MK - Marcelo Kieling
Brasil: um gigante que recusa a própria vocação industrial
A indústria brasileira e o paradoxo da inércia
Brasil: um gigante que recusa a própria vocação industrial
A indústria brasileira e o paradoxo da inércia
Por Marcelo Kieling
O país que poderia liderar a quarta revolução industrial prefere assistir de camarote enquanto o mundo se reorganiza. Enquanto o mundo redefine cadeias produtárias e acelera a incorporação de inteligência artificial, o Brasil insiste em não ter política industrial, abandona as Zonas de Processamento de Exportação e trata a inovação como pauta secundária. O custo dessa omissão é a perpetuação do subdesenvolvimento.
O Brasil vive um paradoxo incômodo. De um lado, dispõe de matriz energética limpa, parque científico consolidado, mercado interno robusto e posição estratégica no comércio global. De outro, assiste passivamente ao esvaziamento da sua base industrial — fenômeno documentado por décadas de dados do IBGE e da Confederação Nacional da Indústria — sem que o Estado apresente uma política coerente de reversão. Não se trata de falta de instrumentos; faltam diagnóstico compartilhado e vontade política.
O custo da ausência de política industrial
A participação da indústria de transformação no PIB brasileiro encolheu de cerca de 20% nos anos 1980 para pouco mais de 11% em 2024. Esse processo de desindustrialização precoce não é fruto de fatalidade econômica, mas de escolhas — ou da ausência delas. O país abandonou mecanismos clássicos de política industrial sem substituí-los por instrumentos compatíveis com o século XXI. O resultado é uma economia cada vez mais dependente da exportação de commodities e da importação de bens de maior valor agregado.
A agenda de neoindustrialização anunciada nos últimos anos produziu mais diagnósticos do que entregas. Faltam coordenação entre os entes federativos, continuidade administrativa e, sobretudo, um entendimento de que política industrial não se confunde com protecionismo — é planejamento estratégico com metas verificáveis, prazos definidos e accountability.
Zonas de Processamento de Exportação: um instrumento que o Brasil insiste em não utilizar
As ZPEs são regimes aduaneiros especiais que combinam desoneração tributária, simplificação burocrática e incentivos à exportação com exigências de conteúdo local e geração de emprego. Mais de 140 países as utilizam com sucesso — da China a Portugal, do Vietnã aos Emirados Árabes. O Brasil criou o marco legal ainda nos anos 1980, mas as sucessivas regulamentações nunca saíram do papel.
Hoje há dezenas de ZPEs autorizadas por lei — nenhuma plenamente operacional. O entrave não é técnico, é político. A implementação de ZPEs exige coordenação entre Ministério da Fazenda, Receita Federal, bancos públicos e governos estaduais, e enfrenta resistência de setores que veem nos regimes especiais uma ameaça à arrecadação de curto prazo. Perde-se de vista o ganho de longo prazo: exportações de maior valor agregado, inserção em cadeias globais e atração de investimento estrangeiro direto.
A não implementação das ZPEs é talvez o símbolo mais acabado da incapacidade brasileira de executar políticas industriais consistentes. O instrumento existe, o interesse privado existe, o potencial exportador existe. Falta quem queira arrumar a casa.
Inteligência artificial: a ferramenta que o Brasil não incorporou ao seu projeto de desenvolvimento
Enquanto economias centrais e emergentes disputam a dianteira na incorporação de inteligência artificial aos seus processos produtivos, o Brasil trata o tema como pauta de nicho. Não há uma política pública estruturada que vincule o desenvolvimento da IA à reindustrialização nacional.
A IA generativa e os sistemas de aprendizado de máquina representam, para a indústria, o que a eletricidade representou no início do século XX: uma tecnologia de propósito geral capaz de elevar a produtividade em todas as cadeias. Países como Alemanha, Japão e Coreia do Sul já integram a IA à manufatura avançada — manutenção preditiva, controle de qualidade automatizado, otimização logística, design generativo de produtos.
O Brasil, que forma milhares de engenheiros e cientistas da computação por ano, que possui um dos maiores mercados digitais do mundo e que já demonstrou competência em setores como agronegócio de precisão e bancos digitais, simplesmente não conecta esses pontos. A IA aparece em discursos e menções periféricas, mas não como eixo de uma política industrial integrada.
Faltam incentivos fiscais para adoção de IA por PMEs industriais, faltam centros de pesquisa aplicada em parceria com o setor privado, falta um programa nacional de qualificação da força de trabalho para a nova realidade produtiva. A inteligência artificial não é tratada como ferramenta de desenvolvimento — é tratada como tema de conferência.
Por que a política não avança?
Há razões estruturais e conjunturais para essa paralisia. A primeira é o horizonte eleitoral curto: políticas industriais maduras demandam prazos de dez a vinte anos, incompatíveis com ciclos de quatro anos e com a descontinuidade administrativa que marca a gestão pública brasileira.
A segunda é a fragmentação do Estado: a política industrial no Brasil é disputada por ministérios, agências, bancos de fomento e conselhos setoriais que raramente falam a mesma língua. Sem uma instância central de coordenação com poder decisório real, as iniciativas se multiplicam sem convergência.
A terceira é a captura do debate por visões antagônicas e igualmente insuficientes: de um lado, o protecionismo que confunde política industrial com reserva de mercado; de outro, o liberalismo de manual que reduz o papel do Estado à arbitragem regulatória. Nenhuma das duas correntes oferece um projeto para a indústria brasileira no século XXI.
A quarta razão é a mais incômoda: não há pressão social organizada por política industrial. A desindustrialização não mobiliza ruas, não pauta debates eleitorais, não move bancadas parlamentares com a força que movem pautas distributivas. Sem demanda política organizada, a inércia prevalece.
O Brasil precisa romper o ciclo de diagnósticos sem execução. Uma política industrial para o século XXI deveria combinar: (a) a operacionalização imediata das ZPEs como porta de entrada para integração competitiva em cadeias globais; (b) um programa de difusão de inteligência artificial na indústria, com incentivos fiscais, redes de centros aplicados e requalificação massiva da força de trabalho; (c) a criação de uma instância de coordenação com mandato plurianual e recursos vinculados, blindada contra descontinuidades administrativas; e (d) métricas públicas de progresso, com relatórios anuais submetidos ao Congresso e à sociedade civil.
O custo de não fazer nada é conhecido: continuaremos exportando grãos e importando inteligência. O custo de fazer é exigente, mas o Brasil já demonstrou, em outros momentos da sua história, que é capaz de escolhas estratégicas quando a sociedade as exige. A pergunta que fica é: esperaremos até quando?
Precisamos mudar o Brasil. Vamos?
Ferramentas de IA foram utilizadas na elaboração deste conteúdo. Todo o conteúdo foi revisado por humanos.





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