Seja bem-vindo
Barra Mansa,20/06/2026

    • A +
    • A -
    Publicidade

    Carlo Simi

    "BOLSONARO JR." — QUANDO A MENTIRA VIRA PROVA

    Isso não é polarização. É o registro histórico.


    "BOLSONARO JR." — QUANDO A MENTIRA VIRA PROVA 

    Por Carlo Simi

    Há momentos em que o equívoco de um poderoso revela mais do que qualquer discurso cuidadosamente preparado. O que aconteceu na margem do G7, em Évian-les-Bains, na última quarta-feira, foi um desses momentos. Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, afirmou ao mundo que "prenderam o Bolsonaro Jr." — criando, do nada, um personagem que não existe, confundindo dois filhos distintos de um ex-presidente que conhece pessoalmente, e errando nos três fatos centrais da declaração: o nome, a situação jurídica e o motivo.

    Não é uma confusão qualquer. É o presidente dos Estados Unidos falando sobre a família à qual concedeu audiência no Salão Oval, cujas fotos exibiu com orgulho na Truth Social. Se ele não sabe o nome do filho que recebeu em seu próprio gabinete, o que exatamente ele sabe sobre o Brasil?

    Vou ser direto sobre minha posição — porque ela não cabe nas gavetas da polarização que empobrece o debate público.

    Tenho restrições a Lula desde o início de sua trajetória política. Em 2003, quando poderia ter rompido com a lógica rentista que corrói a economia brasileira, ele optou pela acomodação. Desde então, navegou com habilidade entre o sistema e as políticas compensatórias que aliviaram — sem transformar — as condições de vida dos mais pobres. É uma avaliação crítica, mas honesta.

    Quanto a Bolsonaro, a crítica não é de ordem política — é de competência, caráter e consequência. E a prova não está em discursos de adversários. Está nos fatos do próprio mandato.

    Comecemos pelo mais grave: a pandemia. Com 3% da população mundial, o Brasil registrou 10% do total de mortes notificadas pela OMS — mais de 700 mil brasileiros mortos. Isso não foi uma tragédia inevitável. Foi o resultado de escolhas deliberadas de um presidente que associou o uso da cloroquina a preferências ideológicas, ironizando que "quem é de direita toma cloroquina e quem é de esquerda toma Tubaína" — transformando uma crise sanitária em combustível de divisão política. O governo chegou a gastar cerca de R$ 84 milhões com medicamentos sem eficácia — dinheiro suficiente para comprar mais de 12 milhões de doses de vacina — enquanto atrasava deliberadamente a aquisição dos imunizantes que salvariam vidas. A CPI da Covid investigou o governo federal e Bolsonaro foi indiciado pelos crimes de prevaricação, charlatanismo, epidemia com resultado morte, infração a medidas sanitárias preventivas, incitação ao crime e crimes contra a humanidade nas modalidades extermínio, perseguição e outros atos desumanos. Um presidente que trata a morte de 700 mil cidadãos como um problema de comunicação não governa — administra o caos em benefício próprio.

    Depois, a relação com as instituições de controle. Em abril de 2020, o então ministro da Justiça Sérgio Moro pediu demissão acusando Bolsonaro de tentar interferir na Polícia Federal para proteger a família e aliados de investigações. Não foi uma acusação de corredor: Moro era o ministro que ele mesmo havia escolhido, e havia um vídeo de reunião ministerial em que Bolsonaro, exasperado, queixava-se da escassez de informações fornecidas pela PF, alegava que estava tentando, sem sucesso, mudar a direção da polícia e avisava que tentaria novamente. A questão judicial sobre se isso configura crime está em apuração — o PGR reabriu o inquérito com novas provas. Mas o fato político é incontroverso: um presidente da República, em reunião gravada com seus ministros, admitia publicamente que tentava direcionar a polícia federal segundo interesses pessoais e familiares. Em qualquer democracia consolidada, isso seria o fim de uma carreira. No Brasil bolsonarista, virou narrativa de perseguição.

    E quando perdeu as eleições, não aceitou. Bolsonaro foi condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado após perder as eleições de 2022 e encontra-se em prisão domiciliar. Seus filhos seguiram o mesmo caminho: Eduardo foi condenado pelo STF por usar o poderio de uma potência estrangeira para intimidar o Judiciário brasileiro e proteger o pai. A família que bate continência para a bandeira americana enquanto trabalha para que tarifas punitivas destruam empregos brasileiros.

    O mais desconcertante de tudo não é Bolsonaro — é a cegueira voluntária de uma parcela de seus seguidores diante de um dossiê de incompetência e má-fé que estaria na primeira página de qualquer curso de ciência política. Sete ministros da Saúde em quatro anos. Um gabinete paralelo de charlatões. Uma pandemia transformada em ideologia. Uma eleição que só seria válida se ele ganhasse. Um golpe que falhou. E filhos que vendem o país ao exterior enquanto se dizem patriotas.

    Isso não é polarização. É o registro histórico.

    Feitas essas ressalvas, o que se passou no G7 merece análise sem concessões.

    Eduardo Bolsonaro foi condenado pelo STF por coação no curso do processo que julgava o pai pela tentativa de golpe. A pena foi de 4 anos e 2 meses, em regime semiaberto. A condenação se baseou em algo preciso: Eduardo e Paulo Figueiredo levaram documentos da Justiça brasileira a autoridades norte-americanas para tentar justificar medidas contra autoridades brasileiras, com ameaças diretamente relacionadas ao julgamento de Jair Bolsonaro.

    E aqui está a ironia que não pode ser suavizada: ao anunciar as tarifas de 25% contra produtos brasileiros, Trump citou Jair Bolsonaro no primeiro parágrafo do documento. O presidente dos Estados Unidos, sem perceber — ou sem se importar —, produziu a prova mais cristalina do lobby realizado pelos filhos Bolsonaro contra os interesses econômicos do próprio país. Eduardo Bolsonaro não foi condenado por uma declaração feita no Texas. Foi condenado por usar o poder de uma potência estrangeira como alavanca contra instituições brasileiras. E Trump, ao agir exatamente como esperado por essa estratégia, assinou embaixo.

    Chamar isso de "um pronunciamento no Texas" não é apenas impreciso. É, usando as palavras certas, uma mentira.

    Enquanto isso, o que fazia o presidente brasileiro no mesmo encontro?

    Lula encontrou-se com Zelensky para discutir caminhos diplomáticos para o conflito entre Ucrânia e Rússia, manteve conversas com lideranças do Japão sobre o avanço das negociações Mercosul-Ásia e foi recebido por Macron em um dos encontros mais comentados da cúpula. Lula chegou ao G7 como convidado e atuou como articulador — algo que poucos líderes ali presentes conseguiram fazer.

    Quando questionado sobre as declarações de Trump a respeito das eleições brasileiras, a resposta foi de uma elegância política rara: "Para mim, ele pode continuar gostando do Bolsonaro. Do pai, do filho, do neto. Não tem nenhum problema. É um problema dele. Afinal de contas, gosto não se discute. Agora, não se meta nas eleições do Brasil."

    É uma frase que qualquer patriota — independentemente de partido — deveria ser capaz de subscrever.

    Trump é um problema grave. Não apenas para o Brasil, mas para a ordem internacional que os próprios Estados Unidos ajudaram a construir. Autoritário em método, agressivo em linguagem, ele usa o poderio comercial e bélico americano como instrumento de coerção contra quem ousa defender um mundo multipolar. 

    Isso não é novidade na política externa americana — mas a combinação de arrogância, desinformação e impulsividade torna esta versão peculiarmente perigosa.

    O que é novo — e deve ser dito com clareza — é que há brasileiros que trabalham ativamente para ampliar essa influência sobre o Brasil. Não por ingenuidade. Por interesse.

    As medidas tarifárias dos Estados Unidos foram anunciadas após a visita de Flávio Bolsonaro à Casa Branca. A coincidência não é inocente. E o próprio documento americano que formalizou as tarifas cita nominalmente o ex-presidente brasileiro — tornando visível o fio que conecta a política externa de Trump ao lobby da família Bolsonaro.

    Quem conhece o Brasil pela relação com essa família não conhece o Brasil. Conhece uma franquia política que apostou na subordinação ao exterior como estratégia de sobrevivência doméstica.

    O Brasil que eu conheço — trabalhador, soberano, plural — não cabe nesse retrato. E não precisa de tutela de ninguém para decidir seus destinos.

    Na próxima vez que Trump quiser falar sobre nossas eleições, talvez valha a pena primeiro aprender o nome dos filhos dos aliados que recebeu em sua própria casa.

    Carlo Simi é Matemático, Professor, Servidor Público, Sócio Proprietário e Torcedor do Fluminense, Frequentador dos jogos e do clube desde a década de 50, Ex-Conselheiro, Membro do Grupo Por Amor ao Tricolor e Membro da Embaixada Tricolores da Zona Sul.



    COMENTÁRIOS

    LEIA TAMBÉM

    Buscar

    Alterar Local

    Anuncie Aqui

    Escolha abaixo onde deseja anunciar.

    Efetue o Login

    Baixe o Nosso Aplicativo!

    Tenha todas as novidades na palma da sua mão.