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Barra Mansa,22/05/2026

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    MK - Marcelo Kieling

    Aqui não passa nada no GESTUÁRIO ...

    A TV que ensina a falar (e a pensar) errado


    Aqui não passa nada no GESTUÁRIO ...

    A TV que ensina a falar (e a pensar) errado

    O custo de um mundo com menos palavras

    Por Marcelo Kieling

    Uma apresentadora de um telejornal de grande relevância na audiência, todos os dias diz: "... Aqui não passa nada..." Se não passa nada, o que está passando na TV?

    Nos comentários do futebol, os geniais participantes criaram a expressão "último terço". Onde fica o último terço? Será que a igreja criou um time de futebol?

    Os geniais comentaristas ainda dizem que o time tem que "agredir" o adversário. Imagine crianças de 10 e 13 anos assistindo ao jogo e ouvindo isso. O que será que elas farão na próxima partida de futebol de salão da aula de educação física? Agredir o adversário?

    Em outra transmissão, uma repórter na beira do campo disse que estava observando o "GESTUÁRIO" do técnico. Acho que ele deveria estar procurando no vestiário o gestual do profissional em questão.

    A TV tem autoridade presumida: quando erra, legitima o erro em escala. Ser acessível é diferente de ser preguiçoso — nivelar por baixo subestima o público. Cuidar da linguagem é um compromisso com a clareza e com a inteligência coletiva.

    A televisão sempre teve um papel duplo na sociedade: reflete a fala do povo, mas também a modela. Quando se rende a vícios de linguagem, clichês e palavras mal usadas, o estrago vai muito além da gramática — atinge a própria capacidade de a sociedade pensar com clareza.

    Há uma cena clássica no imaginário brasileiro: o apresentador do telejornal, terno impecável, olhar sério, anuncia com toda a solenidade: "Agora, a equipe de reportagem vai estar trazendo os detalhes dessa operação." Pronto. Está dito. E está errado.

    O gerundismo — essa mania de esticar o verbo no futuro com "vai estar fazendo" em vez de "fará" — não é apenas uma falha gramatical. É uma declaração de passividade. A ação nunca se concretiza, fica sempre "em processo de". A linguagem perde o músculo. E o público, sem perceber, incorpora essa moleza ao próprio vocabulário.

    O gerundismo e os clichês televisivos não são apenas erros gramaticais — enfraquecem a precisão e a força da comunicação. O uso exagerado de palavras fortes banaliza seu significado real e troca análise por emoção barata.

    O dicionário enlatado da pressa

    O telejornalismo vive de prazos implacáveis e da luta por audiência. O resultado é um vocabulário de emergência: qualquer problema vira "verdadeira odisseia", toda chuva forte é "cenário de caos", e uma briga de trânsito se transforma em "guerra urbana".

    O efeito é perverso. Palavras fortes, repetidas sem critério, perdem o peso. Se tudo é "trágico" ou "espetacular", nada é. A emoção barata substitui a análise. O telespectador troca o entendimento pelo susto.

    Quando o erro vira regra

    A confusão entre "roubo" e "furto" virou lugar-comum. "Inflação" e "infração" viram sinônimos na boca de quem deveria saber a diferença. Usa-se "através de" como se fosse "por meio de" — quando o correto seria indicar meio, não travessia física.

    O problema é que a televisão goza de autoridade presumida. O telespectador médio acredita que quem está na tela domina o idioma. Quando o erro se repete, ele se legitima. Uma geração inteira aprende errado porque o erro foi transmitido no horário nobre.

    A fina linha entre acessível e preguiçoso

    Há quem defenda que a TV precisa falar simples para ser entendida. É verdade. Ser acessível é democratizante. Mas há uma diferença abissal entre clareza e preguiça intelectual.

    Nivelar por baixo — repetindo "né", "tipo assim", "com certeza" a cada frase, errando concordância básica sob o pretexto de "falar a língua do povo" — subestima o público. A boa televisão deveria elevar o debate, não empobrecer o pensamento. Simplificar não é sinônimo de emburrecer.

    O custo de um mundo com menos palavras

    A linguagem é viva, sim. Ela se transforma, se renova, e a informalidade tem seu lugar — especialmente no entretenimento. O problema não é a informalidade. É a falta de cuidado técnico, a repetição cega de vícios que embaçam a comunicação.

    Quando a mídia abdica do zelo pelas palavras, perde-se a capacidade de nuance. E um mundo com menos palavras e mais clichês é um mundo onde as pessoas têm mais dificuldade de expressar o que sentem — e de questionar o que veem.

    Cuidar da linguagem na TV não é preciosismo de dicionário. É compromisso com a clareza. E com a inteligência do público.

    Em certas horas, sinto certa melancolia. Ler Ariano Suassuna, Drummond, Lygia Fagundes Telles, Clarice Lispector deveria ser ação obrigatória para este novo time de geniais astros da mídia jornalística.

    Obrigado, Evanildo Bechara. Você faz muita falta!

    Ferramentas de IA foram utilizadas na elaboração deste conteúdo.Todo o conteúdo foi revisado por humanos.

     



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