos na rotina legislativa. Mas não é. É, na verdade, um gesto político no melhor sentido da palavra: reconhecer, com força de lei, o que o poder público historicamente se recusa a enxergar nas comunidades cariocas.

    A Rocinha, como tantas outras favelas do Rio, carrega um estigma que a reduz a uma única narrativa: a do crime e da violência. É essa narrativa que ocupa manchete, que orienta política pública, que justifica operações truculentas e que, no fim das contas, faz muito pouco pelo cidadão que ali vive e trabalha. Enquanto isso, a enorme maioria da população dessas comunidades é formada por pequenos empreendedores, trabalhadores e famílias que constroem, com esforço próprio e sem qualquer amparo estatal significativo, uma economia local vibrante, geradora de emprego e renda no próprio território.

    A pergunta que precisa ser feita, e que raramente é respondida com honestidade, é: por que o Estado não consegue sufocar o crime organizado com inteligência, em vez de insistir numa política de segurança baseada quase exclusivamente na violência? Por que não se rastreia com efetividade a lavagem de dinheiro que sustenta o tráfico? Por que não se impede, de fato, a entrada de armas e drogas nesses territórios? E, sobretudo, por que não se oferece escola em tempo integral, com educação de qualidade, como mecanismo real de prevenção contra o ingresso de jovens na criminalidade?

    Essas perguntas não têm resposta fácil, mas têm uma resposta honesta: a ausência do Estado nessas comunidades não é acidental, é histórica. E é justamente por isso que atos como o do Vereador Rafael Aloisio Freitas ganham relevância. Ao transformar o Novo Visual em patrimônio cultural e turístico da cidade, ele não está apenas celebrando um restaurante bem-sucedido. Está fazendo um gesto de reconhecimento público oficial ao trabalho, à dignidade e à capacidade empreendedora de uma população que, todos os dias, luta para ser respeitada por uma sociedade que insiste em olhá-la com desconfiança.

    É esse tipo de reconhecimento que precisa se multiplicar. Não como exceção, mas como política. Porque cada pequeno negócio reconhecido, cada trabalhadorvalorizado, cada iniciativa comunitária celebrada institucionalmente contribui para desconstruir, tijolo por tijolo, o estigma que pesa sobre territórios como a Rocinha. E contribui, também, para pressionar o poder público a fazer o que deveria ser óbvio: investir em inteligência de segurança, em educação integral e em serviços públicos de qualidade, em vez de tratar essas comunidades apenas como campo de guerra.

    A vitória do Novo Visual é, antes de tudo, a vitória de quem vive a Rocinha no dia a dia difícil, mas que enxerga no próprio trabalho, no próprio empreendimento, a prova de que a vocação daquele povo nunca foi o crime. Foi sempre a construção, a resistência e o desejo legítimo de ser tratado, finalmente, com o respeito que merece.

    Carlo Simi é Matemático, Professor, Servidor Público, Sócio Proprietário e Torcedor do Fluminense, Frequentador dos jogos e do clube desde a década de 50, Ex-Conselheiro, Membro do Grupo Por Amor ao Tricolor e Membro da Embaixada Tricolores da Zona Sul.

     



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