Carlo Simi
A BICICLETA ERA DA IRMÃ DELE
A barbárie nunca vai ser solução para a violência.
A BICICLETA ERA DA IRMÃ DELE
Por Carlo Simi
Cláudio Rafael Landeiro tinha 37 anos e, há poucos dias, saiu de casa em Copacabana andando de bicicleta. Uma bicicleta simples, emprestada, sem nenhum mistério: era da irmã dele.
Alguém olhou para Cláudio e decidiu, sozinho, que ele era um ladrão. Não houve tempo para perguntas, nem espaço para dúvidas. Um grupo o cercou e começou a bater. Socos, chutes, pauladas. As imagens mostram isso com uma clareza que dói de assistir. Cláudio foi levado ainda vivo para o Hospital Miguel Couto, mas não resistiu.
Ele morreu por uma suspeita. E a suspeita estava errada.
Poucos dias depois, outras imagens circularam: uma jovem entregadora sendo perseguida e agredida após uma discussão de trânsito. São casos diferentes, com histórias diferentes, e não quero colocá-los na mesma vala. Mas os dois têm uma pergunta em comum, e essa pergunta merece nos incomodar: em que momento passamos a aceitar que uma pessoa pode punir outra com as próprias mãos?
Há alguns anos, uma parte do debate público brasileiro começou a tratar a violência não como um problema a ser resolvido, mas como uma espécie de solução rápida para o medo que sentimos. Aprendemos a repetir frases que transformam seres humanos em rótulos: bandido, vagabundo, marginal. E, depois do rótulo, vem sempre a sentença pronta: "tem que apanhar", "tem que morrer", "bandido bom é bandido morto".
Essas frases escondem uma pergunta incômoda: quem decide quem é o bandido? Em Copacabana, alguém decidiu que era Cláudio. E estava enganado. A bicicleta era da irmã dele.
Foi exatamente para evitar esse tipo de erro que uma sociedade civilizada inventou a polícia, a investigação, o Ministério Público, a defesa e a Justiça. Essas instituições não existem para proteger criminosos. Existem para nos proteger da barbárie, inclusive da barbárie que cada um de nós pode cometer quando confunde certeza com verdade.
O Estado de Direito nasceu justamente disso: da ideia de que ninguém pode ser condenado só porque alguém olhou torto e achou que parecia culpado. Quando uma sociedade aprende que certas pessoas merecem apanhar ou morrer antes mesmo de qualquer julgamento, ela abre uma porta muito perigosa. Hoje alguém acredita estar batendo em um ladrão. Amanhã descobre que matou um inocente. E depois? Quem devolve Cláudio para a mãe e para as irmãs dele?
Isso é o que mais me preocupa: ver a violência virar discurso político, quase uma bandeira. Podemos, e devemos, cobrar segurança pública de verdade. Podemos exigir polícia bem treinada, investigação eficiente, prisão de criminosos e cumprimento das penas. Mas existe uma linha que uma democracia nunca deveria cruzar: a violência não pode virar política pública, nem espetáculo, nem valor moral.
Porque a violência, quando repetida como discurso, vai entrando devagar na sociedade. O medo se transforma em raiva. A raiva procura um inimigo. A suspeita vira certeza. E, aos poucos, algumas pessoas passam a acreditar que têm autorização moral para fazer justiça com as próprias mãos. Foi exatamente para impedir isso que construímos leis e instituições ao longo de séculos.
Combater o crime não é abrir mão da civilização. É o contrário disso: é fazer a lei funcionar de verdade, para todos.
Eu quero um Estado forte contra o crime. Quero criminosos investigados, presos, julgados e responsabilizados. Mas não quero uma sociedade de justiceiros, porque quando cada cidadão vira ao mesmo tempo policial, juiz e executor, não existe mais Justiça. Existe vingança.
Cláudio Rafael Landeiro morreu porque algumas pessoas acharam que tinham o direito de puni-lo por um crime que ele não cometeu.
A bicicleta era da irmã dele.
Talvez essa frase precise ser repetida até doer, porque ela mostra, da forma mais dura possível, por que nenhum de nós deveria aceitar viver numa sociedade em que primeiro se bate, depois se mata, e só depois se pergunta se a pessoa era mesmo culpada.
Segurança é dever do Estado. Julgamento é tarefa da Justiça. Linchamento é crime. E barbárie nunca vai ser solução para a violência.
Carlo Simi é Matemático, Professor, Servidor Público, Sócio Proprietário e Torcedor do Fluminense, Frequentador dos jogos e do clube desde a década de 50, Ex-Conselheiro, Membro do Grupo Por Amor ao Tricolor e Membro da Embaixada Tricolores da Zona Sul.




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