MK - Marcelo Kieling
O Chifre que a Manada Não Vê
“ Respeito muito minhas lágrimas, mas ainda mais minha risada...”
O Chifre que a Manada Não Vê
“ Respeito muito minhas lágrimas, mas ainda mais minha risada...”
Por Marcelo Kieling
Caetano escreveu isso como um manifesto de liberdade — a lágrima que se respeita, a risada que se celebra, a vaca profana que põe os cornos pra fora e acima da manada. É um hino à transgressão, ao direito de ser estranho, de ocupar o espaço sem pedir licença. Cartolouco, com seu microfone de brinquedo e suas caretas para a câmera, sempre pareceu encarnar esse espírito. O repórter que não se levava a sério, que entrevistava jogadores fantasiado, que transformava a beira do gramado num picadeiro. Um personagem que a manada — o jornalismo sisudo, engravatado, de discurso pasteurizado — nunca soube classificar.
Mas eis o problema: a vaca profana de Caetano é uma figura de potência e liberdade. Seus cornos apontam para cima, desafiando a manada. O que fazer quando os cornos apontam para baixo? Quando a transgressão deixa de ser estética e vira violência?
O influenciador voltou aos holofotes após ser denunciado por agressão física e violência psicológica contra uma ex-namorada. O caso, revelado também trouxe relatos de outras duas ex-companheiras, que afirmam ter sofrido episódios semelhantes durante os relacionamentos. Três mulheres. Três histórias. Um padrão.
E é aí que a vaca profana emudece.
Porque Caetano escreveu sobre a mulher sagrada, sobre o leite bom e o leite mau, sobre os cornos acima da manada. Mas o que fazer quando o homem que se veste de transgressor repete o roteiro mais velho do mundo? O que fazer quando o "espalhafatoso" que Caetano descreve — "sou tímido e espalhafatoso" — se revela, na vida real, como o agressor que bate e depois chora?
Cartolouco construiu uma carreira inteira sobre a persona do "diferente". O repórter que não seguia o script, que invadia o campo pelo avesso, que fazia perguntas que ninguém mais fazia. A manada do jornalismo esportivo — sisuda, repetitiva, engravatada — era o alvo. Ele era a vaca profana, com os cornos pra fora, rindo dos caretas.
Só que a transgressão tem limites que a persona pública não controla. E o que se vê, agora, é o avesso do personagem. Três mulheres. Três relatos. Agressão física. Violência psicológica. Um padrão que se repete como um refrão sujo, desses que a gente tenta não cantarolar mas insiste em voltar.
Caetano escreveu: "Respeito muito minhas lágrimas, mas ainda mais minha risada." É uma declaração de liberdade, de escolha consciente pela alegria. Mas o riso de Cartolouco — o riso do palhaço, do entrevistador que fazia graça — era uma máscara. E por trás da máscara, o que havia? O que sobra quando o microfone desliga, quando a câmera apaga, quando a plateia vai embora?
O que sobra é o relato de mulheres que amaram e foram agredidas. Que confiaram e foram humilhadas. Que acreditaram no personagem e descobriram o homem.
"Mas eu também sei ser careta / De perto, ninguém é normal." Caetano sabia. Sabia que a linha entre o transgressor e o agressor é mais fina do que a gente gosta de admitir. Que o mesmo homem que faz rir pode fazer chorar. Que a mesma boca que solta piadas pode cuspir insultos. Que as mesmas mãos que gesticulam para a câmera podem se fechar em punho.
E é aí que a crônica se quebra. Porque não há leite bom que lave a cara de quem bateu. Não há risada que apague o choro de três mulheres. Não há personagem que justifique o padrão.
O problema não é a irreverência. O problema não é o estilo. O problema é quando a transgressão vira desculpa. Quando o "sou tímido e espalhafatoso" vira licença para ser cruel. Quando a persona pública serve de escudo para a violência privada.
Caetano, no fim, reconhece: "Mas eu também sei ser careta / De perto, ninguém é normal." É a grande virada da canção. A vaca profana, que se coloca acima da manada, admite que também é careta de perto. Que a linha entre o transgressor e o convencional é tênue, que todos carregamos os dois lados.
Cartolouco, de perto, não era o personagem. Era o homem que, segundo os relatos, agredia, humilhava, controlava. O mesmo que fazia a plateia rir nos estádios fazia mulheres chorar em casa. O mesmo que entrevistava ídolos do futebol se tornou o algoz de quem confiava nele.
E aí a pergunta que a crônica não pode evitar: quantos Cartoloucos existem por aí? Quantos homens que usam o carisma, o talento, a posição pública como escudo? Quantos que confundem transgressão com permissão, que acham que os cornos acima da manada os autorizam a ferir?
"De perto, ninguém é normal." Caetano entrega a chave no verso final. A vaca profana, que se coloca acima, também é careta de perto. O transgressor também é convencional. O diferente também é igual. A linha entre o artista e o agressor não está no palco — está na porta de casa, na relação que ninguém vê, no silêncio que se mantém por medo, vergonha ou amor.
Três mulheres. Três histórias. Três vezes o mesmo padrão. Não é acidente. Não é "ex-namorada mal resolvida". É um roteiro conhecido, repetido, denunciado. E a pergunta que fica não é sobre Cartolouco — é sobre todos os homens que usam o palco como escudo, que confundem notoriedade com impunidade, que acham que o riso do público os absolve do choro que provocam em casa.
A vaca profana põe os cornos pra fora. Mas cornos também são armas. E quando apontados para quem ama, não há leite bom que lave. Não há risada que apague. Não há personagem que justifique.
O que fica é o silêncio das mulheres que falaram. E a pergunta que a sociedade insiste em não responder: quantos Cartoloucos ainda estão nos estádios, nos palcos, nas telas, enquanto em casa o leite bom virou veneno?
Ferramentas de IA foram utilizadas na elaboração deste conteúdo. Todo o conteúdo foi revisado por humanos.





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