JJ
A Rendição que Não Ousou Dizer Seu Nome
Diálogo com Luís Nassif
A Rendição que Não Ousou Dizer Seu Nome, em diálogo com Luís Nassif
Por JJ
Li com atenção o artigo de Luís Nassif, publicado no Jornal GGN, e considero que ele toca em uma das questões mais profundas do nosso tempo político: a perda de ambição histórica de amplos setores da centro esquerda, tanto na Europa quanto no Brasil. Seu texto provoca porque aponta que partidos e lideranças que nasceram para reformar estruturas, reduzir desigualdades e reorganizar o Estado acabaram, em muitos casos, limitados à administração moderada da ordem existente.
Nassif formula uma crítica dura, mas necessária. Ao abrir mão de um projeto consistente de desenvolvimento nacional, de soberania econômica e de reorganização produtiva, parte da social-democracia europeia e do campo progressista latino-americano deixou de oferecer horizonte real às maiorias populares. Em vez de liderar transformações, passou a gerir restrições. Em vez de disputar o futuro, acomodou-se ao presente.
Há muita verdade nessa leitura.
Na Europa, o esgotamento da chamada terceira via aproximou partidos historicamente trabalhistas das lógicas da financeirização global. No Brasil, algo semelhante ocorreu de forma adaptada à nossa realidade. Houve avanços sociais expressivos, melhoria concreta de vida para milhões e fortalecimento do mercado interno, mas sem correspondência plena em reformas estruturais capazes de sustentar esse ciclo no longo prazo.
É justo reconhecer que os governos do PT produziram resultados históricos. A valorização do salário mínimo, a expansão universitária, os programas de combate à pobreza, a ampliação do consumo popular e o reposicionamento internacional do Brasil marcaram uma época e alteraram trajetórias de vida em escala nacional. Isso não pode ser apagado por paixões ideológicas nem por revisionismos oportunistas.
Mas também é legítimo afirmar que o tamanho da oportunidade histórica exigia mudanças mais profundas. Faltaram reformas que desarmassem mecanismos permanentes de concentração de renda e poder. Faltou uma política industrial mais robusta, uma reforma tributária progressiva, uma democratização mais ousada da comunicação, maior proteção institucional contra a judicialização seletiva da política e uma reorganização do Estado voltada ao futuro.
Em outras palavras, governou-se bem o presente, mas preparou-se insuficientemente o amanhã.
Ainda assim, faço uma ressalva importante à formulação de Nassif. Chamar esse processo de rendição pode sugerir que tudo decorreu de escolha voluntária ou desistência consciente. Não foi tão simples. Houve, sem dúvida, acomodações e erros estratégicos, mas houve também um ambiente hostil e uma correlação de forças profundamente adversa.
Governos progressistas enfrentaram sistemas financeiros hipertrofiados, parlamentos conservadores, concentração midiática, pressão internacional e, no caso brasileiro, uma escalada de desestabilização institucional que se agravou a partir de 2013. Em certo momento, a disputa deixou de ser apenas econômica ou eleitoral e tornou-se uma operação de desgaste político, moral e jurídico.
Por isso, nem tudo foi capitulação. Parte significativa foi resistência possível dentro de margens estreitas.
Outro mérito do artigo de Nassif está em perceber que o fracasso não foi apenas econômico, mas também simbólico. Enquanto setores progressistas passaram a falar em gestão, equilíbrio fiscal e políticas fragmentadas, a nova direita ocupou temas como pertencimento, identidade nacional, insegurança social e revolta popular. Mesmo oferecendo respostas regressivas, soube capturar emoções coletivas que a esquerda deixou sem tradução política convincente.
Sem narrativa mobilizadora, sem projeto nacional claro e sem pedagogia popular permanente, abriu-se espaço para lideranças autoritárias se apresentarem como ruptura.
Talvez o ponto mais profundo seja outro: não fracassou apenas a social-democracia ou parte da esquerda institucional. Fracassou um modelo de democracia que preserva o rito eleitoral, mas transfere o poder decisivo para o mercado financeiro, para conglomerados tecnológicos e para estruturas pouco permeáveis à vontade popular. Nesse ambiente, partidos passam a administrar sintomas sem tocar nas causas.
É nesse sentido que o texto de Nassif merece ser lido com seriedade. Ele incomoda porque obriga o campo progressista a olhar para si mesmo sem autoindulgência. E isso é saudável.
No caso brasileiro, porém, o debate não pode se resumir à defesa nostálgica de legados nem ao inventário infinito de culpas. A pergunta central é outra: qual projeto nacional pode recolocar o povo no centro do desenvolvimento, combinar crescimento com justiça social e reconstruir a capacidade estratégica do Estado?
Sem responder a isso, o país continuará oscilando entre austeridade estéril, populismo reacionário, coalizões sem alma e ciclos curtos de melhora sem transformação duradoura.
Concordo, portanto, com a essência da crítica de Luís Nassif, ainda que com uma diferença relevante. Mais do que rendição, houve mistura de limites internos, erros políticos e ofensiva implacável dos adversários. Mas permanece válida a advertência central de seu artigo: quando forças populares deixam de disputar o futuro, outros o farão, quase sempre contra o povo.
Essa continua sendo a grande questão do Brasil de hoje.
JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira




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