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Barra Mansa,27/05/2026

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    Carlo Simi

    O GANSO E O NINHO TRICOLOR:

    UMA HISTÓRIA DE AMOR, RESISTÊNCIA E LEGADO


    O GANSO E O NINHO TRICOLOR:

    O GANSO E O NINHO TRICOLOR:

    UMA HISTÓRIA DE AMOR, RESISTÊNCIA E LEGADO

    Por Carlo Simi

    Existem jogadores que nascem para correr. Existem jogadores que nascem para lutar. E existem, numa frequência rara demais para ser comum, jogadores que nascem para fazer o tempo parar.

    Paulo Henrique Ganso é desses.

    Quando ele toca na bola, algo muda no ar. O jogo, que segundos antes era velocidade e ruído, se transforma em silêncio calculado. É como se o campo respirasse diferente. Como se os outros vinte e um jogadores em campo de repente percebessem que estão dividindo o gramado com alguém que enxerga o futebol de um ângulo que só ele conhece. Um ângulo mais alto. Mais limpo. Mais bonito.

    Escrever sobre Ganso é, para mim, uma dívida de amor. Ele é um dos maiores ídolos que já vestiram as cores verde, branco e grená do meu Fluminense. E digo isso não como elogio protocolar — digo como quem carrega isso no peito há anos, como quem aprendeu a amar ainda mais o futebol por causa dele.

    O RETORNO, O REENCONTRO, O RECOMEÇO

    Em 31 de janeiro de 2019, após uma passagem pelo futebol europeu que não lhe fez jus, Paulo Henrique Ganso chegou ao Fluminense assinando um contrato de cinco anos. A mídia, que sempre soube mais decretar do que entender, já havia escrito o epitáfio de um jogador que considerava ultrapassado. Lento demais. Apagado demais. Passado demais.

    Mas o futebol, como a poesia, raramente se explica para quem não está disposto a sentir.

    A torcida tricolor estava disposta. Eu estava disposto.

    "Me receberam com um olhar de quem dizia que iria torcer muito por mim, para que eu pudesse ser feliz aqui" , disse ele, com aquela humildade serena de quem passou por tempestades e aprendeu a distinguir o vento verdadeiro do barulho vazio.

    Aquele olhar que ele descreveu — era o meu olhar. Era o olhar de todos nós que acreditávamos que ali, nas Laranjeiras, entre o verde da grama e o grená da alma tricolor, ele encontraria finalmente o seu ninho.

    AS PEDRAS DO CAMINHO

    Seria fácil — e desonesto — contar essa história apenas pelos títulos e pelos aplausos. Ganso merece mais do que isso. Merece a verdade inteira.

    Em 2019, foi ele o grande líder na fuga do rebaixamento. No ano seguinte, preterido pelo técnico da época, viveu sua pior temporada no clube, suportou críticas e aguardou seu espaço em silêncio. Em 2021, também não estava entre as primeiras opções — mas o campo gritou, e o time se transformou.

    Quantas vezes, ao longo desses anos, alguém disse que ele havia terminado? Quantas colunas escritas, quantas opiniões disparadas, quantas dúvidas plantadas sobre um jogador que, enquanto o mundo falava, simplesmente continuava? Continuava treinando. Continuava respeitando. Continuava sendo Ganso — naquele ritmo próprio, naquele compasso que o futebol moderno insiste em não compreender, mas que os grandes sempre souberam apreciar.

    Em 2022, Abel Braga foi peça essencial ao estimular uma transformação física e técnica em Ganso — processo que se revelaria determinante para tudo o que viria depois.

    Foi uma reinvenção feita no silêncio dos treinos, longe das câmeras, naquele espaço íntimo onde só o atleta e sua própria vontade se encontram. E Ganso, naquele encontro consigo mesmo, escolheu ser grande outra vez.

    A NOITE EM QUE O MARACANÃ PAROU

    E então veio 2023.

    E com ele, a eternidade.

    A Libertadores do Fluminense não foi apenas um troféu erguido sob os holofotes do Maracanã. Foi o instante em que a história respirou fundo, olhou para trás, e reconheceu que havia uma justiça poética naquilo tudo.

    Um jogador que havia sobrevivido à dúvida, ao esquecimento, à irregularidade — e que ali estava, no palco maior do futebol sul-americano, provando que a arte verdadeira não tem prazo de validade.

    Foi só nesse momento que a mídia descobriu o que a torcida tricolor já sabia há muito tempo: o Ganso que encantou o futebol brasileiro quando garoto ainda existia — só estava um pouco diferente.

    Diferente como o vinho que envelhece e aprofunda. Diferente como a música que, quanto mais você ouve, mais camadas revela. Diferente como só os verdadeiros artistas conseguem ser: cada vez mais eles mesmos.

    A Conmebol Libertadores 2023, a Conmebol Recopa 2024, o bicampeonato carioca de 2022 e 2023, as Taças Guanabara de 2022 e 2023 e a Taça Rio de 2020.

    Uma coleção de conquistas que, para mim, tem um nome bordado em cada uma: Ganso.

    O NÚMERO QUE VIROU DECLARAÇÃO DE AMOR

    "Na minha carreira é a primeira vez que chego a um número tão grande de jogos em um clube"   , disse ele ao completar 250 partidas tricolores.

    Aquela frase simples me parou. Porque não era um jogador contando jogos. Era um homem reconhecendo, em voz alta e com os olhos brilhando, que havia encontrado o lugar onde queria escrever as páginas mais importantes da sua história.

    "O Fluminense é o clube que eu fiquei por mais tempo na minha carreira, na minha vida. Então agradeço por acreditarem em mim desde o começo e pelo carinho de sempre."

    E então, com aquela naturalidade de quem não precisa de discurso para dizer verdades, completou: "Eu sempre vou ser o Paulo Henrique Ganso do Fluminense. Hoje, com tanto tempo aqui dentro do clube, tenho um carinho gigantesco — minha família é completamente apaixonada pelo clube."

    Parei nessa frase. Li de novo. E de novo.

    Porque há jogadores que passam pelos clubes como quem passa por uma cidade de viagem — admiram a paisagem, tiram uma foto, seguem em frente. E há jogadores que chegam, plantam raízes, e um dia olham ao redor e percebem que aquele lugar virou parte deles. Que as cores verde, branco e grená deixaram de ser apenas uma camisa e se tornaram uma segunda pele.

    Ganso é desse segundo tipo. Ganso é Fluminense.

    O GANSINHO E O AMOR QUE NÃO CABE EM CAMPO

    Mas a parte mais bela dessa história não acontece no gramado. Acontece em casa.

    Seu filho Henrico, ainda criança, atua nas categorias de base do Fluminense e se declara um tricolor de coração. Às vésperas da final da Libertadores de 2023, Ganso revelou com uma ternura que transbordava: "Ele está muito ansioso, sabe todas as músicas da torcida do Fluminense, canta junto, vibra, se emociona. Cara, eu só posso falar que ele está bem ansioso. Todo mundo: ele, minha esposa. Mas ele é especial, está curtindo muito esse momento. Isso, para mim, desfrutar esse momento com todos eles, também está sendo maravilhoso."

    Imagine a cena. Um pai que chegou a um clube com o mundo duvidando dele. Que sobreviveu a cada crítica, a cada banco de reservas, a cada temporada difícil. Que levantou a Libertadores. E que agora olha para o filho, que sabe de cor as músicas da torcida, que treina em Xerém com o sonho nos olhos, que cresceu vestindo verde, branco e grená como se essa fosse a cor natural da sua infância.

    Henrico celebrou seu nono aniversário com uma festa temática repleta de elementos do Fluminense — carinhosamente apelidada de "Gansinho". A decoração evocava o CT Vale das Laranjeiras, com um painel dos "Moleques de Xerém" ocupando lugar de honra na celebração.

    O menino já trilha sua própria jornada nas categorias de base do clube, destacando-se no futsal em Laranjeiras e no campo em Xerém.

    O pai abriu o caminho com arte, garra e elegância. O filho segue com os olhos brilhando e os pés ágeis — carregando, além do sobrenome, a mesma chama.

    O Fluminense não ganhou apenas um jogador em 2019. Ganhou uma família. Uma família que pintou a própria alma de verde, branco e grená.

    A PROVA MAIS DURA: QUANDO O CORAÇÃO FALOU MAIS ALTO

    Em 2025, veio o capítulo mais difícil de toda essa história. Ganso foi diagnosticado com miocardite — uma inflamação no coração.

    O coração. Aquele mesmo que ele havia depositado, passo a passo, temporada a temporada, dentro das quatro linhas do Maracanã.

    O afastamento foi longo. A incerteza, pesada. E nós, que o acompanhamos de longe, sentimos aquela angústia particular de quem não sabe rezar por um atleta — e reza assim mesmo. Porque alguns jogadores deixam de ser apenas jogadores. Viram parte da nossa própria narrativa. Viram algo que vai além do futebol.

    Quando voltou, mais de quatro meses depois, ele foi exato e humilde, do jeito que só os verdadeiros grandes sabem ser: "É só agradecer a Deus e às pessoas que me ajudaram. Estou voltando aos poucos. Agora é só entrar no ritmo."

    Sem drama. Sem discurso. Com a serenidade de quem aprendeu que as batalhas mais importantes não são as travadas em campo — e que voltar, às vezes, é a vitória maior.

    O QUE FICA, PARA SEMPRE

    Eu sou suspeito para falar de Paulo Henrique Ganso. Assumo isso com orgulho e sem nenhuma desculpa.

    Ele é um dos meus maiores ídolos na história verde, branca e grená do Fluminense. Não apenas pelo que fez dentro de campo — pelos passes que pareciam ter GPS, pelas jogadas que desafiavam a física, pelos momentos em que ele segurava a bola e o estádio inteiro prendia a respiração, sem saber exatamente para onde iria, mas certo de que seria lindo. Admiro tudo isso. Mas admiro ainda mais o que ele fez fora das quatro linhas.

    Admiro o homem que ficou quando poderia ter ido. Que trabalhou quando poderia ter desistido. Que respeitou esse clube, essa torcida, essa instituição — em cada entrevista, em cada renovação, em cada declaração que soava como promessa cumprida e não como protocolo de assessoria.

    Admiro o pai que criou um filho tricolor. Que levou para dentro de casa as cores que defende em campo. Que fez do Fluminense não apenas um empregador, mas uma identidade de família.

    Contratado em janeiro de 2019, Ganso participou diretamente do período mais vitorioso do Fluminense nas últimas décadas.  

    Mais de 300 partidas. Títulos históricos. E uma relação com a torcida que vai muito além dos números — porque se mede em afeto, em identificação, naquele tipo de cumplicidade silenciosa que existe entre quem joga e quem sente.

    Obrigado, Ganso. Por cada passe milimétrico que pareceu simples e não era. Por cada assistência de outro mundo que você entregou como quem dá de presente algo que só você sabia fabricar. Por cada vez que você ficou quando era mais fácil ir embora. Por cada vez que você olhou para esse clube — com suas cores verde, branco e grená, com sua história centenária, com sua torcida apaixonada — e escolheu pertencer.

    Você não apenas jogou no Fluminense.

    Você virou Fluminense.

    E o Fluminense virou você.

    "Eu sempre vou ser o Paulo Henrique Ganso do Fluminense."

    E nós sempre seremos seus torcedores. Com muito amor e com muito respeito.

    Carlo Simi é Matemático, Professor, Servidor Público, Sócio Proprietário e Torcedor do Fluminense, Frequentador dos jogos e do clube desde a década de 50, Ex-Conselheiro, Membro do Grupo Por Amor ao Tricolor e Membro da Embaixada Tricolores da Zona Sul.



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