MK - Marcelo Kieling
"A Ascensão do Alpinismo Teológico"
O Púlpito e a Pólis
"A Ascensão do Alpinismo Teológico"
O Púlpito e a Pólis
Por Marcelo Kieling
O artigo analisa a transição do neopentecostalismo brasileiro do isolamento social para a militância política institucional. Através da "Teologia das Sete Montanhas", líderes religiosos buscam o domínio sobre esferas fundamentais da sociedade, transformando a fé em uma arma de poder político e tensionando os limites da laicidade e da democracia no país.
O Fim do "Isolamento Ascético"
Houve um tempo em que o sagrado brasileiro se resguardava em um silêncio obsequioso. Nas décadas de 1970 e 1980, o universo pentecostal vivia sob a égide do "isolamento ascético". O lema, quase folclórico, de que "crente não escova bituca" — uma metáfora rústica para a recusa ao envolvimento com a política e os vícios da pólis — desenhava uma fronteira nítida: de um lado, o templo, a cura divina e o proselitismo fervoroso; do outro, o Estado, visto como uma estrutura secular da qual o fiel deveria se manter ileso.
Essa separação, contudo, não era uma ausência de força, mas uma energia represada. O que assistimos hoje no Brasil não é um desvio acidental dessa trajetória, mas uma metamorfose teológica e sociopolítica que transformou o púlpito em ágora e o pastor em estrategista.
A aliança entre o neopentecostalismo e a direita radical não é apenas um acordo de conveniência eleitoral; é a materialização de uma eclesiologia de ocupação, onde a "Teologia do Domínio" substituiu a espera passiva pelo Reino de Deus pela urgência de conquistá-lo aqui, agora e pelo voto.
A Teologia das Sete Montanhas
O motor dessa transformação é a chamada Teologia das Sete Montanhas. Influenciada pelo reconstrucionismo cristão, essa visão propõe que os cristãos têm o dever bíblico de ocupar os pilares fundamentais da cultura:
1. Governo
2. Mídia
3. Educação
4. Família
5. Artes
6. Economia
7. Religião
Sob essa ótica, a política deixa de ser uma atividade secular e passa a ser uma extensão da "batalha espiritual". O adversário político não é mais um oponente com ideias divergentes, mas um agente do mal que precisa ser combatido para que a "integridade da família" seja preservada.
O Vácuo do Estado e a Bússola Espiritual
É nesse ponto que o púlpito vira zona eleitoral. Em um Brasil de periferias abandonadas, onde o Estado é uma ausência que dói, a igreja é a presença que acolhe. O pastor detém uma autoridade moral que o horário eleitoral gratuito jamais alcançará. Quando esse líder aponta um candidato como o "escolhido", ele oferece uma bússola espiritual em meio ao caos social.
A direita radical soube ler esse cenário com precisão, adotando a "pauta de costumes" como o escudo que justifica a quebra da neutralidade litúrgica. A narrativa é reforçada por arquétipos poderosos. O candidato é frequentemente moldado como um "Ciro" moderno — o rei persa que, embora não fosse um seguidor de Jeová, foi usado para libertar os judeus do exílio.
Essa metáfora é o salvo-conduto perfeito: permite que o fiel ignore as falhas morais ou a falta de piedade pessoal do político, desde que ele cumpra a missão divina de retomar o território das "montanhas" da cultura.
Resistência e o Custo da Laicidade
Entretanto, olhar para esse fenômeno como um bloco monolítico seria um erro de análise. O pentecostalismo brasileiro é uma colcha de retalhos e, nas frestas dessa hegemonia, surgem movimentos que observam com horror a partidarização da fé. Há uma resistência silenciosa que lembra que o Evangelho, em sua essência, é uma crítica ao poder, não um manual de como conquistá-lo.
O tensionamento da laicidade é o custo mais alto dessa convergência. O conceito de abuso de poder religioso enfrenta a barreira da subjetividade litúrgica. Onde termina a liberdade de expressão religiosa e começa a propaganda eleitoral irregular? A resposta é turva, e a punição, rara. O púlpito, revestido de uma aura de intocabilidade, torna-se um território onde as leis da República parecem pedir licença para entrar.
O Desafio Democrático
Ao fim, a convergência entre o neopentecostalismo e a direita radical nos coloca diante de um espelho incômodo. Ela revela um país onde a política falhou em oferecer sentido e pertencimento, deixando o vácuo para ser preenchido por uma fé que se tornou ferramenta de governo.
Quando a divergência política é tratada como pecado, a democracia perde sua capacidade de mediação. O desafio do Brasil contemporâneo é garantir que a fé possa habitar o coração do cidadão sem que, para isso, precise sequestrar as instituições da República.
Precisamos mudar o Brasil. Vamos?
Ferramentas de IA foram utilizadas na elaboração deste conteúdo. Todo o conteúdo foi revisado por humanos.





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