MK - Marcelo Kieling
Amarelo de vergonha
Que a camisa amarela volte a ser, de uma vez por todas, a camisa da seleção brasileira — e não o amarelo da covardia.
Amarelo de vergonha
Por Marcelo Kieling
O time da camisa amarela entrou em campo como quem entra numa sala de espera de consultório médico. Sem pressa. Sem pressão. Sem pulsação. Do outro lado, a Argentina — mesmo numa noite apagada, mesmo tropeçando na própria criação — venceu a Suíça com uma virtude que o futebol brasileiro parece ter extraviado nos corredores das confederações: vontade.
Não foi um jogo bonito. A Argentina não encantou ninguém. Mas lutou cada centímetro do gramado como se o campo fosse uma trincheira. Jogadores e torcida fundidos num só organismo, respirando juntos, errando juntos, insistindo juntos. Técnico e time, um só corpo. Não havia genialidade — havia sangue nas veias. E isso bastou.
Enquanto isso, no outro lado do continente, a camisa amarela desfilava sua apatia. Um time sem intensidade, sem reação, sem um pingo daquela irritação sagrada que faz um jogador correr o dobro nos últimos dez minutos. E à beira do campo, o treinador mascava seu chiclete como quem masca o tempo. Nenhum grito. Nenhum gesto. Nenhum lampejo de liderança. Apenas a mastigação metódica de quem já aceitou o resultado antes do apito final.
Este time nunca foi a seleção brasileira. A seleção brasileira era aquela que entrava em campo com a arrogância legítima de quem sabia que era melhor. Não a arrogância vazia de quem acha que a história passada garante o presente. A seleção que eu vi crescer — a de 70, 82, 94, 2002 — tinha técnica, sim, mas tinha principalmente personalidade. Perdia? Perdia. Mas nunca sem luta. Nunca sem deixar a impressão de que o adversário havia suado cada gota para vencer.
O que vimos na Copa de 2026 foi o oposto. Foi um time que entrou em campo já derrotado, não no placar, mas na alma. E aí cabe perguntar: o que aconteceu com o futebol brasileiro para chegar a esse ponto de anemia espiritual?
Talvez a resposta esteja fora das quatro linhas. Talvez o patrocínio da cervejaria e o dinheiro fácil das bets tenham pesado mais na balança do que a honra de vestir o manto. Talvez o amarelo da camisa não fosse a cor da tradição, mas o amarelo do medo — daqueles que amarelam na hora decisiva. Amarelaram de forma lastimável. Amarelaram como quem entrega o jogo antes do fim.
E é aqui que a música de Marisa Monte, Jorge Mario e Flor Jorge entra como um sopro de teimosia:
"Quando você pensa Que tá tudo errado e negativo E que ainda vai piorar, piorar Pra todo mundo a vida é difícil Mas todos fazem seu sacrifício Pra melhorar, melhorar"
Pra melhorar. Essa é a chave. Não para voltar a ser o que foi — porque o tempo não volta — mas para reaprender a ser. O futebol brasileiro precisa de uma cirurgia na alma, não apenas tática. Precisa redescobrir que a camisa pesa, mas é para levantar, não para curvar as costas. Precisa de dirigentes que amem o jogo mais do que o balancete. Precisa de um técnico que não mastigue passividade, mas que morda a ousadia.
A Argentina nos mostrou que não é preciso ser brilhante o tempo todo. Basta não desistir. Basta acreditar até o último minuto. Basta suar a camisa como se não houvesse amanhã — porque no futebol, não há.
"Lá vem o sol Para derreter as nuvens negras Para iluminar o fim do túnel"
O sol vai vir. Mas não por acaso. Vai vir se houver trabalho, se houver vergonha na cara, se houver um projeto que coloque o futebol acima do dinheiro. Vai vir se a CBF entender que não se constrói uma seleção com marketing e contratos de patrocínio — constrói-se com identidade.
Até lá, restam as crônicas amargas de quem viu o time amarelar. E a esperança teimosa de quem, como Marisa, insiste em cantar:
"Pra fazer você encher o peito e cantar."
Que o canto volte. Que o futebol brasileiro volte a encher o peito. E que a camisa amarela volte a ser, de uma vez por todas, a camisa da seleção brasileira — e não o amarelo da covardia.
Ferramentas de IA foram utilizadas na elaboração deste conteúdo. Todo o conteúdo foi revisado por humanos.




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