Arthur Vinciprova
A ARTE EM MODO ACELERADO
Algumas emoções precisam de tempo para chegar.
A ARTE EM MODO ACELERADO
Por Arthur Vinciprova
Tenho um medo bastante específico: o de que, em breve, assistir a um filme inteiro sem olhar o celular seja considerado uma modalidade olímpica.
Não é raro ver alguém diante de uma série, de um filme ou até de uma peça de teatro conferindo o aparelho a cada cinco minutos. Não necessariamente porque a obra seja ruim. É que fomos nos acostumando a receber estímulos tão rápidos, curtos e sucessivos que qualquer coisa que exija espera passou a parecer lenta demais.
O silêncio incomoda. Uma cena contemplativa parece longa. Um personagem que demora a revelar suas intenções desperta impaciência. Queremos que tudo seja explicado, mastigado e, de preferência, acompanhado de uma legenda enorme dizendo exatamente o que devemos sentir.
E isso já começa a afetar a maneira como filmes e séries são feitos. Roteiros repetem informações. Personagens explicam o que acabamos de ver. Conflitos precisam surgir imediatamente. A cada poucos minutos, alguma coisa deve explodir — ainda que seja apenas a trilha sonora.
Não estou defendendo obras lentas, herméticas ou incompreensíveis como se dificuldade fosse sinônimo de qualidade. Também adoro uma boa narrativa popular. O problema é quando a arte deixa de confiar na inteligência e na sensibilidade do público porque teme perder sua atenção para uma notificação.
A pergunta que me preocupa é: até onde vamos adaptar a arte à ansiedade do nosso tempo? Será que os filmes precisarão se comportar como vídeos de quinze segundos? Será que toda história terá de começar gritando para impedir que alguém deslize o dedo para a próxima?
Talvez o maior gesto de resistência artística do futuro seja simplesmente este: pedir ao público que permaneça. Que observe. Que escute. Que suporte alguns segundos sem saber exatamente o que está acontecendo.
Porque certas histórias não podem ser aceleradas. Algumas emoções precisam de tempo para chegar.




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