MK - Marcelo Kieling
A CRIANÇA ACORRENTADA E O ESPÍRITO DO TEMPO:
NATURALIZAÇÃO DA BARBÁRIE
A CRIANÇA ACORRENTADA E O ESPÍRITO DO TEMPO:
SOBRE A NATURALIZAÇÃO DA BARBÁRIE
Por Marcelo Kieling
Uma reflexão sobre a erosão da proteção social e a radicalização do discurso público no Brasil contemporâneo
1. A imagem que nunca deveria existir
A cena — de uma criança de 11 anos encontrada morta no Itaim Paulista, zona leste de São Paulo, após ser mantida acorrentada dentro de casa pelo próprio pai —, embora descrita nos relatórios policiais e boletins de ocorrência, desafia a gramática da civilidade contemporânea. Agentes do Estado, ao cruzarem o umbral de uma residência comum em uma cidade brasileira, deparam-se com o impensável: uma criança, em pleno desenvolvimento físico e psíquico, privada de sua liberdade mais elementar por meio de correntes e cadeados. Não se trata de uma metáfora literária sobre a opressão, mas de uma realidade física, fria e metálica.
O choque provocado por tais imagens — como o caso do menino de 10 anos em Porto Velho (2023) ou o resgate dramático em Campinas (2021) — provoca uma pergunta que o título deste artigo não propõe como retórica, mas como urgência sociológica: como, em pleno século XXI, a polícia ainda pode encontrar uma criança acorrentada no Brasil?
Para responder, é preciso evitar o reducionismo de tratar tais episódios apenas como patologias individuais ou desvios morais isolados. Embora a responsabilidade criminal seja individual, o fenômeno é profundamente social. Proponho uma análise baseada no que Max Weber denominou afinidade eletiva. Não se busca estabelecer uma causalidade mecânica — como se um discurso político específico fizesse, automaticamente, um pai pegar uma corrente —, mas sim identificar como um determinado ambiente cultural e político "baixa as barreiras" contra o inaceitável, criando um caldo de cultura onde a barbárie doméstica encontra não apenas terreno para florescer, mas um silêncio cúmplice para se esconder.
2. O que os números e os fatos nos revelam
A recorrência desses casos não é uma anomalia estatística, mas o grave sintoma de uma ferida aberta. O histórico recente brasileiro é fustigado por exemplos que deveriam ter servido de alerta máximo: o menino de 11 anos em Campinas, mantido em um barril sob sol e chuva; a criança de 9 anos acorrentada ao pé da cama no Paraná; e o caso de Porto Velho, onde a privação de liberdade era a norma doméstica.
Segundo dados da UNICEF, a violência contra crianças é uma epidemia silenciosa e disseminada, afetando milhões globalmente — mas que, no Brasil, assume contornos de crise institucional. Especialistas ouvidos pela CNN Brasil em 2025 foram enfáticos ao diagnosticar o que chamam de "colapso da proteção às crianças" no país.
Esse colapso não é fruto do acaso. É o resultado de uma erosão sistemática da rede de proteção que sustenta o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Quando os Conselhos Tutelares operam sem recursos, quando o orçamento para políticas de infância é contingenciado e quando as instituições de fiscalização são deslegitimadas, o Estado sinaliza, ainda que por omissão, que a proteção dos vulneráveis não é mais prioridade absoluta. A violência, portanto, deixa de ser um evento fortuito para se tornar possibilidade latente em lares onde a vulnerabilidade social se encontra com a ausência do olhar público.
3. A radicalização como caldo de cultura
A análise sociológica não pode ignorar o impacto da radicalização ideológica — especialmente da extrema-direita reacionária — na subjetividade coletiva brasileira. O conceito de "naturalização do absurdo", explorado em artigos acadêmicos do SciELO, descreve com precisão o processo pelo qual discursos de ódio e práticas de exclusão deixam de ser marginais para ocupar o centro do debate público. Quando a violência é celebrada como instrumento de resolução de conflitos e quando o "outro" — seja ele o adversário político, a minoria ou o vulnerável — é sistematicamente desumanizado, a sociedade sofre uma ruptura ética.
A pesquisa sobre radicalização política publicada pelo Nexo Jornal (Lilian Sendretti, 2025) demonstra que esse processo deflagra uma alteração na percepção de limites morais. Se o discurso público legitima a ideia de que certos seres e seus corpos são menos dignos de proteção do que outros, essa lógica inevitavelmente penetra na esfera privada. A desumanização política atua como um anestésico social: reduz a nossa capacidade de sentir horror diante do sofrimento alheio.
No ambiente doméstico, essa desumanização pode se traduzir na crença de que a disciplina exige a anulação da dignidade do filho, transformando a autoridade parental em um poder absoluto e inquestionável, desprovido de respeito mútuo.
É preciso, contudo, avançar um passo além e examinar o ecossistema digital como vetor de propagação dessa lógica. A atual linha radical da extrema-direita reacionária não se limita a discursos parlamentares, pregações religiosas ou manifestações de rua. Ela se alimenta e se retroalimenta de um ecossistema de mídias sociais onde a hostilidade à diversidade — de gênero, raça, orientação sexual e, sobretudo, à própria noção de direitos humanos — é produzida em escala industrial.
Parlamentares, líderes religiosos, canais, perfis e comunidades digitais dedicados a atacar o que chamam de "ideologia de gênero", a "doutrinação escolar" e o "ativismo judicial" do Estatuto da Criança e do Adolescente não apenas informam uma visão de mundo: eles treinam seus seguidores a enxergar o outro como ameaça e a proteção institucional como inimiga. O algoritmo, ao privilegiar o conteúdo de maior engajamento emocional, amplifica os discursos mais extremos, criando câmaras de eco onde a violência verbal contra vulneráveis é normalizada e, em muitos casos, celebrada.
Não se trata de afirmar que um vídeo no YouTube ou um post no Telegram "causa" diretamente o acorrentamento de uma criança. Trata-se de reconhecer que esse ecossistema digital reduz o custo moral da violência. Ele oferece um repertório simbólico que substitui a culpa pela justificativa: o pai ou a mãe que acorrenta um filho pode, em sua mente distorcida, estar apenas "impondo disciplina" a uma criança que a escola e o Estado "querem doutrinar". A radicalização online não cria o monstro; ela cria e fornece a linguagem para que o monstro ou mito se veja como herói.
4. A erosão das instituições de proteção
Desde sua promulgação em 1990, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) foi um marco civilizatório, estabelecendo que crianças e adolescentes são sujeitos de direitos — e não objetos de intervenção ou propriedade. Nos últimos anos, no entanto, assistimos a um ataque coordenado a esse arcabouço legal. Setores radicais ultraconservadores passaram a rotular o ECA como "instrumento de doutrinação" ou entrave à autoridade da família tradicional.
Essa ofensiva discursiva foi acompanhada por atitudes parlamentares e por ações institucionais concretas. O CONANDA (Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente) sofreu tentativas de esvaziamento e intervenções que comprometeram sua autonomia. Ao mesmo tempo, a ascensão de discursos que pregam a "autoridade parental absoluta" criou uma vasta e perigosa zona cinzenta.
Nessa lógica, a criança deixa de ser vista como cidadã em formação, protegida pelo Estado e pela sociedade, para ser tratada como uma extensão patrimonial dos pais. E, na mente de quem opera sob a lógica do domínio, o que é propriedade pode ser controlado, subjugado e, no limite, acorrentado. O enfraquecimento das instituições de proteção é o convite para que o arbítrio privado ocupe o espaço que deveria ser do direito.
5. A dimensão simbólica: a corrente como metáfora
A corrente que prende uma criança ao pé de uma cama não é apenas um objeto de metal; é a materialização de um total fracasso civilizacional da nossa sociedade. Ela simboliza o grave rompimento do pacto de cuidado que define uma sociedade humana.
Para compreender como um pai ou uma mãe chega ao ponto de acorrentar um filho, devemos recorrer ao conceito de "banalidade do mal", de Hannah Arendt. O mal extremo não exige necessariamente monstros cinematográficos; requer apenas pessoas comuns que abdicaram da capacidade de pensar e de se colocar no lugar do outro, operando dentro de uma lógica de "normalidade" distorcida.
A radicalização da era digital potencializa essa banalidade. Quando um indivíduo é exposto diariamente a um fluxo de conteúdo que desumaniza grupos inteiros — chamando crianças trans de "aberração", professores de "doutrinadores" e defensores dos direitos humanos de "militantes corruptos" —, sua capacidade de empatia se atrofia, se esgota. O que antes seria impensável — acorrentar o próprio filho — torna-se, em sua mente, uma extensão lógica de um "combate" maior. A corrente física é precedida por centenas de correntes simbólicas forjadas em discursos, pregações, posts, comentários e compartilhamentos que ensinam, dia após dia, que a crueldade é virtude quando aplicada ao inimigo certo.
Em um ambiente onde o "cidadão de bem" é incentivado a exercer a violência como sua vontade de forma soberana dentro de seu quintal, sem a "interferência" do Estado, a proteção aos direitos humanos é vista como intrusão indevida. A corrente é o símbolo máximo dessa soberania distorcida. Ela representa o isolamento da família em relação à comunidade. Quando o entorno — vizinhos, escola, serviços de saúde — deixa de observar ou de denunciar, a corrente se torna invisível antes mesmo de ser colocada. A indiferença social é o elo mais forte dessa corrente.
6. O perigo da falsidade e da exploração política
É imperativo, contudo, fazer uma advertência ética: a tragédia dessas crianças não pode ser apenas reduzida a um joguete na arena da atual polarização partidária. Usar o sofrimento de uma criança acorrentada apenas para demonizar um espectro político adversário é, em si, uma forma de instrumentalização que desrespeita a vítima. A barbárie não tem partido — embora encontre vários ambientes partidários ou ideológicos mais ou menos propícios para sua manifestação.
A radicalização, venha de onde vier, contribui para o mesmo fenômeno de cegueira moral. O que importa para a análise sociológica não é apenas a origem partidária do discurso, mas o fato de que a violência foi naturalizada no debate público. A criança acorrentada não deve ser uma bandeira de campanha; deve ser um alerta civilizacional. O foco precisa permanecer na reconstrução das políticas públicas e na restauração de um consenso básico: o de que a integridade da infância é um valor inegociável, acima de qualquer disputa de poder.
7. O horror que deveria nos unir
Ao final desta reflexão, retorno à imagem inicial. O choque moral provocado pela visão de uma criança privada de sua humanidade básica deveria ser o ponto de convergência de uma sociedade, independentemente de inclinações ideológicas. Se esse choque não ocorre mais com a mesma intensidade, ou se é rapidamente substituído pela próxima polêmica da doentia rede social, é sinal de que algo básico e fundamental em nossa alma coletiva se perdeu no caminho desta radicalização.
A saída para esse cenário não reside apenas em mais policiamento ou no endurecimento de penas, embora a justiça deva ser rigorosa. A verdadeira resposta está no fortalecimento da escuta, na proteção institucional robusta e, sobretudo, na recuperação da nossa capacidade de sentir horror diante do horror. Precisamos de um Estado que proteja e de uma sociedade que vigie — não uns aos outros com ódio, mas todos em favor de todos aqueles que não podem se defender. E precisamos, também, de um olhar crítico sobre o ecossistema digital que nos alimenta: reconhecer que o algoritmo não é neutro e que a radicalização online tem consequências que transcendem em muito a tela.
A conclusão é amarga, mas necessária: a corrente que prende a criança ao pé da cama é a mesma que prende a sociedade à sua própria indiferença. Romper esta corrente é, obrigatoriamente, romper a outra. Enquanto permitirmos que o espírito do tempo — e os algoritmos que o moldam — seja pautado pela desumanização, continuaremos a encontrar, nas sombras de nossos lares, os elos desta barbárie que julgávamos ter deixado no passado.
Infelizmente, as Capitanias Hereditárias apenas se modernizaram. Continuam com o mesmo aroma da invasão portuguesa de 1500. Ainda acham que o povo nato serve de escravo e usam o apoio do pensamento reacionário de um grupo de políticos e líderes religiosos como uma escada de manutenção do poder. Não há qualquer sentido de igualdade e muito menos de empatia social. Os diferentes pouco importam. A corrente é apenas o retrato deste nosso facínora aspecto social.
Precisamos mudar o Brasil. Vamos?
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