MK - Marcelo Kieling
Quem confunde cano com horizonte não tem altura para governar
Entre a bomba e o cano, faltou o céu
Quem confunde cano com horizonte não tem altura para governar
Entre a bomba e o cano, faltou o céu
Por Marcelo Kieling
Minha opinião, dita sem rodeios: não estamos diante de um tropeço retórico, e sim de uma confissão pública. Um candidato à Presidência da República que, para enfrentar a crise ambiental, propõe o tratamento de esgoto não ignora apenas a ciência do clima; ignora a escala do mundo em que pede para governar. E quem erra sobre a escala do mundo erra sobre tudo — sobre a economia, sobre a política externa, sobre a vida concreta de milhões de brasileiros. A minha indignação é legítima. Mas preciso me indignar com precisão: o erro do senador não está em falar de esgoto; está em acreditar que o esgoto é a resposta para a tempestade. Um homem que confunde um cano com o horizonte talvez seja incapaz de enxergar o céu que desaba sobre nós.
Já foi pior, é preciso reconhecer. Antes do esgoto, houve a bomba atômica — a proposta que transforma a política ambiental em piada de quinta série, só que com urânio. Entre a bomba e o cano, o candidato desenhou, sem perceber, um retrato completo de si mesmo: um pensamento que oscila entre o cataclísmico e o banal, sem jamais tocar o terreno onde as coisas realmente acontecem. Machado de Assis, o bruxo do Cosme Velho, que passou a vida rindo com seriedade das instituições brasileiras, reconheceria na cena um de seus personagens: aquele que fala de coisas grandes com ideias pequenas. Há no Brasil uma tradição secular de transformar tragédia em farsa, e o candidato a reatualiza com a diligência de quem ensaia. O problema é que a plateia já não ri. A plateia tem sede, tem fogo, tem vento que arranca telhados.
Porque é preciso dizê-lo, para não sermos injustos com a verdade: o tratamento de esgoto não é ignorância. É o contrário. É dívida histórica, é saúde pública, é dignidade. Monteiro Lobato, que começou culpando o caipira pela própria miséria, aprendeu no caminho a lição que o senador ainda não aprendeu: o Jeca Tatu não era preguiçoso, era doente — vítima do amarelão, do abandono, da falta de saneamento. Lobato virou cruzado da higiene e do esgoto rural, e fez mais pelo Brasil com essa cruzada do que muitos discursos sobre o futuro. Se o candidato quisesse, de fato, honrar a pauta, teria dito: o saneamento é uma ferida aberta no corpo do país, e tratá-la é obrigação inegociável. Isso seria verdade. Mas ele não disse isso. Ele apresentou o esgoto como a resposta à crise ambiental, e aí cometeu um duplo crime: esvaziou a urgência do saneamento, transformando uma tragédia nacional em troféu de palanque, e fingiu que uma rede de canos equivale a um acordo internacional de clima, a uma transição energética, a uma floresta em pé.
A crise ambiental não é um problema de infraestrutura; é um problema de civilização. Ela atravessa a economia, a geopolítica, a ciência, a ética. Depende de descarbonização, de energia limpa, de combate ao desmatamento, de acordos que o Brasil assina e descumpre. Reduzi-la ao esgoto é como combater uma pandemia distribuindo band-aids: não é falso, é fútil — e a futilidade, em política, é pior que a mentira, porque não ofende o ouvinte, ofende a realidade. Euclides da Cunha, que atravessou o sertão para entender o Brasil, escreveu que o sertanejo é, antes de tudo, um forte. O que Euclides não podia prever é que o Brasil de hoje fabricaria novos retirantes — não fugindo das secas que ele descreveu, mas de secas novas, mais frequentes, mais violentas, mais cruéis, porque a mão humana acelerou o que a natureza já fazia devagar. Graciliano Ramos entendeu isso como ninguém: Fabiano, em Vidas Secas, não tem nome de herói, tem nome de vítima — e os herdeiros de Fabiano continuam andando, cada vez mais cedo, cada vez mais longe, atrás de água que o clima não manda mais. Quando as enchentes destroem uma cidade inteira e as secas esvaziam outras, não há cano que console a paisagem.
E por isso a injustiça acerta em cheio: os que menos poluem são os que mais sofrem. As periferias, as populações de baixa renda, os povos indígenas — esses pagam a conta de um modelo de consumo que não lhes pertence. O esgoto não tratado é parte dessa conta, sim; quem vive à beira do córrego poluído conhece o cheiro da desigualdade. Mas a desigualdade climática é mais vasta: é o morro que desliza, a maré que invade, o sol que mata o trabalhador da rua. Tratar o esgoto é fazer justiça social; é necessário e urgente. Mas um presidente precisaria enxergar as duas coisas ao mesmo tempo: o cano enterrado e o céu em chamas. É exatamente essa capacidade de segurar duas verdades na mesma mão que define a diferença entre um gestor e um estadista — e que o candidato, até agora, não demonstrou ter.
Talvez o senador seja sincero. Talvez acredite de fato que o saneamento salvará o clima, como quem acredita que remendar o telhado apaga o incêndio. A sinceridade, porém, não é atenuante; é agravante. Porque um erro cometido por ignorância pode ser corrigido com estudo; um erro cometido por convicção revela a estrutura do pensamento. E é sobre o pensamento que votamos quando elegemos um presidente. Drummond, que passou a vida olhando para a pedra no meio do caminho, sabia que há obstáculos que não se contornam com discurso: ou se enfrentam, ou se tropeça neles para sempre. A crise climática é a pedra do nosso tempo. O candidato, em vez de enfrentá-la, propôs cavar um buraco ao lado — e chamou o buraco de solução.
Esta é a minha visão sobre o tema: e aqui eu paro de ter paciência. Porque o que me assusta não são os candidatos — é o país que ainda os levam a sério. A proposta de uma bomba atômica é uma real sintoma de loucura. O esgoto como resposta ao clima não é um erro; é um insulto à inteligência de quem vota, e o pior é que ele sabe. Sabe que a plateia aplaude cano porque cano é concreto, é obra, é foto de inauguração; céu não dá voto, floresta em pé não cabe em palanque. Vivemos a era em que a política encolheu até caber numa selfie, enquanto os problemas cresceram até não caberem mais em lugar nenhum. E quem perde com isso não é o candidato, nunca é: é o sertanejo que anda, é o morador do morro que desliza, é o trabalhador que o sol mata na rua. Então, sim, a minha indignação é legítima — mas ela já não basta. O que falta é vergonha na cara do eleitor que troca o futuro por um cano, e altura de vista num país que confundiu governar com posar para a foto.
Chegamos ao fundo do poço — e talvez valha a pena ficar um instante nele, porque de lá se aprende uma coisa: do poço, só se vê um pedaço de céu. O candidato olhou para cima e viu apenas o esgoto que deixou para trás; o mundo, lá em cima, inteiro e urgente, passou despercebido. Um presidente do Brasil não pode se dar a esse luxo. Precisa enxergar o poço — porque milhões de brasileiros ainda vivem nele, sem água, sem esgoto, sem dignidade — e precisa enxergar o céu, porque o céu é o futuro de todos. Entre a bomba e o cano, o que faltou foi exatamente isso: visão. E visão em política, não é adorno; é a única coisa que não se delega.
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