Carlo Simi
SUS NA MIRA:
O Sistema Único de Saúde incomoda.
SUS NA MIRA: QUANDO A "REFORMA " ESCONDE A PERDA DE DIREITOS
O Sistema Único de Saúde incomoda.
Por Carlo Simi
Incomoda porque, mesmo com filas, falhas de gestão e subfinanciamento crônico, ele garante algo que poucos países conseguiram: atendimento de saúde gratuito e universal para toda a população.
E isso, para uma certa visão de mundo, é um problema.
Por trás do discurso técnico de “modernização” e “eficiência”, volta à cena uma velha ideia: reduzir o papel do Estado e abrir espaço para o mercado — inclusive naquilo que deveria ser direito básico.
É nesse contexto que ganham força propostas associadas ao ex-ministro Marcelo Queiroga, que tendem a compor um eventual programa de governo de Flávio Bolsonaro à Presidência.
O roteiro já é conhecido.
Fala-se em melhorar a gestão, rever o financiamento, pagar por desempenho, integrar mais o setor privado.
Tudo parece razoável — até que se olha com atenção.
Porque esse tipo de proposta raramente começa atacando direitos de forma explícita.
Ela avança pelas bordas.
Primeiro, muda-se o modelo de financiamento.
Depois, amplia-se a presença do setor privado.
Em seguida, cria-se um sistema “mais eficiente” — e, discretamente, mais desigual.
É assim que o direito vai sendo corroído sem que se diga, em nenhum momento, que ele será retirado.
O Brasil já viu esse processo antes.
Na reforma trabalhista, prometeram modernização. Entregaram precarização.
Na reforma da previdência, falaram em equilíbrio. Produziram insegurança social.
Agora, a lógica reaparece na saúde.
E o risco aqui é ainda mais grave.
Porque quando o mercado entra de forma estruturante no sistema de saúde, o que muda não é só a gestão — é a lógica de acesso.
Deixa de ser um direito garantido e passa a ser uma disputa por recursos.
Quem pode pagar mais, acessa melhor.
Quem não pode, espera — ou desiste.
Não é exagero. É o padrão observado em sistemas híbridos ao redor do mundo.
E é exatamente esse o ponto que se tenta evitar dizer em voz alta: não se fala em cobrar diretamente mas se constrói o caminho para que o acesso deixe de ser, na prática, universal.
Defender o SUS, nesse cenário, virou quase um ato de resistência.
Mas é preciso deixar claro: Não se trata de negar problemas.
O SUS precisa melhorar — e muito.
Mas há uma diferença brutal entre reformar para fortalecer e reformar para mudar a essência.
E o que está em jogo nessas propostas não é apenas eficiência.
É a substituição silenciosa de um modelo baseado em direitos por um modelo orientado pelo mercado.
O nome disso não é modernização.
É regressão.
O Brasil precisa decidir, com clareza, que sistema quer sustentar.
Um sistema público, imperfeito, mas que garante acesso a todos ou um sistema “eficiente”, onde o acesso depende, cada vez mais, da capacidade de pagar.
Porque uma coisa é certa: Quando a saúde deixa de ser direito, ela rapidamente vira privilégio.
E depois que isso acontece, voltar atrás custa caro — e não é só em dinheiro.
É em vidas.
Carlo Simi é Matemático, Professor, Servidor Público, Sócio Proprietário e Torcedor do Fluminense, Frequentador dos jogos e do clube desde a década de 50, Ex-Conselheiro, Membro do Grupo Por Amor ao Tricolor e Membro da Embaixada Tricolores da Zona Sul.




COMENTÁRIOS