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Barra Mansa,16/05/2026

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    Carlo Simi

    A INDÚSTRIA DA INDIGNAÇÃO E A EXPLORAÇÃO DA PAIXÃO POPULAR

    O ódio nas redes sociais no futebol


    A INDÚSTRIA DA INDIGNAÇÃO E A EXPLORAÇÃO DA PAIXÃO POPULAR

    A INDÚSTRIA DA INDIGNAÇÃO E A EXPLORAÇÃO DA PAIXÃO POPULAR

    Por Carlo Simi

    Vivemos um tempo em que a comunicação deixou de ser apenas um espaço de informação para se transformar, muitas vezes, em um grande mercado de emoções. E entre todas as emoções humanas, poucas são tão poderosas quanto a indignação, a revolta e a paixão irracional. As redes sociais entenderam isso rapidamente. Muitos influenciadores também.

    Hoje existe uma verdadeira indústria da indignação funcionando diariamente nas plataformas digitais. Uma engrenagem que transforma conflito em audiência, raiva em engajamento e desespero coletivo em lucro político e financeiro.

    Os algoritmos das redes sociais não premiam equilíbrio. Premiam intensidade emocional. Quanto maior a revolta, maior o alcance. Quanto mais agressiva a opinião, mais comentários. Quanto mais radical a narrativa, mais compartilhamentos.

    E poucos ambientes são tão propícios para isso quanto o futebol.

    O futebol nunca foi apenas esporte. É identidade, pertencimento, memória afetiva e paixão popular. O torcedor não reage apenas com a razão. Reage com o coração. E justamente por isso tornou-se um alvo extremamente lucrativo para influenciadores que aprenderam a explorar emocionalmente a torcida.

    Hoje, grande parte do conteúdo esportivo nas redes sociais não é construída para informar ou analisar. É produzida para inflamar.

    Uma vitória importante muitas vezes recebe menos repercussão do que uma derrota. Um trabalho consistente de reconstrução raramente viraliza como viraliza uma crise. Um dirigente que organiza financeiramente um clube dificilmente gera o mesmo engajamento de uma polêmica ou de uma acusação explosiva.

    Isso acontece porque a paixão do torcedor o torna mais vulnerável ao conteúdo emocional.

    Quando o time perde, o torcedor quer descarregar frustração. Quer encontrar culpados. Quer ouvir alguém dizendo exatamente aquilo que ele sente no impulso do momento. E muitos influenciadores perceberam que alimentar essa reação irracional gera audiência gigantesca.

    Por isso, é comum vermos canais esportivos vivendo quase exclusivamente de crise, caça às bruxas e radicalização da torcida. O debate deixa de ser técnico e passa a ser emocionalmente manipulado.

    Não importa se o clube melhorou financeiramente, aumentou patrimônio, revelou jogadores, reorganizou categorias de base ou conquistou estabilidade. Basta uma derrota para surgir uma avalanche de vídeos afirmando que “está tudo destruído”, “ninguém presta”, “é uma vergonha histórica” ou “o clube acabou”.

    A emoção extrema virou modelo de negócio.

    O mais preocupante é que essa lógica não fica restrita ao futebol. Ela se espalha para a política, para a segurança pública, para os debates sociais e para a vida cotidiana.

    Na política, por exemplo, muitos influenciadores perceberam que o ódio mobiliza mais do que propostas concretas. Explicar um projeto econômico, discutir educação pública ou analisar desigualdade social exige profundidade. Já estimular medo, revolta e ressentimento produz engajamento instantâneo.

    A consequência é uma sociedade permanentemente tensionada, emocionalmente cansada e cada vez menos acostumada à reflexão racional.

    Isso não significa que críticas não devam existir. Pelo contrário. O futebol precisa de fiscalização, assim como a política e todas as instituições públicas. O problema começa quando a crítica deixa de buscar melhoria e passa a buscar apenas audiência.

    Existe diferença entre análise crítica e exploração emocional da revolta popular.

    E essa diferença é fundamental.

    O torcedor apaixonado merece respeito, não manipulação. A população indignada merece informação, não exploração comercial de sua dor. Mas muitos influenciadores perceberam que manter as pessoas permanentemente irritadas é extremamente lucrativo.

    Quanto mais nervosa estiver a torcida, mais visualizações.

    Quanto maior o ódio político, mais compartilhamentos.

    Quanto mais irracional for o ambiente, maior o alcance.

    As redes sociais criaram um sistema em que equilíbrio perdeu espaço para radicalização emocional.

    Por isso, talvez um dos maiores desafios da sociedade moderna seja reaprender a pensar antes de reagir. Reaprender a analisar antes de atacar. Reaprender a diferenciar crítica legítima de manipulação emocional.

    Porque uma torcida movida apenas pela raiva perde a capacidade de enxergar processos, contextos e reconstruções. E uma sociedade movida apenas pela indignação se torna cada vez mais vulnerável aos que transformam emoção coletiva em instrumento de poder.

    Carlo Simi é Matemático, Professor, Servidor Público, Sócio Proprietário e Torcedor do Fluminense, Frequentador dos jogos e do clube desde a década de 50, Ex-Conselheiro, Membro do Grupo Por Amor ao Tricolor e Membro da Embaixada Tricolores da Zona Sul.




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