Moisés Laureano de Santana
Quando a política vira guerra, o Brasil perde
A democracia pressupõe conflito.
Quando a política vira guerra, o Brasil perde
Por Moisés Laureano de Santana
Eleições de 2026 colocam o país diante de uma escolha que vai além dos candidatos: continuar alimentando a lógica do “nós contra eles” ou recuperar a capacidade de discordar sem transformar adversários em inimigos
A democracia pressupõe conflito. Eleições existem justamente porque cidadãos pensam diferente, defendem projetos distintos e fazem escolhas que nem sempre coincidem. O problema começa quando a divergência deixa de ser política e passa a ser tratada como uma guerra moral, na qual o adversário não é alguém que pensa diferente, mas alguém que precisa ser destruído.
É nesse ambiente que o Brasil chega às eleições de 2026.
A disputa presidencial já reproduz uma forte divisão entre os principais campos políticos. Na pesquisa Datafolha divulgada em 21 de agosto, Lula aparece com 39% das intenções de voto no primeiro turno, contra 33% de Flávio Bolsonaro. No eventual segundo turno, o cenário é mais apertado: 47% a 43%. Ao mesmo tempo, os dois carregam índices elevados de rejeição: 45% dizem que não votariam em Lula de jeito nenhum, enquanto 46% rejeitam Flávio.
Os números não significam que o país esteja dividido exatamente ao meio — e essa é uma distinção importante. Uma pesquisa da FESPSP divulgada em junho aponta que 69% dos brasileiros não se enquadram no perfil de polarização afetiva estrita, caracterizado pela adesão intensa a um grupo combinada com forte rejeição ao outro. O dado sugere que existe uma parcela expressiva da sociedade que não cabe confortavelmente nas duas trincheiras que dominam o debate político.
Essa talvez seja uma das histórias mais importantes das eleições de 2026: o Brasil pode estar menos polarizado do que parece — mas muito mais barulhento do que deveria.
1. A política transformada em torcida
Durante muito tempo, votar significava escolher. Hoje, para uma parcela do eleitorado, significa também rejeitar.
Pesquisa Datafolha recente mostra que 30% dos eleitores dizem que pretendem votar em um candidato principalmente para impedir que outro seja eleito. Entre os apoiadores de Flávio Bolsonaro, esse comportamento chega a 35%; entre eleitores de Lula, 23%. Ao mesmo tempo, 61% afirmam escolher seu candidato por considerá-lo o mais preparado ou por concordarem com suas propostas.
A diferença parece sutil, mas é enorme.
Quando alguém vota porque acredita em uma proposta, existe um projeto a ser cobrado. Quando vota apenas para impedir a vitória do adversário, a política corre o risco de se transformar em um plebiscito permanente contra alguém.
O candidato deixa de precisar convencer.
Basta parecer menos assustador que o outro.
É uma lógica perigosa porque reduz a democracia a uma escolha pelo “mal menor”, alimentando ressentimentos e dificultando qualquer tentativa posterior de diálogo.
E o problema não termina no resultado das urnas.
2. O inimigo mora ao lado
A polarização contemporânea não acontece apenas nos palanques. Ela entra nas famílias, nos grupos de mensagens, nos ambientes de trabalho e nas redes sociais.
O vizinho deixa de ser apenas alguém com uma opinião diferente. Vira “petista”, “bolsonarista”, “comunista”, “fascista”, “alienado”, “gado”, “isentão” ou qualquer outro rótulo usado para encerrar uma conversa antes mesmo que ela comece.
É mais fácil atacar uma caricatura do que ouvir uma pessoa.
Uma das conclusões mais interessantes de uma pesquisa realizada em agosto pela More in Common Brasil em parceria com a Ipsos-Ipec é justamente essa. O estudo identificou um chamado “perception gap”, uma distância entre aquilo que os grupos políticos realmente pensam e aquilo que imaginam que o outro lado pensa. Lulistas e bolsonaristas, segundo o levantamento, tendem a enxergar seus adversários como mais radicais do que eles efetivamente são. Foram entrevistadas 2 mil pessoas em 130 municípios.
Isso revela uma ironia poderosa: podemos estar brigando não apenas com pessoas reais, mas com versões imaginárias delas.
A política ganha, assim, uma dimensão quase religiosa. O meu lado tem defeitos, mas são justificáveis. O outro lado tem defeitos porque é essencialmente mau.
Quando isso acontece, qualquer crítica ao próprio grupo é interpretada como traição. E qualquer acerto do adversário é tratado como ameaça.
O debate morre.
A torcida permanece.
Quem ganha com um país permanentemente dividido?
Essa é uma pergunta incômoda, mas necessária.
A polarização pode ser eleitoralmente útil. Um adversário apresentado como uma ameaça existencial mobiliza medo, lealdade e indignação. E medo mobiliza votos.
Nas redes sociais, a lógica é ainda mais evidente. Conteúdos que provocam raiva, medo ou indignação têm enorme capacidade de chamar atenção. A desinformação encontra terreno fértil quando confirma aquilo que as pessoas já acreditam e oferece um inimigo conveniente.
Nas eleições de 2026, o problema se torna ainda mais complexo com o avanço da inteligência artificial. Conteúdos manipulados, imagens falsas, vídeos fora de contexto e vozes artificialmente produzidas podem circular com enorme velocidade. Especialistas e iniciativas de educação midiática têm alertado para o risco de algoritmos amplificarem justamente os conteúdos mais emocionais e polarizadores.
Não é necessário convencer milhões de pessoas de uma mentira.
Às vezes, basta fazer com que milhões deixem de acreditar em qualquer coisa.
Quando todos os lados passam a considerar toda informação inconveniente como “fake news”, a verdade perde valor. E, quando a verdade perde valor, vence quem grita mais alto.
3. A democracia não exige concordância
Superar a polarização não significa acabar com a esquerda, com a direita ou com qualquer outra corrente política.
Também não significa construir um centro artificial, no qual todos precisam pensar da mesma maneira.
Democracia saudável não é ausência de conflito. É conflito com regras.
Uma sociedade democrática precisa de oposição. Precisa de imprensa crítica. Precisa de movimentos sociais, partidos, sindicatos, empresários, organizações civis, instituições independentes e cidadãos dispostos a contestar o poder.
O problema não é discordar.
O problema é considerar ilegítimo o direito do outro de discordar.
É possível defender mais Estado sem ser irresponsável. Defender menos Estado sem ser insensível. Defender mercado e cobrar políticas sociais. Defender responsabilidade fiscal e, ao mesmo tempo, exigir redução das desigualdades.
A política fica mais inteligente quando abandona a obrigação de escolher entre duas caricaturas.
4. O eleitor precisa sair da arquibancada
As eleições de 2026 oferecem uma oportunidade para o eleitor mudar o foco.
Em vez de perguntar apenas “quem é o meu candidato?”, talvez seja necessário perguntar: qual é o projeto?
Em vez de “quem é o inimigo?”, perguntar: qual problema será resolvido?
Em vez de compartilhar “o que destrói o outro lado”, perguntar: isso é verdadeiro?
E, principalmente: o que meu candidato fará quando estiver diante de uma realidade diferente daquela que prometeu durante a campanha?
Esse tipo de cobrança é mais trabalhoso do que apertar o botão de compartilhar.
Mas é infinitamente mais importante.
A democracia não pode funcionar como um campeonato em que metade do país comemora enquanto a outra metade torce pelo fracasso do governo eleito. Quando um presidente erra, o país paga. Quando um governador administra mal, o cidadão paga. Quando o Congresso aprova uma política ruim, a sociedade paga.
O fracasso de um governo não é vitória da oposição.
É prejuízo coletivo.
5. O preço da guerra política
Existe também um custo econômico e social na radicalização permanente.
Um país que passa mais tempo discutindo quem é o culpado do que discutindo como resolver seus problemas perde energia. A insegurança jurídica aumenta. Investimentos podem ser adiados. Reformas importantes ficam contaminadas pelo cálculo eleitoral. Políticas públicas são abandonadas simplesmente porque foram associadas ao adversário.
E assim surge um fenômeno perverso: cada governo tenta desmontar o que o anterior fez para provar que o anterior estava errado.
Enquanto isso, problemas permanecem.
Educação não pode esperar o próximo ciclo eleitoral. Segurança pública não pode ser resolvida por slogans. Saúde não pode depender de ideologia. Infraestrutura não pode obedecer ao humor das redes sociais. O equilíbrio fiscal não pode ser tratado como bandeira de um partido. A proteção ambiental não pode ser propriedade de um espectro político.
O Brasil é maior que qualquer governo.
E precisa ser maior que qualquer candidato.
2026: uma eleição contra o ódio?
Talvez seja exagero esperar que uma eleição resolva a polarização brasileira. Não resolverá.
Mas ela pode mostrar se a sociedade deseja aprofundá-la ou começar a superá-la.
O cenário atual ainda é fortemente marcado pela disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro. O levantamento mais recente do Datafolha mostra uma corrida apertada e alta rejeição aos dois principais nomes, enquanto os demais candidatos permanecem distantes na intenção de voto.
Até a dinâmica dos debates revela a força dessa polarização. O primeiro debate presidencial de 2026, realizado em 23 de agosto, foi marcado pela provável ausência dos dois líderes nas pesquisas, enquanto candidatos como Ronaldo Caiado, Renan Santos, Romeu Zema e Augusto Cury participaram do confronto.
A campanha, portanto, começa sob uma pergunta que vai muito além de quem vencerá.
Será possível disputar o futuro sem transformar o passado em uma guerra interminável?
Essa resposta não depende apenas dos candidatos.
Depende também do eleitor.
6. O adversário não precisa ser inimigo
Há uma maturidade democrática que o Brasil ainda precisa construir: a capacidade de perder uma eleição sem considerar o país derrotado e de vencer sem considerar o adversário eliminado.
O candidato vencedor governará também para quem não votou nele. A oposição continuará fazendo parte da democracia. O eleitor que discordou não perde seu direito de cobrar. E aquele que venceu não recebe um cheque em branco.
Essa é a essência do sistema democrático.
Não se trata de gostar do adversário.
Trata-se de reconhecer sua humanidade, seu direito de existir politicamente e, sobretudo, seu direito de discordar.
É possível ser firme sem ser cruel. É possível combater ideias sem desumanizar pessoas. É possível denunciar corrupção sem transformar milhões de eleitores em cúmplices. É possível criticar um governo sem desejar que o país fracasse.
E talvez seja justamente aí que esteja o verdadeiro patriotismo.
Não em vestir as cores de um partido.
Mas em entender que o Brasil continua sendo nosso depois que termina a eleição.
7. A escolha que realmente importa
Em 2026, o brasileiro terá diante de si candidatos, partidos, propostas, promessas, alianças e campanhas digitais. Terá também uma enorme quantidade de informação — e de desinformação.
Mas haverá uma escolha silenciosa, que não aparecerá na urna eletrônica.
A escolha entre alimentar o ódio ou preservar o diálogo.
Entre compartilhar a mentira que confirma sua opinião ou procurar a verdade que pode contrariá-la.
Entre enxergar o adversário como inimigo ou como alguém que também acredita estar defendendo o melhor para o país.
Entre votar apenas contra alguém ou votar a favor de um projeto.
A democracia brasileira não precisa de cidadãos que concordem com tudo.
Precisa de cidadãos que pensem antes de odiar.
A política pode ser dura. Deve ser cobrada. Deve ser fiscalizada. Governantes precisam ser confrontados quando erram. Instituições precisam ser criticadas quando abusam. Candidatos precisam ser questionados quando prometem o impossível.
Mas há uma fronteira que não deveria ser ultrapassada.
Quando o adversário vira inimigo, qualquer golpe parece justificável. Quando a política vira guerra, qualquer mentira parece aceitável. Quando o outro lado é tratado como uma ameaça existencial, a derrota passa a parecer insuportável.
E um país em que ninguém aceita perder uma eleição corre o risco de perder algo muito maior: a própria democracia.
Por isso, talvez a grande pergunta das eleições de 2026 não seja apenas quem vencerá.
Seja qual for o resultado, Lula, Flávio Bolsonaro ou qualquer outro candidato, o Brasil continuará aqui no dia seguinte.
Com os mesmos desafios, as mesmas desigualdades, as mesmas contas, as mesmas famílias e os mesmos sonhos.
A urna escolherá governantes.
Mas caberá à sociedade decidir se quer continuar vivendo em trincheiras.
Porque, quando a política vira guerra, não há vencedor de verdade.
O Brasil perde.
Moisés Laureano de Santana é advogado, pós-graduado em Direito Público, Tributário e Eleitoral, com ampla e sólida experiência na Administração Pública do Estado do Rio de Janeiro, atuando em diversos cargos de direção e chefia em instituições governamentais




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