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Barra Mansa,25/05/2026

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    MK - Marcelo Kieling

    A Alquimia e a Luz da Saudade

    Sentir saudade dessas coisas não é sofrer; é celebrar a certeza de que fomos felizes.


    A Alquimia e a Luz da Saudade

    A Alquimia e a Luz da Saudade

    Sentir saudade dessas coisas não é sofrer; é celebrar a certeza de que fomos felizes.

    Por Marcelo Kieling

    Dizem que os navegadores portugueses, ao cruzarem o Atlântico sob o teto de estrelas desconhecidas, inventaram uma palavra para dar contorno ao vazio. Na solidão das naus, entre o ranger da madeira e o bater rítmico das ondas contra o casco, o peito daqueles homens contraía-se de um mal que não tinha nome nas línguas do norte da Europa. Não era apenas a falta da terra natal, nem somente a ausência física da esposa, do filho ou do aroma do pão saído do forno em alguma ruela de Lisboa. Era um sentimento estranho, um peso fluido, uma névoa que se instalava na alma e que, mais tarde, batizaram como saudade. O termo, nascido sob o signo dos descobrimentos, consolidou-se como a nossa maior herança linguística e existencial: uma palavra que é, ao mesmo tempo, porto e naufrágio; felicidade e melancolia.

    Mas reduzir a saudade à geografia ou à história dos invasores nas caravelas é empobrecer um sentimento que desafia as próprias leis do universo. A física nos ensina o Princípio da Impermanência — a certeza de que tudo no cosmos é transitório, passageiro, mutável. As estrelas colapsam, as montanhas sofrem a erosão dos milênios, os mares ondulam e se ampliam, as estações se sucedem em um ciclo implacável de morte e renascimento. No entanto, o ser humano, em sua teimosia biológica e afetiva, recusa-se a aceitar a efemeridade. Somos, por definição, pobres arquitetos de vínculos. Ao longo da jornada, costuramos nossa existência à de outros seres, a lugares, a cheiros, a animais de estimação e a épocas douradas. Quando o tempo ou a distância rompem essas costuras, os nós permanecem atados dentro das dobras mais profundas da nossa memória. A saudade é a prova viva de que o afeto, o sonho, sobrevive à matéria. Ela é a resistência absoluta da memória contra a ditadura do esquecimento.

    Essa resistência nasce de uma verdade incômoda: nascemos incompletos. Há um vazio primordial na condição humana, uma espécie de fenda que tentamos preencher desde o primeiro choro ao nascer. Buscamos a completude no outro, no trabalho, na arte, na contemplação do belo. E quando encontramos esses fragmentos de inteireza, nós os guardamos como tesouros. O problema é que a vida, em sua dinâmica imprevisível, frequentemente nos afasta dessas fontes de saciedade. É nesse espaço, nessa fratura exposta do nosso cotidiano, que a saudade chega e se instala. Ela se manifesta inicialmente como uma sombra — melancolia, nostalgia, às vezes uma revolta silenciosa contra a realidade que nos impõe a ausência. É a dor de perceber que o que nos completava agora habita apenas o território intangível das lembranças.

    No entanto, há uma beleza quase mística na forma como essa ausência se faz presente. Sentir saudade é ter a capacidade de reviver. Não se trata apenas de lembrar, mas de re-sentir, de trazer novamente ao coração alguma lembrança. Sentimos saudades do amigo que tomou um rumo diferente na vida e cuja risada ainda ecoa em nossas conversas mentais; daquela receita de família cujo sabor parece que está perdido no tempo, mas que a memória gustativa recria com uma precisão cirúrgica; da casa da infância, com suas portas rangendo e o quintal que parecia um continente inteiro a ser explorado; dos filhos pequenos, quando cabiam em nosso colo e o mundo era bem simples. Cada uma dessas lembranças é um tijolo na construção de quem somos.

    Na sabedoria popular, criamos a expressão "matar a saudade". É um paradoxo poético fascinante. Como se pode assassinar aquilo que nos mantém vivos? Mas a verdade é que, no instante do reencontro — quando o olhar finalmente cruza com o objeto do seu desejo, quando o abraço aperta e o vazio é temporariamente preenchido —, a dor quase cessa. O sofrimento é sepultado pela alegria pura. Matar a saudade é, na verdade, ressuscitar a presença, viver o sentimento real.

    Contudo, o teste mais severo desse sentimento não se resolve com um abraço de aeroporto ou um telefonema de domingo. A maior e mais profunda dor da saudade é aquela esculpida pelo luto. A perda de um ente querido é uma experiência que rasga e maltrata o tecido da nossa realidade. O martírio da separação definitiva impõe um silêncio ensurdecedor, uma dor inexplicável. Com o tempo, a mente humana, em seu mecanismo de autodefesa, busca a aceitação — aquela lenta e muito dolorosa digestão dos fatos que não podemos alterar. Mas a aceitação não preenche o espaço vazio; ela apenas nos ensina a caminhar ao redor dele. A saudade decorrente da morte não diminui; nós é que nos tornamos maiores para conseguir encarar e carregá-la.

    Essa dor atinge seu ápice quando a ordem natural das coisas é violada de forma brutal, como na perda de um filho. É um sofrimento que foge à lógica da biologia e da própria linguagem — não há palavra no dicionário para definir um pai ou uma mãe que enterra seu próprio sangue. Diante de tamanha tragédia, o mundo ao redor, sem saber como lidar com o abismo alheio, costuma oferecer anestésicos rápidos: "o tempo fará esquecer", dizem as vozes bem-intencionadas. Mas será que esquecer é realmente o remédio? Não seria o esquecimento uma segunda morte, uma traição ao amor que foi vivido? Talvez o sofrimento da saudade seja, na verdade, o preço que pagamos de bom grado para manter viva a chama daquele que partiu. Sofrer de saudade, nesse caso, é a confirmação dolorosa, mas sublime, de que o amor existiu, de que aquela vida iluminou a nossa e deixou marcas indeléveis.

    Mas aqui é que a crônica da vida exige uma conversão de olhar. Precisamos transformar a dor em gratidão. Em vez de lamentarmos o fim, cabe-nos agradecer o início e a permanência do que foi compartilhado. Aqueles que amamos e que partiram não desapareceram no nada; eles apenas cruzaram para o "outro lado da rua da vida", habitando uma dimensão invisível aos nossos olhos cansados, mas perfeitamente acessível ao nosso coração. A saudade, sob essa perspectiva, deixa de ser um castigo e passa a ser uma ponte de luz, uma fonte de energia.

    Essa é a verdadeira alquimia da alma: transformar o chumbo do sofrimento no ouro do aprendizado. A dor da ausência pode ser o combustível para a nossa evolução pessoal, para a expansão da nossa consciência e para a nossa conexão com o sagrado. A esperança de um reencontro, seja ele em que dimensão for, é o que torna a caminhada suportável para tantos de nós. É o que nos dá forças para continuar escrevendo nossas próprias histórias, sabendo que os capítulos anteriores foram ricamente ilustrados por aqueles que já se foram.

    Por fim, precisamos resgatar a dimensão festiva da saudade. Como bem cantou Casimiro de Abreu nos versos imortais de "Meus oito anos", há uma doçura inigualável em olhar para trás e sorrir com o que fomos. A saudade não precisa ser sempre uma lágrima que cai; ela pode ser o sorriso que brota no canto dos lábios ao lembrarmos da inocência da infância, do frio na barriga do primeiro beijo, ou da energia vibrante daquela dança sob as luzes coloridas de uma discoteca do passado.

    Sentir saudade dessas coisas não é sofrer; é celebrar a certeza de que fomos felizes. É a prova irrefutável de que a nossa vida foi — e continua sendo — uma aventura que valeu a pena ser vivida. Que saibamos, portanto, honrar a nossa saudade, tratando-a não como uma ferida aberta, mas como uma cicatriz bonita, que nos lembra diariamente da nossa capacidade de amar e de sermos amados.

    Sentir saudade também é ser feliz!!!

    Ferramentas de IA foram utilizadas na elaboração deste conteúdo. Todo o conteúdo foi revisado por humanos.

     



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