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Barra Mansa,30/08/2026

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    Carmem Teresa Elias

    Entre realidades e ficções:

    A poesia do não-lugar


    Entre realidades e ficções:

    Entre realidades e ficções: a poesia do não-lugar 

    Por Carmem Teresa Elias 

    Quando vim, se é que vim

    de algum para outro lugar,

    o mundo girava, alheio

    à minha baça pessoa,

    e no seu giro entrevi

    que não se vai nem se volta

    de sítio algum a nenhum.

    ( Carlos Drummond de Andrade) 

    Um poema pode abrandar, ou tornar mais perceptível, a angústia e a dor humanas.  Os últimos dias têm nos ilustrado, mais uma vez, o não lugar de existência. As imagens das torrentes de marroquinos que avançam rumo à Espanha fazem me relembrar os enxames de abelhas, as nuvens de gafanhoto, os tufões devastadores,  o desespero e a fome. Fome de pertencimento. Fome de dignidade. Fome de sobrevivência! 

    São inúmeros os fatores a serem observados. Em primeiro lugar, Ceuta não é Europa! Os 43 mil marroquinos não atravessaram o Mediterrâneo a nado até a Europa!  Em realidade Ceuta é uma região no norte da África, (repito na África), cuja posse até os dias atuais está nas mãos da Espanha. O território, geograficamente falando, situa-se na mesma extensão de terra do Marrocos. Aqui acendo uma pergunta: trata-se de imigração ilegal? Trata-se de uma tentativa de retomar a cidade ao Marrocos? A Espanha tem mesmo direito à soberania sobre uma faixa de terra em território africano? 

    As notícias alardeiam uma invasão à Europa! Mas não se trata disso! Por uma pequena faixa de terra que separa seu país de uma suposta Europa africana, milhares  de pessoas fogem da pobreza e da falta de futuro no lado marroquino, enquanto sonham com uma terra de Oz, com uma Cidade Esmeralda, com um País das Maravilhas. Com desemprego  alto e falta de oportunidades, que jovens não buscariam uma outra terra dentro de sua própria terra? Migram de África para África, não mais do que isso. 

    A segunda questão à qual me  lanço em imaginação, envolve as razões para tamanha avalanche humana. O que motivou esse movimento tão unificado? A Primavera Árabe retorna à minha memória: um levante, mobilizado pelas redes sociais em 2010, devidamente patrocinado pelo Império americano,  com o intuito de provocar e desestabilizar governos considerados  autoritários pelo Norte da África e Oriente Médio. Os jovens da época não tinham noção de que ao depor seus ditadores, cairíam nas mãos de piores. Síria e Iêmen são apenas dois exemplos da situação deplorável que restou dos levantes primaveris.  

    Hoje, a Espanha e os Estados Unidos estão em situação de desagravo. O primeiro ministro espanhol não teme opor-se ao presidente americano, defende a justa causa Palestina, demonstra força e convicção diante de uma Europa enfraquecida e temerosa. Causar uma crise à Espanha seria proveitoso a quem mesmo? 

    Que forças estão movimentando os marroquinos, visto por esse outro ângulo? 

    É, Passargada não existe! É, Terra do Nunca e pó de pilimpimpjm também não. 

    Há algo de podre nos reinos do século XXI. 

    Vejo cenas que descrevi em meu romance “ O Julgamento das Mães: Maternidade e Terror” ( editora Scortecci), no qual uma menina mãe atravessa de fato um Mediterrâneo em fúria para tentar salvar desesperadamente seu bebê recém-nascido das mãos de grupos terroristas. Minha personagem chama-se Sarai, versão antiga de Sara, uma mulher que parte em busca de um novo povo e de uma nova terra onde possa ter o simples direito de viver. Em meu livro, o capítulo XX assim termina: 

    “O mar assombra pela ausência de pátria que é, pelo além do além que simula o sem-fim, pela verdade escorregadia de forças que pulsam fora do corpo e da alma, para as voltas que nem as rosas comportam nas reviravoltas das vidas, pela delicadeza das espumas que atacam, pela ternura oposta aos anjos, pelo brusco suspense entre a ida e o retorno das ondas, pelo colo perdido da dor, por toda a vivência que remói sem distinguir princípio, fim ou o nada.”

    Entre a realidade que observo e analiso e a ficção que escrevo e clamo, que não haja apenas silêncio. Que haja alguma consciência civilizatória. 

    O Julgamento das Mães: maternidade e terror 

    Autora : Carmem Teresa Elias 

    Romance 

    Disponível na livraria Scortecci pelo link: 

    https://www.scortecci.com.br/formulario.php?id=928



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