Arthur Vinciprova
Afinal, o que é um filme ruim?
Curiosamente, alguns dos acusados eram enormes sucessos comerciais, vistos por milhões de pessoas.
Afinal, o que é um filme ruim?
Por Arthur Vinciprova
Esses dias eu estava numa roda de amigos falando sobre cinema — o que, dependendo da roda de amigos, pode ser mais perigoso do que discutir política, futebol e signo ao mesmo tempo.
De repente começaram os veredictos:
“Esse filme é péssimo.”
“Vergonha alheia.”
“Não consegui assistir.”
“Como alguém aprovou isso?”
Curiosamente, alguns dos acusados eram enormes sucessos comerciais, vistos por milhões de pessoas.
E aí fiquei pensando: o que exatamente faz um filme ser ruim?
Porque “eu não gostei” e “é ruim” são duas frases completamente diferentes. A primeira é indiscutível. Você não gostou. Pronto. A segunda já vem acompanhada de uma espécie de toga imaginária, como se estivéssemos diante do Supremo Tribunal Federal do Audiovisual.
Condenado. Sem direito a recurso.
Mas ruim comparado a quê?
À proposta do próprio filme? A outro filme do mesmo gênero? Ao gosto pessoal de quem assistiu? Ou à expectativa que foi criada antes da sessão?
Porque também não adianta entrar numa comédia popular de sábado à noite esperando encontrar o vencedor da Palma de Ouro em Cannes. É como pedir um cachorro-quente e reclamar que faltou redução de vinho do Porto.
Talvez o cachorro-quente esteja fazendo exatamente o que se propôs a fazer: ser um ótimo cachorro-quente.
Existe, claro, uma análise técnica possível. Roteiro, montagem, direção, fotografia, interpretação, ritmo, construção dos personagens. Um filme pode ter problemas concretos em várias dessas áreas.
Mas mesmo aí existe uma pergunta interessante: quanto desses problemas realmente incomodaram quem assistiu e quanto foi uma justificativa encontrada depois para explicar uma sensação?
Às vezes a pessoa simplesmente não entrou no filme.
E tudo bem.
O problema começa quando transformamos gosto em ciência exata.
Também existe um personagem muito comum nessas conversas: o famoso “eu faria melhor”.
Ele é ótimo.
Nunca dirigiu um filme, nunca enfrentou uma diária de gravação de 14 horas, nunca precisou cortar uma cena porque começou a chover, o ator perdeu a voz, a locação caiu, o orçamento acabou ou o sol resolveu nascer no lugar errado.
Mas faria melhor.
Com certeza.
O cinema, como toda arte, parece muito simples depois que está pronto.
E talvez exista ainda outro elemento nessa equação: a expectativa. Um filme anunciado durante dois anos como “a obra-prima definitiva de uma geração” entra na sala já devendo dinheiro ao espectador.
Quando termina sendo apenas bom, parece ruim.
Enquanto outro, que você encontrou por acaso numa madrugada de terça-feira, sem nenhuma expectativa, pode parecer extraordinário.
O filme é o mesmo. Quem chegou diferente foi você.
Talvez, antes de decretarmos que alguma coisa é “uma porcaria”, valha tentar uma pergunta um pouco mais interessante:
Por que isso não funcionou para mim?
Foi o roteiro? Os atores? O ritmo? A linguagem? Ou simplesmente aquele filme não estava conversando comigo?
Porque nem toda obra precisa falar com todo mundo.
E talvez maturidade artística seja justamente perceber que existe uma diferença enorme entre dizer:
“Isso é ruim.” e dizer: “Isso não é para mim.”
A segunda frase dá muito menos ibope numa roda de amigos.
Mas provavelmente rende uma conversa bem melhor.




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