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Barra Mansa,30/08/2026

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    José Carlos Alcântara

    Origem da Identidade Buziana

    A identidade "buziana" nasceu do tripé étnico – indígena, português e africano


    Origem da Identidade Buziana Origem da Identidade Buziana

    Origem da Identidade Buziana

    Por José Carlos Alcântara

    A formação étnica da população “buziana”remonta aos meados do século XX, quando Búzios ainda era uma pequena vila isolada que se dedicava quase exclusivamente à pesca e à uma agricultura em pequena escala. 

    A identidade "buziana" nasceu do tripé étnico – indígena, português e africano – amalgamado pelo seu modo de vida profundamente vinculado ao mar, à pesca e às relações comunitárias.

    Descoberta de turistas e a chegada dos estrangeiros

    O ponto de inflexão foi a visita da atriz francesa Brigitte Bardot em 1964, que fugia dos holofotes no Rio de Janeiro e projetou a vila internacionalmente, inaugurando um ciclo de migração de europeus – inicialmente franceses, italianos e portugueses – que buscavam um estilo de vida alternativo, em contato com a natureza e distante dos grandes centros urbanos. 

    Ao chegar aqui, esses primeiros estrangeiros adquiriram terrenos, abriram pequenas pousadas e restaurantes, com introdução de hábitos e conceitos estéticos, que passaram a conviver com a cultura praiana local.

    A partir dos anos de 1980 e na década de 1990, houve uma forte corrente migratória de argentinos. Eles chegaram como turistas e se encantaram pelo clima tropical e a beleza das praias, decidindo fixar residência e investir em gastronomia, hotelaria e entretenimento. Estima-se que cerca de 10% dos atuais moradores fixos de Búzios sejam argentinos ou seus descendentes, formando uma das maiores comunidades do gênero no país, fora das capitais. 

    Juntaram-se à eles, muitos europeus das mais diversas nacionalidades, que continuaram a chegar após a crise financeira de 2008 em seus países de origem, enxergando na cidade uma boa oportunidade de empreender e viver com mais qualidade de vida.

    Dinâmicas de Integração: Cosmopolismo e Desigualdade 

    A integração desses grupos à população local não é um fenômeno homogêneo, ela oscila entre a hibridização cultural enriquecedora e a segregação socioespacial.

    Essa integração cultural e econômica, fez com que Búzios se tornasse num laboratório de encontros. E a culinária local, antes limitada ao peixe fresco, arroz, feijão e à farinha de mandioca, incorporou as massas artesanais, os frutos do mar ao molho de ervas, as empanadas, alfajores e o hábito do mate nas praias – o símbolo máximo da presença argentina. 

    O calendário de eventos e as festas refletem esse sincretismo, na convivência das tradicionais festas de santos católicos e os eventos da comunidade nativa, com os shows de música popular e artistas de todo o Brasil.

    É muito comum ouvir o espanhol mesclado ao português nas ruas e perceber, como buzianos nativos foram desenvolvendo a fluência de falar o idioma como ferramenta de trabalho. Economicamente, a presença estrangeira foi um motor econômico de desenvolvimento que gerou empregos, qualificou serviços e diversificou a oferta de diversos produtos turísticos. 

    Muitos desses empreendedores argentinos e europeus casaram-se com buzianos, formando famílias binacionais que operam negócios híbridos, combinando um criativo conhecimento do mercado internacional, com o sabor da cultura local. Essa simbiose é, em grande medida, o que se tornou a imagem pública do cosmopolitismo buziano que é vendida ao turista.

    Tensões e Exclusões 

    No entanto, a integração também revela uma face de desigualdade. A valorização desenfreada dos imóveis, impulsionada pela grande especulação imobiliária, expulsou as famílias tradicionais de áreas nobres – como a Península e o Centro – para bairros periféricos, como a Rasa. Esse deslocamento rompeu laços de vizinhança e, em muitos casos, afastou os pescadores do acesso ao mar. 

    O capital investido pelos estrangeiros, muitas vezes de origem não declarada, consolidou uma rede de serviços e comércios de alto padrão, que coexiste com uma população local com empregos precários, especialmente fora do período de alta temporada.

    Mas, também ocorreu uma segregação social. Apesar dos casamentos mistos, há comunidades de fora da península permanecendo à margem do circuito principal do turismo, com um acesso limitado às benesses geradas por essa atividade econômica. 

    A integração é, para muitos, caracterizada por uma forma subordinada: a mão de obra local ocupa os estratos inferiores da cadeia de serviços, enquanto a gestão e a propriedade dos empreendimentos ficam frequentemente com os imigrantes ou seus descendentes, que dispõem do capital financeiro e melhor formação educacional.

    Identidade em Transformação

    A resposta à pergunta "Quem é o buziano?" tornou-se complexa. Há o discurso de nativos que por diversas vezes, estigmatiza os "de fora", especialmente os argentinos, associando-os ao aumento de preços, à concorrência desleal e a certa arrogância cultural. 

    Em contrapartida, muitos imigrantes de longa data, se consideram tão buzianos quanto os nascidos na terra, alegando que seu trabalho e sua paixão contribuíram para erguer a cidade. Uma tensão que emerge nos debates sobre políticas de urbanização, tributação municipal e preservação ambiental – essa última um campo de disputa entre uma cultura de pescadores, com empreendimentos imobiliários que avançam sobre restingas e os costões.

    A formação étnica de Búzios, não pode ser contada sem incorporar as sucessivas ondas migratórias que, longe de representarem uma ruptura, adicionaram novas camadas a uma identidade étnica que já era mestiça. 

    A integração de argentinos e europeus, embora tenha produzido esse atual ambiente cultural vibrante e economicamente dinâmico, ocorre em meio a contradições que são típicas dos enclaves turísticos globalizados: ao mesmo tempo em que celebram a diversidade, reproduzem as desigualdades estruturais que desafiam a coesão social. 

    O futuro dessa integração, dependerá da capacidade das políticas públicas e da sociedade civil conseguir promover um desenvolvimento turístico mais inclusivo, que possa valorizar raízes buzianas e afro-brasileiras. Um cosmopolitismo que não signifique também, um apagamento da memória local e sua busca pela reafirmação de seu diálogo com o mundo.

    José Carlos Alcântara foi Secretário Geral - AGEBRÁS Associação Brasileira de Agentes de Exportação, Rio de Janeiro; Consultor Técnico - FUNCEX Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior, Rio de Janeiro; Diretor de Marketing - BRASIL EXPORT New York, Dallas, Atlanta, Miami, Los Angeles e Chicago; Diretor Superintendente - ABC TRADING Comércio Exterior, Rio de Janeiro; Vice-President - The First National Bank of New York (SAFRA, NY-USA); Assessor Internacional da Presidência - ACRJ Associação Comercial do Rio de Janeiro; Redator de editoriais e artigos no Jornal Primeira Hora, Armação dos Búzios. 




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