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Barra Mansa,15/05/2026

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    JJ

    A Sociedade Ferida

    Sombras históricas


    A Sociedade Ferida

    A Sociedade Ferida

    Por JJ

    A morte brutal de uma criança acorrentada dentro de casa, submetida a sinais de tortura justamente por pessoas que deveriam protegê la, não é apenas um caso policial. É um espelho sombrio. Um retrato de uma sociedade adoecida em parcelas importantes de sua estrutura emocional, moral e psicológica.

    O episódio noticiado pelo g1 causa horror porque rompe aquilo que entendemos como humano. A infância deveria ser território sagrado. Quando uma criança passa a ser vista como objeto de punição, de ódio ou de descarrego emocional, algo muito profundo já se deteriorou antes, dentro das pessoas e também fora delas.

    É evidente que a violência doméstica, os abusos contra crianças e a crueldade familiar não nasceram ontem. O Brasil sempre conviveu com sombras históricas, autoritarismo doméstico, cultura de castigo, brutalização da pobreza e abandono emocional. Seria intelectualmente desonesto afirmar que tais tragédias surgiram apenas nos últimos anos.

    Mas também é impossível ignorar que, desde 2016, o país entrou numa espiral coletiva de radicalização emocional e política que naturalizou a agressividade, o ódio e a desumanização do outro. A linguagem pública mudou. O debate virou guerra moral. A violência passou a ser celebrada em certos ambientes como demonstração de força, coragem ou “verdade”.

    Não se trata de afirmar que determinada corrente política produz criminosos. Isso seria simplista e injusto. A imensa maioria dos eleitores de qualquer espectro político jamais cometeria atrocidade alguma. Porém, ambientes sociais influenciam comportamentos, legitimam impulsos e reduzem freios morais.

    Quando figuras públicas passam anos estimulando humilhação, culto às armas, desprezo aos direitos humanos, intolerância e eliminação simbólica do adversário, algo lentamente se desloca na consciência coletiva. O que antes era vergonha passa a ser orgulho. O que era reprimido ganha autorização emocional.

    Os dados dos últimos anos ajudam nessa reflexão. O crescimento dos feminicídios, os ataques letais em escolas, a explosão de discursos violentos nas redes sociais e o adoecimento psíquico coletivo parecem formar um mosaico preocupante. O Brasil tornou se um país mais ansioso, mais agressivo, mais intolerante e emocionalmente exausto.

    A rápida observação das redes sociais do pai da criança, segundo relatos já divulgados, mostra alguém profundamente identificado com o discurso do “cidadão de bem”, defensor radical de pautas extremadas e do bolsonarismo militante. Isso não prova causalidade direta. Seria irresponsável afirmar algo tão simplório. Mas ignorar completamente os símbolos, discursos e ambientes ideológicos que cercam indivíduos envolvidos em casos assim também empobrece a análise.

    A questão talvez seja mais profunda: que tipo de subjetividade estamos formando? Que país emerge quando a empatia é ridicularizada, a educação emocional desprezada e a violência transformada em linguagem política cotidiana?

    Nenhuma sociedade enlouquece de uma vez. O adoecimento é gradual. Ele começa nas palavras, nos afetos, nas redes sociais, no incentivo permanente à raiva, na banalização da crueldade, no prazer de humilhar e destruir o outro.

    Uma criança acorrentada não é apenas vítima de uma família monstruosa. Ela também é vítima de uma cultura que falhou em proteger a delicadeza humana.

    E talvez a reflexão mais dolorosa seja justamente essa: monstros não surgem do nada. Eles são produzidos, alimentados ou tolerados por ambientes que normalizam a brutalidade.

      JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira

     



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