Carlo Simi
O MEIO DE CAMPO ESQUECEU A BOLA: O QUE MARROCOS NOS ENSINOU SOBRE A ESSÊNCIA DO FUTEBOL BRASILEIRO.
Enquanto Marrocos evoluía pelo centro do gramado com refino, o Brasil sofria com o seu deserto de ideias.
O MEIO DE CAMPO ESQUECEU A BOLA: O QUE MARROCOS NOS ENSINOU SOBRE A ESSÊNCIA DO FUTEBOL BRASILEIRO.
Por Carlo Simi
Quem assistiu ao confronto entre Brasil e Marrocos testemunhou mais do que noventa minutos de futebol; presenciou uma ironia histórica em formato de espelho. Diante de uma Seleção Brasileira burocrática, travada na obsessão defensiva e refém de transições em velocidade pelos lados, o meio de campo marroquino deu um concerto de cadência, aproximação e inteligência tática. O setor que historicamente decidiu jogos para o Brasil e encantou o mundo simplesmente não existiu do nosso lado. Pior: as virtudes que outrora eram peculiaridades do nosso jogo estavam vestindo a camisa adversária.
A engrenagem do jogo marroquino funcionou sob uma regência brilhante e geracional. De um lado, Brahim Díaz, um jogador que entende o espaço como poucos, ditando o ritmo e clareando o panorama. Do outro, o assombroso Ayyoub Bouaddi. Com apenas 18 anos, o jovem meio-campista jogou com a altivez de um veterano. Sem precisar recorrer à força bruta ou ao choque desmedido, Bouaddi esbanjou categoria: pisou na bola, encontrou passes de ruptura, ofereceu a linha de passe e controlou o tempo do jogo. Ele desarmou por antecipação e construiu por pura intuição técnica.
Enquanto Marrocos evoluía pelo centro do gramado com refino, o Brasil sofria com o seu deserto de ideias.
E a verdade nua e crua é que nós abdicamos do jogador que pensa, do cérebro criativo no círculo central. Há muito tempo o futebol brasileiro parou de produzir camisas 10 e volantes de classe. Há quanto tempo não vemos surgir um Rivelino, um Ademir da Guia, ou mesmo um Paulo Henrique Ganso? Personagens que encantavam nossos olhos com jogadas geniais, que transformavam o passe em obra de arte e faziam o tempo da partida orbitar ao seu redor. Essa linhagem foi extinta porque o nosso ecossistema futebolístico decidiu que a genialidade era um luxo dispensável.
O reflexo prático disso está na escalação da nossa equipe principal. É claro que o futebol não tem lógica e, por força do imponderável ou do talento individual dos homens de frente, o Brasil pode até conseguir o tão sonhado hexacampeonato. Porém, ao olharmos para um meio de campo composto por Casemiro, Bruno Guimarães e, especialmente, Lucas Paquetá — que, na teoria, carrega a imensa responsabilidade de ser o criador da equipe —, essa missão torna-se praticamente inviável sob a ótica do jogo bem jogado. Falta-lhes a simbiose entre o passe cirúrgico e a leitura de espaço que sobrava nos nossos antigos maestros.
Sob a constante ameaça da demissão a cada três tropeços, o treinador brasileiro médio abraçou o pragmatismo covarde do "não perder". O resultado é a proliferação desse perfil: volantes de imposição física e meias de intensa recomposição, escalados sob o pretexto de proteger os zagueiros. O paradoxo é cruel: sem meias que saibam reter a posse e fazer a transição limpa da defesa para o ataque, a bola não para na frente. O time é sufocado, o adversário ataca em ondas e a corda inevitavelmente arrebenta lá atrás, deixando os defensores expostos ao caos de um jogo sem controle.
Esse medo que paralisa o futebol profissional contaminou as divisões de base na raiz. O garoto franzino, cerebral, que enxerga o jogo três segundos antes dos outros e resolve o problema na base do talento puro, perde espaço para o atleta forte, veloz e focado na marcação. Trocou-se a busca pela jogada inesperada pelo operário que cumpre a função de fechar o corredor. A obsessão pela "intensidade sem bola" nos fez esquecer o que fazer com ela.
O jogo contra Marrocos foi a prova definitiva de que o futebol pune quem renega a própria identidade. Se o futebol brasileiro não promover uma reforma estrutural — que garanta estabilidade para os treinadores ousarem no profissional e mude a mentalidade de captação e lapidação na base —, continuaremos assistindo a meio-campistas estrangeiros ditando o ritmo do mundo. É preciso redescobrir urgentemente que a bola sempre corre mais rápido do que qualquer atleta, e que o coração do jogo bate na mente daqueles que sabem pensar o futebol.
Carlo Simi é Matemático, Professor, Servidor Público, Sócio Proprietário e Torcedor do Fluminense, Frequentador dos jogos e do clube desde a década de 50, Ex-Conselheiro, Membro do Grupo Por Amor ao Tricolor e Membro da Embaixada Tricolores da Zona Sul.




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