JJ
Dark House Brazil
O obsceno é a intimidade.
Dark House Brazil
Por JJ
Há filmes de terror baratos. Há filmes ruins financiados por editais suspeitos. E há o Brasil, onde um senador da República telefona para um banqueiro investigado, chama o sujeito de “irmão” e pede, com a naturalidade de quem encomenda pizza, cento e trinta e sete milhões de reais para terminar um filme sobre o próprio pai.
Nem Scorsese teria coragem de escrever um roteiro tão pornograficamente indecente.
O nome da obra seria “Dark House”. Convenhamos… finalmente um título honesto. Porque a casa é escura mesmo. Escura de transparência. Escura de moral. Escura de vergonha.
No país onde o próprio candidato alardeia faltar dinheiro para hospital, remédio, merenda, pesquisa e segurança, sobra milionário fraudador e criminoso disposto a financiar propaganda familiar disfarçada de cinema patriótico. E na extrema direita sobra político que trata empresário enrolado em suspeitas como parceiro íntimo de negócios privados e interesses públicos.
Tudo muito fraterno. Tudo muito cristão. Tudo muito republicano… segundo eles próprios.
A cena é quase didática. O filho do ex presidente, defensor raivoso da austeridade para os pobres, aparece mendigando cifras cinematográficas que dariam para construir escolas inteiras. Não para contar a história do Brasil. Não para preservar memória nacional. Não para incentivar cultura popular.
Não.
Para fabricar mito.
Porque o bolsonarismo sempre teve horror da realidade. Precisa de fantasia. Precisa de narrativa. Precisa de heróis de plástico produzidos em escala industrial, como action figures de quinta categoria vendidas em posto de gasolina.
O mais insultante não é o valor. No Brasil anestesiado, milhões já perderam o impacto faz tempo.
O obsceno é a intimidade.
“Meu irmão…”
É assim que a República apodrece. Não com tanques nas ruas. Mas com camaradagens milionárias em ligações privadas. Com favores entre os “patriotas” do andar de cima enquanto o povo recebe sermão sobre sacrifício, meritocracia e Deus.
O cidadão comum atrasa o boleto e perde o nome.
Os donos do poder atrasam o país inteiro e ainda querem tapete vermelho, trilha sonora épica e incentivo fiscal.
E pensar que chamavam artistas de mamadores da Lei Rouanet.
No fim, talvez “Dark House” seja mesmo um documentário involuntário. Não sobre Jair Bolsonaro. Mas sobre o subsolo moral de uma elite política que confunde governo com família, Estado com patrimônio pessoal e amizade com blindagem.
Uma casa escura onde ninguém acende a luz porque todos têm medo do que pode aparecer.
JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira




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