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Barra Mansa,12/06/2026

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    Carlo Simi

    O RESTAURANTE QUE DARCY NUNCA PEDIU

    Darcy Ribeiro estava de pé sob o arco de Oscar Niemeyer ...


    O RESTAURANTE QUE DARCY NUNCA PEDIU

    O RESTAURANTE QUE DARCY NUNCA PEDIU

    Por Carlo Simi

    Era março de 1984, e Darcy Ribeiro estava de pé sob o arco de Oscar Niemeyer, acenando com sorriso aberto para a multidão que inaugurava o Sambódromo. Ao lado, Leonel Brizola descia do camarote para beijar os estandartes das escolas de samba, ovacionado pelas arquibancadas de concreto que ele mesmo havia mandado erguer em 120 dias.

    O que poucas pessoas lembram — e que importa muito agora — é que aquelas arquibancadas não eram simples lâminas de cimento. Eram sólidos. Estruturas que abrigavam salas de aula, instalações para milhares de crianças. Ali dentro, enquanto o carnaval descansava, funcionaria uma escola de tempo integral. O Sambódromo nasceu como síntese de duas obsessões trabalhistas: a cultura popular e a educação pública. Um CIEP com passarela de samba. Um espaço que só fazia sentido completo se fosse usado o ano inteiro — não para o espetáculo, mas para a vida.

    Quarenta e dois anos depois, a Prefeitura do Rio anuncia o projeto Praça Onze Maravilha e, com ele, a intenção de "resgatar o conceito original de Brizola e Darcy Ribeiro". A frase é do arquiteto Rodrigo Azevedo, consultor da gestão Eduardo Cavaliere. O conceito, segundo ele, seria concretizado por meio de restaurantes e sanitários instalados sob as arquibancadas, além da abertura permanente da Passarela ao pedestre.

    Há algo correto nessa proposta. E há algo que precisa ser dito com clareza.

    O que há de correto: a ideia de abrir o Sambódromo ao pedestre, retirar as grades que o isolam, conectá-lo ao entorno da Praça Onze — isso tem parentesco legítimo com o espírito original. Brizola e Darcy queriam um equipamento urbano vivo, integrado à cidade. A Biblioteca dos Saberes prevista no projeto, se de fato for construída e for pública de verdade, também vai nessa direção.

    O que precisa ser dito: restaurante não é escola. E usar o nome de dois trabalhistas históricos para justificar a instalação de comércio privado num espaço público tombado é uma apropriação que vai além da imprecisão histórica — é uma inversão de sentido.

    Darcy Ribeiro era vice-governador e secretário de Cultura quando concebeu o Sambódromo. Era também o criador dos CIEPs — os Centros Integrados de Educação Pública que, ao final dos dois mandatos de Brizola, chegaram a 507 unidades em todo o estado. Quando imaginou salas de aula sob as arquibancadas, Darcy não estava buscando uma "função" para um espaço ocioso. Estava fazendo política pública: transformando a lógica de um equipamento de carnaval em instrumento permanente de dignidade popular. A escola era o argumento. Era o ponto.

    Os CIEPs do Sambódromo deixaram de funcionar há anos. Esse esvaziamento foi, em si, uma derrota silenciosa do projeto original. Nenhum prefeito ou governador desde então teve a coragem política de restaurar aquela vocação. E agora, em vez de retomá-la, a Prefeitura propõe substituí-la por restaurantes — e chama isso de resgate.

    Há ainda uma terceira camada no projeto que merece atenção: o modelo de financiamento. O texto oficial menciona "iniciativa privada com contrapartidas urbanísticas em outras regiões do Rio" e gestão inspirada nos Business Improvement Districts de Nova York, Toronto e Joanesburgo. Esses distritos têm uma história conhecida nas cidades onde operam: tendem a privatizar progressivamente a gestão do espaço público, substituindo o interesse coletivo pelo interesse do investidor. É um modelo que funciona para valorizar imóveis. Não é um modelo que Brizola reconheceria como seu.

    O Sambódromo é tombado pelo IPHAN desde 2021. A estrutura física está protegida. Mas o que não está protegido é o sentido — a ideia que animou aquele concreto. E é exatamente esse sentido que corre risco quando se batiza de "resgate" o que é, na prática, uma reconversão comercial de um legado público.

    Darcy gostava de dizer que o Brasil não é atrasado: é injusto. O Sambódromo nasceu de uma tentativa de corrigir essa injustiça — dar à criança da periferia um espaço que fosse simultaneamente cultura e escola, festa e formação.

    Transformar esse espaço em ponto de gastronomia, por mais bem executado que seja, não é resgatar essa ideia.

    Chame de modernização. Chame de gestão sustentável, de requalificação urbana, de parceria público-privada. São argumentos que existem, que têm defensores, que podem ser debatidos.

    Mas não chame de resgate. Não ponha a ideia de Darcy na cabeça de quem está fazendo outra coisa.

    Há um padrão antigo nessa operação: o trabalhismo é evocado com mais frequência exatamente quando está sendo contradito. Getúlio virou marca. Brizola virou nome de avenida. Darcy virou passarela. E agora a passarela do Darcy vai virar restaurante — em nome do Darcy. A coerência mínima exigiria, ao menos, a honestidade de não usar o nome de quem não pode mais desmentir. O que estão fazendo tem nome: é preservar a memória na fachada e esvaziar a ideia por dentro.

    É enterrá-la com flores.

    Carlo Simi é Matemático, Professor, Servidor Público, Sócio Proprietário e Torcedor do Fluminense, Frequentador dos jogos e do clube desde a década de 50, Ex-Conselheiro, Membro do Grupo Por Amor ao Tricolor e Membro da Embaixada Tricolores da Zona Sul.

     



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