MK - Marcelo Kieling
O silêncio que não cessa
Mas a esperança — essa teimosa — se recusa a morrer.
O silêncio que não cessa
Por Marcelo Kieling
Há um silêncio peculiar que ecoa pelos corredores atapetados do poder. Não é o silêncio da paz, mas o do desconforto, aquele que precede o golpe, a exclusão, o apagar de uma voz que insiste em existir. Quando observamos a resistência histórica — e por vezes a fria indiferença — dos homens em relação à participação feminina na política, não estamos diante de mero desinteresse. Estamos testemunhando o medo da partilha. E o medo, quando disfarçado de indiferença, é talvez a forma mais perversa de violência silenciosa.
Já vi esse rosto. Já vi esse gesto, disfarçado de cortesia, que desvia o olhar quando uma mulher ocupa a tribuna. Já vi a mesa de reuniões onde o assunto sério começa depois que a única voz feminina termina de falar. A indiferença masculina, muitas vezes vestida de discursos sobre "meritocracia" ou "pautas mais urgentes", não passa de um escudo polido pelo uso de séculos. O homem construiu a política à sua imagem: um clube de ternos escuros, um terreiro de cotovelos afiados onde o poder circula entre iguais que se reconhecem pelo timbre grave da voz e pela mesma cartilha de silêncios cúmplices.
A presença de uma mulher nesse espaço não é apenas uma novidade estética. É uma ruptura estrutural. Ela desafia a ordem que nos foi contada como natural — aquela em que o homem decide, administra, governa, enquanto a mulher aplaude, cuida, espera. Durante séculos, preferimos a mulher como musa inspiradora dos versos de poetas tristes, mãe dos que viriam a governar, espectadora silenciosa dos debates que decidiriam seu próprio destino. Mas raramente, quase nunca, a aceitamos como protagonista das decisões que regem o país.
Os números não nos deixam mentir. A realidade recente escancara essa trincheira cavada a metro de desprezo. A última Pesquisa Legislativa Brasileira, de 2025, é um espelho de nossas contradições. Por um lado, há alento: o apoio geral às políticas de paridade de gênero no Congresso subiu de 51% em 2017 para 63%. A sociedade começa a entender, a duras penas, que uma democracia sem mulheres é uma democracia pela metade — um corpo que se move com uma perna só.
Mas há um bolsão de resistência que caminha na contramão da história. Entre os homens de direita, esse mesmo apoio desidratou, caindo para alarmantes 35% — o menor nível de toda a série histórica.
Por que esse recuo? A resposta está na espinha dorsal de um pensamento reacionário e conservador que frequentemente confunde a preservação de valores com a manutenção de privilégios. Para essa parcela, a ascensão feminina não é lida como avanço civilizatório, mas como ameaça à autoridade patriarcal que sustenta seus alicerces. A indiferença vira repulsa, gera ódio, porque dividir o poder significa, inevitavelmente, abrir mão do monopólio da narrativa. E quando se perde o monopólio da narrativa, perde-se também o controle sobre o que é lembrado, sobre o que é celebrado, sobre o que é justo.
Mas a esperança — essa teimosa — se recusa a morrer. Ela se veste de resistência e ocupa as brechas. A mulher brasileira, que há tanto tempo sustenta a base da pirâmide social com as mãos calejadas de cuidar, aprendeu que não pode mais esperar o convite para sentar-se à mesa. Ela precisa puxar a própria cadeira. E quando puxa, o som do metal contra o chão ecoa como um trovão que não pode mais ser ignorado.
É aqui que a crônica encontra a poesia, e a poesia se faz grito de guerra.
A dualidade da força feminina — capaz de acolher com ternura e de lutar com ferocidade quando seus direitos são ameaçados — encontra eco perfeito na genialidade atemporal de Marcos e Paulo Sérgio Valle. A mão que embala o berço é a mesma que empunha a caneta da lei. A voz que nina a criança é a mesma que discursa na tribuna e exige, com a firmeza de quem já esperou demais, igualdade real.
"A mão que toca um violão / Se for preciso faz a guerra / Mata o mundo, fere a terra."
Não se enganem os que confundem doçura com submissão. A mulher que acolhe é a mesma que enfrenta. Quando a paz lhes é negada, quando a representatividade lhes é roubada, a doçura se arma de coragem. A mesma mão que toca o violão da cantiga de ninar é a mão que escreve projetos de lei, que assina decretos, que corta o nó cego da burocracia feita para excluir.
"Viola em noite enluarada / No sertão é como espada / Esperança de vingança."
A imagem é muito forte, deliberadamente forte. Porque a esperança, quando negada por tanto tempo, ganha o gosto amargo da justiça que tarda. A vingança de que fala a canção não é a vingança mesquinha de quem quer revidar. É a vingança poética de quem ocupa o lugar que sempre foi seu por direito e que a história insiste em negar. É a viola que corta como espada o silêncio imposto.
"O mesmo pé que dança um samba / Se preciso vai à luta / Capoeira."
A ginga brasileira, essa arte de dançar enquanto se luta, de lutar enquanto se dança — é a metáfora perfeita para a mulher na política brasileira. Ela precisa saber o passo firme das leis e dos regimentos, mas também a leveza de quem constrói pontes, de quem negocia, de quem não desiste. A capoeira não é só luta: é resistência que se disfarça de dança, é corpo que se recusa a cair.
"Quem tem de noite a companheira / Sabe que a paz é passageira / Prá defendê-la se levanta / E grita: 'Eu vou!'"
E elas estão gritando. Não estão mais pedindo licença com a cabeça baixa. Não estão mais esperando a vez que nunca chega. Elas estão se levantando das cadeiras do fundo da sala e caminhando para a frente. Do plenário da Câmara às prefeituras do interior, das assembleias legislativas ao Senado, das salas de aula aos ministérios. Cada mulher que cruza o limite invisível do "lugar de homem" está dizendo, com o corpo e com a voz, sem pedir desculpas: eu vou.
"Porta-bandeira, capoeira / Desfilando vão cantando / Liberdade."
Liberdade. Essa palavra tão gasta, tão maltratada por discursos vazios, recupera seu sentido mais profundo quando uma mulher ocupa o espaço de poder que sempre lhe foi negado. Liberdade não é apenas o direito de votar — conquistado com suor e sangue. Liberdade é o direito de ser votada, de legislar, de decidir sobre os rumos de uma nação. Liberdade é sentar-se à mesa sem precisar provar que é digna de estar ali. Liberdade é não ser mais interrompida, não ter suas ideias repetidas por um homem minutos depois como se fossem originais, não precisar de três vezes mais competência para ser considerada "boa o bastante".
A trincheira ainda está aberta. Os dados da pesquisa são um alerta: 35% de apoio entre homens de direita é um número que deveria envergonhar, não apenas a direita, mas a todos que acreditam na democracia como exercício pleno da cidadania. Porque a indiferença seletiva é o princípio de toda exclusão. Primeiro, ignoramos. Depois, tratamos com condescendência. Depois, quando já não é mais possível ignorar, resistimos com os dentes. É um ciclo que se repete em cada legislatura, em cada eleição, em cada manhã de segunda-feira nos gabinetes onde se decidem os destinos do país.
Mas o extraordinário — e talvez o que mais aterrorize os que resistem — é que elas continuam. Apesar dos olhares, dos comentários, das comissões que nunca presidem, dos cargos de segundo escalão, das candidaturas subfinanciadas. Elas continuam. Não por heroísmo individual, mas por uma consciência que se alastra: a de que a ausência de mulheres na política não é um acidente, é um projeto. E todo projeto pode ser desmontado.
A mão que toca o violão, a voz que canta a canção, o pé que dança o samba — tudo isso agora ocupa as cadeiras do poder. Viola enluarada não é mais só poesia: é uma declaração de ocupação.
Eu vou. Nós vamos. E o silêncio, finalmente, começa a ser preenchido.
Ferramentas de IA foram utilizadas na elaboração deste conteúdo. Todo o conteúdo foi revisado por humanos.





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