Carlo Simi
Os que ficaram quando todos fugiram
Elas não morreram por acidente.
Os que ficaram quando todos fugiram
Por Carlo Simi
Existem dores que a memória tenta apagar, não porque sejam pequenas, mas porque são grandes demais para carregar todos os dias. O Brasil chorou mais de 700 mil despedidas. O mundo, 7 milhões. E bem no meio desse abismo havia gente de jaleco caminhando na contramão do medo geral, indo para dentro do incêndio enquanto todos os outros corriam para longe dele.
Não chamemos isso de heroísmo fácil, porque a palavra às vezes esvazia o que ela tenta descrever. Foi mais que isso: foi ofício levado ao osso, foi mão que não podia tremer mesmo tremendo por dentro. Enfermeiros, técnicos, auxiliares, médicos, atravessaram portas que o resto de nós evitava nem chegar perto. Hospitais transbordando, ginásios virando enfermaria improvisada, corredores cheios de macas e de silêncios pesados. Foi ali, nesse caos sem manual, que essa gente sustentou o país de pé.
O preço que pagaram não cabe em número. Houve quem passasse meses longe dos próprios filhos, com medo de levar para casa o que carregava do trabalho. Houve quem dormisse em qualquer canto para não abraçar quem amava. Houve lágrima escondida no banheiro do hospital, porque demonstrar medo, ali, parecia luxo que ninguém podia se dar. E, ainda assim, mais de 4.500 desses profissionais não voltaram para casa. A maioria mulheres. A maioria técnicas e auxiliares de enfermagem, as mãos que tocam o paciente a cada instante do dia. No mundo, mais de 115 mil vidas assim se foram.
Elas não morreram por acidente. Morreram entregues a estranhos, a gente sem rosto para a maioria de nós, mas que para elas tinha nome, tinha história, tinha urgência. E existe, por aí, quem já tenha decidido esquecer, quem trate aquele tempo como exagero coletivo, como se o aperto no peito de cada boletim diário tivesse sido teatro. Só que quem esteve lá dentro sabe: aquilo não se esquece. Não se esquece o colega que não voltou do plantão. Não se esquece o filho abraçado depois de meses de ausência.
E é exatamente por isso que dói ver, de novo, o mesmo veneno circulando: gente que jamais pisou numa UTI lotada, que nunca perdeu ninguém numa escala de trabalho, hoje espalha desconfiança sobre vacinas como se nada daquilo tivesse existido. Não é opinião, é afronta à memória de quem morreu justamente para que a ciência pudesse nos trazer de volta. É desonestidade travestida de ceticismo, e custa vidas reais repetir esse discurso.
Talvez a pergunta certa não seja se lembramos. É se já agradecemos, hoje, a quem cuidou de nós quando mais precisávamos. Elas não pediram palco nem aplauso. Pediram, no máximo, que a gente não deixasse aquilo virar esquecimento.
Carlo Simi é Matemático, Professor, Servidor Público, Sócio Proprietário e Torcedor do Fluminense, Frequentador dos jogos e do clube desde a década de 50, Ex-Conselheiro, Membro do Grupo Por Amor ao Tricolor e Membro da Embaixada Tricolores da Zona Sul.




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